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Foto: alleksana | Pexels

Em meio à pior crise de combustíveis dos últimos anos, os triciclos movidos a energia solar passaram a ocupar as ruas de Cuba. Conhecido há décadas pelos carros americanos antigos que continuaram circulando durante anos de embargo e escassez, mantidos graças à criatividade e a peças improvisadas, o país agora direciona essa mesma engenhosidade para um novo tipo de veículo. 

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A crise energética se agravou depois que a chegada de petroleiros caiu de cerca de oito por mês para apenas um desde janeiro, quando os Estados Unidos ameaçaram impor tarifas aos países que vendem petróleo para Cuba. A ilha produz apenas cerca de 40% do combustível de que necessita. Como consequência, os apagões rotativos se intensificaram, linhas de ônibus foram suspensas e a escassez de alimentos e medicamentos aumentou em todo o país. Nesse cenário, os triciclos elétricos passaram a preencher uma lacuna crescente no transporte urbano. Trata-se de um novo tipo de veículo para um novo tipo de crise. 

A maior parte dos triciclos é fabricada na China, por marcas como Zonsen e Jinpeng, e custa entre US$ 2.000 e US$ 4.000. Os modelos geralmente utilizam baterias de gel ou de lítio e são comprados em países como o Panamá antes de serem enviados à ilha por parentes ou importadores. Há também veículos montados em Cuba a partir de peças, em um acordo com a China por meio da marca Vedca. 

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Para um país onde funcionários públicos recebem cerca de US$ 10 por mês e trabalhadores do setor privado aproximadamente US$ 40, o valor desses veículos está muito além da realidade da maioria da população. Ainda assim, uma economia paralela surgiu em torno deles. Alguns cubanos venderam seus carros antigos movidos a gasolina para adquirir um triciclo; outros receberam o veículo de familiares que vivem no exterior, onde o custo costuma ser menor. Também há pequenos empresários que decidiram investir seus lucros na compra dos triciclos, apostando que eles se pagariam com o tempo

Havana, Cuba
Foto: Mehmet Turgut Kirkgoz | Pexels

A aposta deu resultado. Hoje, os triciclos atendem rotas de ônibus que deixaram de existir, transportam produtos agrícolas e mercadorias para os mercados e até fazem a coleta de lixo em alguns bairros de Havana. Também funcionam como transporte de passageiros, que podem chamá-los nas ruas para corridas que custam cerca de 500 pesos cubanos, menos de um dólar. Embora esse valor represente uma despesa significativa em um país onde os salários mensais variam entre US$ 10 e US$ 40, ainda é uma alternativa melhor do que percorrer longas distâncias a pé. “Se você tem dinheiro para pagar, simplesmente pega; caso contrário, não consegue ir a lugar nenhum”, disse Berta Ferrer, de 52 anos, balconista em uma loja no centro de Havana, que faz o trajeto quatro dias por semana. Mais interessante do que a expansão dos próprios triciclos é a forma como muitos proprietários passaram a adaptá-los.

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Diversos veículos receberam paineis solares instalados sobre os toldos que cobrem os bancos dos passageiros. Com isso, as baterias podem ser recarregadas enquanto os triciclos estão estacionados ou em circulação, reduzindo a dependência da rede elétrica, cuja instabilidade é frequente. A adaptação custa cerca de US$ 500, mas, segundo os proprietários, o investimento é recuperado rapidamente. “Há tantos triciclos em Havana que você não consegue andar 10 minutos por uma rua sem ver inúmeros deles passando”, disse Carlos Álvarez, de 29 anos, engenheiro e dono de uma oficina especializada em veículos elétricos. 

Essa capacidade de adaptação não é novidade em Cuba. Há décadas, os moradores aproveitam os recursos disponíveis para manter veículos e equipamentos em funcionamento. Se antes isso acontecia com Buicks e Chevrolets da década de 1950, hoje a criatividade é aplicada a triciclos elétricos chineses equipados com paineis solares no teto. Para muitos proprietários, essas soluções deixaram de ser apenas uma resposta emergencial. “Acho que isso veio para ficar”, disse Ricardo Quintero, um engenheiro que usa seu triciclo para transportar produtos agrícolas até a barraca de verduras que administra com sua família. 

As rotas, oficinas mecânicas e adaptações para energia solar desenvolvidas em torno desses veículos dificilmente desapareceriam, mesmo que o abastecimento de combustível voltasse à normalidade. As ruas de Havana já se reorganizaram em torno desse novo modelo de mobilidade. “É assim que as pessoas se locomovem agora”, disse Liecer de la Cruz, de 40 anos, dono de um dos veículos. Os antigos carros que ainda soltavam fumaça preta pelas ruas da capital cubana há apenas um ano praticamente desapareceram. Em seu lugar, circulam veículos movidos a energia solar, que operam sem emissões de fumaça. São mais lentos, mas já fazem parte da nova dinâmica da cidade. 

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