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Uma bicicleta retira até 52 passageiros por mês do transporte público

O número de bicicletas aumenta quando a tarifa de ônibus é reajustada e quando o preço dos combustíveis sobe, aponta estudo da PUC

ciclopassarela
Foto: Edson Lopes Jr | SECOM

A área de transporte está entre as três que mais emitem gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, ao lado de agricultura e resíduos, indicou o relatório Net Zero Readiness Report 2023, da consultoria KPMG. O setor foi responsável por 16% das emissões desses gases no país em 2022. O transporte também lidera a lista do aumento nas emissões absolutas de GEE: houve crescimento de 53% entre 2005 e 2022.

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Diante do avanço das mudanças climáticas, reduzir as emissões poluentes, incluindo esforços ligados ao transporte, tornou-se uma necessidade urgente. Nesse contexto, as bicicletas podem ser grandes aliadas. Um estudo que contou com a participação de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) buscou compreender o impacto do uso de bicicletas no transporte público e, consequentemente, na redução das emissões de gases poluentes, tendo como objeto de análise a cidade de Curitiba (PR).

“Os sistemas municipais de transporte enfrentam diversos desafios, incluindo disponibilidade, desempenho, segurança, conforto e valor da tarifa. Do outro lado, as bicicletas, apoiadas por incentivos públicos em razão de seu apelo ambiental, competem com o transporte público”, afirma Luis André Fumagalli, pós-doutor em Gestão Urbana pela PUCPR.

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bicicleta transporte
Parque Tingüi em Curitiba. Foto: Márcio Cabral de Moura | Flickr

Bicicleta versus transporte público

Entre os destaques da pesquisa, alguns achados foram bastante interessantes, como a conclusão de que cada nova bicicleta na cidade retira até 52 passageiros – ou passagens de ônibus – do sistema por mês. Ainda, verificou-se que a cada R$ 0,10 de reajuste na tarifa do transporte coletivo, o número de bicicletas no município aumenta 1.068 unidades, assim como são acrescidas 1.520 unidades à quantidade de bicicletas da cidade quando o preço dos combustíveis sobe R$ 0,10. Por fim, para cada quilômetro adicional de ciclovias implantadas, há um aumento de 333 bicicletas em circulação.

Os pesquisadores também constataram que o passageiro que troca o ônibus pela bicicleta raramente volta a usar o transporte coletivo, exceto em situações de clima severo, como baixas ou altas temperaturas e em dias muito chuvosos.

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pedalar
Foto: Matthew LeJune | Unsplash

Para chegar aos resultados, os pesquisadores realizaram análises estatísticas e de regressão sobre os números do transporte coletivo e da entrada e aquisição de outros modais de transporte na capital paranaense num intervalo de tempo de 10 anos, entre 2010 e 2019, coletados de sites oficiais públicos. No período, a média de usuários de ônibus em Curitiba por dia era de 1,47 milhão.

Além das bicicletas, foram conduzidas pesquisas envolvendo automóveis e motocicletas. A cada novo carro, há uma perda estimada de 25 passageiros – ou passagens – mensais. Quando o olhar recai sobre as motos, observa-se que são 201 usuários – ou passagens.

“As bicicletas estão absorvendo consideravelmente os passageiros do transporte público e, conscientemente ou não, a administração da cidade vem contribuindo para essa tendência por meio de investimentos em ciclovias dedicadas, serviços de compartilhamento de bicicletas elétricas e bicicletários no centro da cidade”, comenta Fumagalli.

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Niterói bike escola
O projeto visa promover o uso da bicicleta como meio de transporte no retorno às atividades escolares. | Foto: Prefeitura de Niterói

Para o pesquisador, os achados podem auxiliar administrações municipais no planejamento urbano relacionado ao equilíbrio e manutenção do transporte público, que perde demanda de forma crescente a cada ano, diminuindo a receita e encarecendo a passagem, atingindo principalmente passageiros que não têm outras opções de locomoção.

A pesquisa “Patronage loss and bicycles: factors influencing mode transition from a strategic digital city perspective” (“Diminuição de demanda e bicicletas: fatores que influenciam a transição modal na perspectiva da cidade digital estratégica”, em tradução livre) foi publicada na revista científica Journal of Infrastructure, Policy and Development.

Segurança no trânsito ainda é desafiador

Diferentemente de Curitiba, que implantou as primeiras estruturas cicloviárias urbanas do país, diversas cidades ainda têm pouco estímulo ao transporte ativo. A Tembici, empresa responsável pelo compartilhamento de bicicletas nas principais capitais brasileiras, fez um levantamento com a sua base de usuários. Para 36% dos respondentes, a segurança no trânsito é o principal obstáculo que os impede de pedalar mais.

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Sob o recorte de gênero, o impacto é maior entre as mulheres. Segundo o estudo, 40% das entrevistadas afirmam que a insegurança é um dos principais desafios que as impedem de pedalar mais; entre os homens ouvidos, o temor foi citado por 33%.

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“Destacar aspectos que impactam a experiência do ciclista é uma maneira de incentivar a cultura da bicicleta ao mostrar as oportunidades que as cidades têm para se tornar espaços que fomentam a ciclomobilidade. Como próximo passo, o desenvolvimento de propostas e parcerias que mitiguem a insegurança no trânsito é essencial. A transformação da mobilidade urbana envolve a escuta, planejamento e, principalmente, execução”, comenta Thiago Boufelli, Diretor de Operações da Tembici.

Os desafios enfrentados e apontados pelos brasileiros se repetem na América Latina, região na qual a cultura da bicicleta também está em plena expansão. O território contabiliza mais de 45 mil bikes e cerca de 80 sistemas de bicicletas compartilhadas. No local, o Brasil se destaca por deter a maior oferta de bike-sharing no continente e, em números, representa 35% do total. Entretanto, na região, a proporção de quilômetros de vias com ciclovias ou ciclofaixas não chega aos 6%.

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