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Fim da escala 6×1: o caminho para o equilíbrio entre vida e trabalho

Especialistas apontam os benefícios e alertam para a importância de garantir tempo de descanso real

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Ato em defesa do fim da jornada 6×1 na Rodoviária do Plano Piloto. Foto: Valter Campanato | Agência Brasil

Trabalha seis dias seguidos, descansa um. Um dia para resolver pendências: ir ao médico, ir ao banco, fazer compras no mercado, visitar o amigo ou familiar e, ufa, talvez descansar. A jornada de trabalho 6×1 é exaustiva e humanamente cruel. Por isso, a PEC que defende o fim da escala tem unido tantas pessoas de vertentes políticas diferentes. Mas, de onde surgiu esta ideia? Quais os seus benefícios? Há objeções? Trazemos a opinião de alguns especialistas.

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A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), publicada na década de 40, prevê a jornada de 44 horas de trabalho semanais. Na época, foi um avanço nos direitos trabalhistas, consideradas as leis anteriores. Setores onde a demanda por serviços ou produção não para durante o fim de semana passaram a adotar, por padrão, a escala 6×1. É o caso de lojas, supermercados, farmácias e outros estabelecimentos de venda ao público. De lá para cá, o mundo mudou, mas as leis seguem as mesmas.

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Ato em defesa do fim da jornada 6×1, realizado na Rodoviária do Plano Piloto. Foto: Valter Campanato | Agência Brasil

Ao redor do mundo, algumas cidades, sobretudo europeias, têm testado a escala 4×3. Em 2019, a Microsoft implementou uma jornada de quatro dias úteis no Japão, com o objetivo de melhorar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos trabalhadores, garantindo a sustentabilidade humana. Já em 2022 ocorreu o maior piloto da semana com jornada de 4 dias no mundo, realizado no Reino Unido. Para as empresas, os ganhos passaram pela redução da rotatividade dos funcionários e até no incremento na receita em comparação com os mesmos períodos anteriores, quando a jornada era mais extensa, além do aumento da produtividade.

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Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness At Work & Human Sustainability, afirma que, desde os anos 30, acreditava-se que o avanço da tecnologia reduziria as horas de trabalho. Isso não aconteceu. Ao contrário, a conectividade ampliou a pressão e a carga emocional dos trabalhadores.

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Foto: Tim Gouw | Unsplash

“A verdade é que nunca trabalhamos tanto, nossos índices de saúde mental são catastróficos e o aumento da tecnologia não reduziu nossa sobrecarga, mas nos mantém conectados 24 horas”, explica. “Um estudo britânico feito em 2017 concluiu que, em média, somos realmente produtivos por apenas 2 horas e 23 minutos por dia. Há um excesso de informações, comunicação, reuniões, distrações e parece que não há saída para a construção de algo diferente e mais saudável”, completa.

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Renata foi a responsável por trazer, em 2023, o piloto da semana de 4 dias de trabalho para o Brasil, em parceria com a organização 4 Day Week Global. De fato, algumas empresas também têm adotado o modelo no país. Os exemplos, no entanto, não contemplam os trabalhadores de funções mais operacionais, como as citadas acima. Mas, isso pode mudar. A partir do movimento VAT (Vida Além do Trabalho) criado por Rick Azevedo (recém eleito vereador no Rio de Janeiro), formou-se as bases para a Proposta de Emenda à Constituição, que prevê a implementação de escala com quatro dias de trabalho seguidos por três de folga, com garantia de manutenção dos salários.

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Foto: Jay EE | Unsplash

Para Carlos Manoel Rodrigues, professor de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), com a PEC encabeçada pela deputada Erika Hilton, o Brasil adota tendência global de modelos de trabalho mais humanizados. Ele afirma que a escala 6×1 limita o tempo de descanso do trabalhador, impedindo a recuperação física e mental necessária para lidar com as demandas diárias.

“Isso leva a um desgaste acumulado que pode culminar em problemas como ansiedade e depressão”, explica. As jornadas de trabalho mais flexíveis, como a escala 4×3, podem beneficiar significativamente a saúde mental dos trabalhadores. “A possibilidade de mais dias de descanso permite que o indivíduo tenha tempo para se recuperar fisicamente e para investir em atividades que promovam o equilíbrio emocional, como o convívio familiar, hobbies e lazer”, completa.

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Para além do bem-estar físico e mental, a proposta, se aprovada, poderia reduzir a incidência de acidentes de trabalho, frequentemente relacionados ao cansaço e à falta de atenção. Ele frisa que a fadiga compromete habilidades essenciais no ambiente de trabalho, como a concentração e a tomada de decisões. “Isso aumenta o risco de erros e acidentes que podem ter consequências graves”.

Mais descanso e melhor produtividade

De acordo com o especialista do CEUB, a mudança para a escala 4×3 também é vista como uma forma de melhorar a produtividade no longo prazo. Profissionais que conseguem equilibrar trabalho e vida pessoal têm mais disposição e qualidade em suas entregas. “Um trabalhador descansado é um trabalhador mais eficiente e menos suscetível a erros. É um benefício tanto para o indivíduo quanto para a organização”, aponta o professor.

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Foto: Toa Heftiba | Unsplash

Carolina Latorre, Diretora Geral Regional de PMI (Project Management Institute) Latam, vê com bons olhos a flexibilização da jornada de trabalho. “O futuro do gerenciamento de projetos está diretamente ligado à adaptação das organizações e de suas equipes ao ambiente. Os modelos de trabalho excessivamente rígidos, como o 6×1, podem prejudicar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional”, afirma a executiva. “É importante que as empresas repensem e busquem alternativas que ofereçam mais flexibilidade, bem-estar e qualidade de vida aos seus colaboradores. Acredito que o equilíbrio entre trabalho e descanso não só melhora a qualidade de vida dos profissionais, mas também impulsiona o sucesso coletivo nas organizações e até mesmo a produtividade”, completa.

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Os impactos positivos vão ainda muito além: o projeto pode trazer benefícios para a sociedade como um todo, com redução da sobrecarga no sistema de saúde pública e previdência, além da mobilidade urbana e sustentabilidade. “A PEC 6×1 pode representar uma mudança estrutural no mercado de trabalho brasileiro, promovendo uma jornada mais equilibrada e sustentável, com reflexos positivos na saúde mental dos trabalhadores e no desenvolvimento socioeconômico do país”, afirma o professor.

Demanda de trabalho e estímulo ao descanso

Há também especialistas que salientam para outras mudanças que precisam ocorrer, em paralelo, para que todos os benefícios sejam de fato alcançados. O Dr. Marcos Mendanha, médico do trabalho e autor do livro O que ninguém te contou sobre Burnout, publicado pela Editora Mizuno, faz algumas considerações sobre o fim da escala 6×1 e a primeira delas é a compressão da demanda de trabalho. “É fato que a redução da carga horária semanal de trabalho pode resultar em mais energia, disposição, produtividade e bem estar. No entanto, se a diminuição da carga de tarefas não for proporcional aos novos dias de trabalho efetivo, o resultado é inverso, ou seja, produz mais cansaço e estresse”, pondera ele.

O especialista explica que, por exemplo, se a carga semanal estava distribuída para 6 dias e se reduz a jornada de trabalho para 4 dias, mantendo-se a carga de trabalho original, a conta não fecha. “O trabalhador, nesse caso, terá que fazer tudo que fazia em 6 dias, agora em 4 dias. Isso gera sobrecarga de trabalho, um dos fatores que mais promovem Burnout e adoecimentos mentais no contexto ocupacional”, explica Mendanha.

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Foto: FreePik

Outro ponto fundamental para a redução da carga de trabalho promover o bem-estar é o uso real dos dias de descanso. O que os trabalhadores brasileiros fariam com esses novos um ou dois dias de folga por semana a longo prazo? Para Mendanha, “essa pergunta importa pois nada garante que, por diversas e compreensíveis demandas, novos vínculos profissionais sejam pactuados nesses dias que ficarão ociosos”.

O profissional de saúde alerta que a situação acima já foi verificada, por exemplo, na área da saúde, onde os trabalhadores possuem a “jornada 12×36”. “Ocorre que para muitos desses trabalhadores, esse tempo maior para o descanso se torna um estímulo para assumir novos trabalhos. Resultado: se antes o cansaço era por um emprego, agora ele vem por dois ou mais. Esse é um ponto extremamente importante a ser refletido”, alerta o médico.

“Infelizmente, muitos trabalhadores da saúde já fazem o inverso da jornada originalmente proposta, trabalhando 36 horas e descansando 12, em múltiplos vínculos, o que prejudica enormemente a saúde física e mental dessa população”, alerta.

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Produtividade

Para quem trabalha em escritórios, sobretudo diante do computador, há diversos “sabotadores” da produtividade. Renata Rivetti lista alguns:

  • Sobrecarga de reuniões, a maioria longa, mal administrada e improdutiva;
  • Sobrecarga de informações gerado por má comunicação;
  • Mau uso da tecnologia, sem uso do potencial da Inteligência Artificial para automatizar processos repetitivos e burocráticos;
  • Cultura imediatista e falta de priorização. Se tudo é prioridade, nada é prioridade;
  • Falta de foco. A mente divaga em 47% do tempo e atualmente as pessoas controlam muito pouco os gatilhos externos, como notificações online, por exemplo;
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Entre os benefícios da semana de 4 dias, estão o bem-estar e a produtividade dos funcionários e funcionárias. Foto: Eric Rothermel | Unsplash

Renata ainda aponta ações práticas que podem ser adotadas pelas empresas:

  1. Revisão das reuniões para que não ocupem toda a agenda do trabalhador. É a cultura do “esteja 100% presente – de forma híbrida ou presencial – e ocupado e tudo estará bem”.
  • Rever o que precisa ser debatido em uma reunião ou não;
  • Rever a necessidade de reuniões recorrentes;
  • Criar regras para que sejam poucos participantes, com uma agenda pré-definida, documentos trabalhados em sincronia e previamente estudados;
  • Comunicação em sincronia, mais eficiente e completa;
  • Realizar *stand-up meetings para debater temas pontuais.

(*Stand-up meeting é uma reunião rápida e geralmente diária, em que a equipe se reúne em pé para discutir o andamento das tarefas, alinhar as prioridades do dia e identificar obstáculos.)

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empresa reunião
Foto: Christina Wocintechchat.com | Unsplash

2.Com o espaço que “sobra das reuniões”, pode-se dedicar momentos da agenda para o hiperfoco.

“É imprescindível que os profissionais tenham momentos planejados para trabalhar com mais foco, sem tentar ser multitarefa, trabalhando durante reuniões, por exemplo”, explica Renata.

3.Ferramentas de priorização e planejamento para que as pessoas consigam focar naquilo que realmente é prioritário, delegando ou planejando para outro momento, como por exemplo a Matriz de Einsenhower.

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A Matriz de Eisenhower é uma ferramenta de gestão de tempo que ajuda a priorizar tarefas com base na sua importância e urgência.

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Foto: Jan Baborak | Unsplash

4.E o uso da inteligência artificial generativa, para auxiliar na criação de atas e resumo das reuniões, design, criar esboços de conteúdos, fazer transcrições, entre outras.

“Porém, a IA precisa ainda ser usada com cautela, é necessário fazer a revisão de erros e análise de segurança. Tomando estes cuidados, é uma ferramenta que pode ajudar muito na redução da sobrecarga”, conclui.

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Essas soluções práticas não necessitam de grandes investimentos e podem auxiliar na promoção do equilíbrio para um trabalho que esteja em harmonia com a vida pessoal. “O futuro do trabalho pode ser melhor e mais sustentável, para os indivíduos e para a sociedade, mas depende obviamente das ações dos profissionais, das empresas e lideranças”, finaliza Renata Rivetti.