Taxa de vacinação infantil no Brasil é a menor dos últimos 30 anos

No início de outubro, o país registrou um caso de poliomielite, doença que estava erradicada há 33 anos no país

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Foto: Divulgação | UniCuritiba

Em outubro, no dia 17, o Brasil celebra o Dia Nacional da Vacinação. Se por um lado podemos nos orgulhar do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o maior programa público de imunização do mundo com distribuição 300 milhões de doses por ano e cerca de 40 mil salas de vacinação, por outro lado, enfrentamos, nos últimos anos, uma queda na taxa de vacinação da população. Menos vacinas representam uma ameaça à nossa saúde com a volta de doenças já controladas ou erradicadas no país.

A cobertura vacinal infantil retrocedeu ao menor nível das últimas três décadas. No início de outubro, foi registrado o primeiro caso de poliomielite no Brasil depois de 33 anos. Confirmada no Pará, a volta da doença acendeu um sial de alerta. Entre 2019 e 2021, o índice de crianças vacinadas contra paralisia infantil caiu de 84,2% para 67,7%.

Especialista em imunologia clínica, Hemerson Bertassoni Alves afirma que a vacinação é tida universalmente como uma excelente forma de proteção individual. “O principal reflexo da queda na cobertura vacinal é o aumento da prevalência de inúmeras doenças sem que o SUS esteja devidamente preparado para dar conta delas. A poliomielite, por exemplo, não tem cura e afeta crianças que se tornarão adultos com um futuro complicado.”

Além da baixa taxa para imunização contra a poliomielite, dados do PNI revelam que a cobertura contra sarampo, caxumba e rubéola (tríplice viral) no Brasil foi reduzida de 93,1% para 71,49% entre 2019 e 2021. Ou seja, três em cada dez crianças não estão devidamente protegidas.

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Foto: CDC | Unsplash

“O Brasil é um dos únicos países com mais de 200 milhões de habitantes que oferece um programa gratuito de imunização de forma ampla. É inaceitável que a cobertura vacinal dos mais de 20 imunizantes oferecidos pelo PNI esteja tão baixa. A vacinação é crucial para termos um país mais saudável, livre de surtos e epidemias”, destaca Eduardo Calderari, presidente-executivo da Interfarma – Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa.

Segundo dados levantados pela Associação por meio do DATASUS, a taxa média de cobertura vacinal, considerando todos os imunizantes oferecidos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), foi de 67,42% em 2020 e 60,04% em 2021, bem abaixo dos 95% de 2015. “Há anos estamos registrando queda no índice de vacinação. A última vez que o Brasil atingiu a meta foi em 2015. Hoje estamos na iminência de ver a volta da poliomielite no país, assim como registramos o retorno do sarampo. Em 2021, a taxa de vacinação para a paralisia infantil foi de 69,99%, sendo que a meta é de 95% do público-alvo composto por crianças menores de 5 anos”, alerta Eduardo.

A pandemia de COVID-19 pode ter tido um impacto grande na cobertura vacinal dos imunizantes oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas não explica sozinha a atual situação. “A procura pelas vacinas já vinha caindo mesmo antes da pandemia. Pode ser um dos principais motivos para as baixas taxas de 2022 e 2021 – ano que registramos a pior queda em 30 anos, mas não o único. Há outros fatores que explicam a baixa procura dos imunizantes, entre eles, a difusão de notícias falsas sobre vacinação e o crescimento dos grupos antivacinas, que fazem um desserviço para a Saúde Pública”, lamenta presidente-executivo da Interfarma.

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Foto: Pixabay

Segundo ele, outro motivo pela queda nas taxas de vacinação é a ausência de imunizantes em algumas Unidades Básicas de Saúde (UBS). “Por isso, a troca de informações entre o Ministério da Saúde, as secretarias estaduais e municipais e as UBS precisa funcionar para que não falte imunizantes”, aponta Calderari.

A taxa de imunização das vacinas disponíveis para adultos e gestantes também vem apresentando queda. Segundo dados do Sistema de Informação do PNI, em 2021, a cobertura da vacina dTpa gestante foi de 43,09%, menor do que o ano de 2019, que foi de 46,36%.

Causas e consequências

“Muitas doenças, as antigas principalmente, foram negligenciadas nos últimos anos por sua baixa frequência, o que causou a falsa sensação de que não ocorreriam mais”, analisa Hemerson, que é professor do curso de Biomedicina e Farmácia do UniCuritiba – instituição que faz parte da Ânima Educação, uma das principais organizações educacionais de ensino superior do país.

Segundo o especialista, além de reforçar medidas profiláticas, as autoridades públicas deveriam ter investido em políticas de esclarecimento sobre a importância das vacinas. “Tudo isso foi agravado pelo efeito ideológico de não acreditar na ciência, somado a muitos devaneios disseminados em nossa sociedade”.

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Foto: CDC | Unsplash

Para o professor, as mesmas pessoas que alegam a falta de segurança dos imunizantes não consideram a redução no número de mortes por Covid-19 depois que a vacinação começou. “O movimento antivacina traz prejuízos imensos para a sociedade e provocará novos colapsos nos sistemas de atenção à saúde.”

Vacinas e saúde

Descobertas há mais de 200 anos e desenvolvidas para estimular o organismo a criar anticorpos, as vacinas contribuíram para o controle de doenças como caxumba, rubéola, tétano, sarampo, gripe e outras. A Organização Mundial da Saúde estima que 3 milhões de vidas sejam salvas por ano em função da vacinação.

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Foto: Towfiqu Barbhuiya | Unsplash

No Brasil, o SUS oferece mais de 20 vacinas. O Calendário Nacional de Vacinação contempla de recém-nascidos a idosos, gestantes, indígenas e pacientes em condições clínicas especiais. Segundo Hemerson Bertassoni Alves, para que as taxas de vacinação voltem a crescer, “o melhor caminho é mostrar os benefícios das vacinas na proteção contra vírus e outros agentes causadores de doenças”.

Problema mundial

Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef revela que o baixo índice de vacinação se repete em esfera global: 25 milhões de crianças não completaram o esquema vacinal contra difteria, tétano e coqueluche. No ano passado, a cobertura da primeira dose contra sarampo caiu para 81%, o menor patamar desde 2008. No caso da HPV, o índice na primeira dose é de apenas 15%.

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Ilustração de Cecilia Marins para a Campanha #VacinaEmDia Halo – iniciativa global da ONU