fungos árvores
Lactarius índigo (Schwein.) Pe. observado no México. Foto: Dulce Monserrath Sánchez Guzmán | iNaturalist | CC BY-SA 4.0
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A pecuária contribui de forma significativa para as mudanças climáticas, seja pelo metano liberado pelos animais, seja pela ligação da atividade com casos crescentes de desmatamento ilegal. Vários estudos, inclusive o relatório do IPCC divulgado em 2021, apontam para a redução do consumo de carne e adoção de uma dieta baseada em ingredientes vegetais como um dos caminhos o combate ao aquecimento global.

Dentro desta perspectiva, um novo estudo publicado na revista Science of the Total Environment sugere que a combinação de projetos de reflorestamento com cultivo de cogumelos pode ajudar a substituir a produção de carne, ao mesmo tempo em que regenera florestas de madeira dura de espécies mistas, biodiversas e minimamente manejadas nos trópicos.

Os pesquisadores Paul W. Thomas e Luis-Bernardo Vazquez analisaram o potencial de cultivo de espécies de árvores inoculadas com Índigo Lactarius , popularmente conhecido como cogumelo azul. Apesar de relativamente popular na culinária mexicana, o cogumelo não é muito valorizado em outras partes do mundo, apesar de ser fácil de identificar e crescer naturalmente em grande parte da América do Sul, Central e do Norte. 

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O que eles descobriram foi que, pelo menos teoricamente, a produção de cogumelos poderia realmente superar a pecuária de gado em valor nutricional.

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Lactarius índigo (Schwein.) Pe. observado no México. Foto: Dulce Monserrath Sánchez Guzmán | iNaturalist | CC BY-SA 4.0

Segundo os cientistas, “mostramos que deve ser possível uma produção de proteína de 7,31 kg por hectare, superando a produção extensiva de carne bovina. Em contraste com a agricultura comercial, o cultivo de L. índigo pode aumentar a biodiversidade, contribuir para objetivos de conservação e criar um sumidouro líquido de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que produz um nível semelhante ou mais alto de proteína por unidade de área do que o uso agrícola mais comum de desmatamento”.

Thomas conta que a pesquisa surgiu em conversas que ele e Vazquez vinham tendo sobre o cultivo de cogumelos como uma estratégia potencial para projetos de renda rural e segurança alimentar no México. 

Combinando esses objetivos com uma compreensão emergente do impacto extremamente negativo que as mudanças climáticas trarão aos sistemas biológicos, esta pode ser uma estratégia poderosa para equilibrar as demandas concorrentes da agricultura, biodiversidade, conservação e sequestro de carbono.

Fungos e árvores

Thomas explica que o Lactarius indigo é um fungo ectomicorrízico, ou sej, uma espécie que tem uma relação simbiótica com as raízes de certas árvores. Graças a esta característica é possível regenerar uma grande área florestal e produzir alimentos sem impacto no desenvolvimento das árvores.

“O Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido diz que deveríamos plantar 30.000 hectares por ano , por exemplo, mas não estamos nem perto. E o mesmo vale para países de todo o mundo”, alerta Thomas.

“Cerca de 70% da floresta amazônica desmatada atualmente é derrubada para pastagem, então está claro que algo precisa mudar”, completa o cientista.

Fazendas de cogumelos

De acordo com os pesquisadores, as fazendas de cogumelos não seriam uma paisagem muito diferente de florestas nativas. “As árvores inoculadas com tampas de leite seriam combinadas com uma mistura de diferentes espécies nativas para biodiversidade, e haveria um manejo florestal mínimo necessário durante todo o ano. Uma vez estabelecido, a atividade principal seria enviar forrageadoras para colher os cogumelos quando as condições estivessem adequadas para a frutificação”, explica Thomas.

No entanto, os cientistas foram cautelosos em afirmar que a associação com fungos traria vantagens ao crescimento das árvores, já que isso aconteceu em laboratório, mas que no campo existem muitos outros fatores que devem ser considerados, como outras espécies de fungos e animais.

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Lactarius índigo (Schwein.) Pe. observado no México. Foto: Dulce Monserrath Sánchez Guzmán | iNaturalist | CC BY-SA 4.0

Próximos passos

Depois de analisar o potencial teórico em termos de produção de alimentos e a identificar espécies de árvores que sejam hospedeiras viáveis ​​para os fungos, Thomas e Vazquez pretendem voltar a sua atenção para os fatores sociais e económicos da proposta. 

Para Thomas, devem haver mudanças na maneira de administração destas áreas. Terras manejadas de forma mais intensiva, por exemplo, podem produzir mais alimentos, mas contribuem menos com a regeneração e manutenção da biodiversidade. Da mesma forma, pode ser possível cultivar florestas realmente biodiversas e saudáveis, tornando cultivo de cogumelos um benefício auxiliar menos significativo.

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