Parte casa, parte ONG, a porta do Instituto Favela da Paz está sempre aberta e o que se aprende e o que se faz lá, tudo é para todos. No Jardim Ângela, zona sul da cidade de São Paulo, vive uma comunidade formada por uma família de dez pessoas e mais um bom tanto de vizinhos e amigos que entram e saem porque ali encontram parceria e acolhimento quando a busca é troca e aprendizado.

Fundado em 2010 pelos irmãos Fabio e Claudio Miranda de Moura, o Instituto Favela da Paz é uma rede de empreendedores sociais formada por músicos, artistas independentes, articuladores culturais e moradores do bairro. Desde sua criação, o braço da sustentabilidade foi parte importante das iniciativas, mas a partir de 2013 esse viés ganhou nome e sobrenome e virou o projeto Periferia Sustentável.

“Periferia Sustentável é um projeto que trabalha com desenvolvimento e implementação de tecnologias sustentáveis, de baixo custo e que podem ser entendidas e replicadas por todos. A ideia é aliar tecnologia a uma relação mais harmônica do ser humano com a natureza, o bem-estar e a humanidade”, explica Fabio Miranda, músico, inventor por natureza e idealizador do projeto.

Na casa do Instituto, a luz vem das placas solares geradoras de energia. A água é armazenada da chuva e garante o banho e a rega das plantas. A água de beber vem da mina de onde brota pura, de excelente qualidade e que resiste mesmo rodeada de concreto. “Desde que eu me entendo por gente, essa água existe aqui e cerca de 70% da comunidade bebe dela. A Unidade Básica de Saúde do bairro faz análises regulares e há mais de 30 anos ela se mantém própria pra consumo”, conta Fábio.

Fábio Miranda é o idealizador do projeto Periferia Sustentável | Foto: Periferia Sustentável

O quintal da casa do Fabio e do Claudio, que também é a sede do Instituto e do projeto Periferia Sustentável, abriga ainda o Laboratório de Energias Renováveis. É desse lugar que saem todas as ideias que vão sendo implementadas no próprio Instituto e em outras comunidades através de pessoas que passam por cursos e multiplicam o que aprenderam. “O Laboratório de Energias Renováveis tem energia solar, automação, horta orgânica e as novidades por aqui não param. Hoje, por exemplo, eu já controlo todo o Laboratório pelo meu celular”, comemora Fábio que, na sequência da fala, faz o ventilador começar a funcionar com poucos cliques na tela do aparelho.

As principais linhas de atuação do Laboratório são: desenvolver tecnologias tanto novas como sustentáveis voltadas para a geração de energia limpa e renovável e realizar cursos e oficinas gratuitas para jovens e adultos como uma forma de compartilhar o conhecimento.

“O nosso objetivo é mostrar que qualquer pessoa pode levar e desenvolver um projeto de sustentabilidade pra sua comunidade”, diz Fabio. “Assim como eu, que só completei o terceiro colegial e nunca fiz faculdade, qualquer um consegue. Por isso buscamos sempre a simplicidade no modo de fazer”, completa o inventor que já levou essa tecnologia até mesmo para comunidades ribeirinhas na Amazônia. Ele ainda ministra diversos cursos em escolas, faculdades, projetos e SESCs por todo Brasil.

Biodigestor, tudo se renova

São muitos os feitos que chamam a atenção quando se vê de perto tudo o que acontece no Insituto Favela da Paz, mas um deles brilha aos olhos quando o assunto é redução de resíduos. É o sistema biodigestor que transforma a sobra de alimento da cozinha em biogás e biofertilizante.

“A principal função do biodigestor é dar um destino correto para os resíduos sólidos que sobram da cozinha. São cascas, sementes e outras partes de alimento que são jogadas fora na hora de cozinhar e que ao serem enviadas para o biodigestor viram matéria-prima que volta pra cozinha”, explica Fabio.

O sistema converte o lixo orgânico da cozinha em biogás, utilizado para abastecer o fogão. O outro sobproduto é o biofertilizante ou chorume, que alimenta a horta vertical. “Com essas ações, nós garantimos o destino do nosso lixo de uma forma saudável e equilibrada, geramos nosso próprio gás de cozinha e não mandamos nada para os aterros. Nossa preocupação constante é que tudo aqui se renove”, diz Fabio.

Cozinha Vegearte

Como tudo no Instituto Favela da Paz, a cozinha também é um lugar coletivo de experimentação, troca e aprendizado e que tem como base a sustentabilidade, tanto na alimentação como nas relações. O projeto Vegearte estimula a alimentação vegetariana, saudável e sustentável.

“O Vegearte surgiu de uma necessidade. Eu fui criada dentro da cozinha e minha mãe sempre foi uma cozinheira de mão cheia. A partir dessa experiência que eu vivi junto com ela, eu pude observar como ela unia as pessoas através da culinária. Por isso, quando ela se foi, eu senti uma vontade muito grande de dar continuidade a toda essa história e encontrei nesse lugar do passado algo muito rico pra trazer pra minha comunidade”, conta Elem Fernandes, coordenadora do Vegearte.

Oficina de culinária na cozinha Vegearte | Foto: Instituto Favela da Paz

Através de oficinas, Elem apresenta a culinária vegetariana, um novo jeito de se alimentar e o cuidado com o que “sobra” na cozinha gerando um novo olhar e uma nova cultura para os moradores da comunidade.

“Eu percebi que muitas mulheres da comunidade cozinhavam e vendiam marmitas pra fora. Então, eu as convidei para participar de uma oficina aproveitando o que elas já usavam na culinária cotidiana”, conta Elem. “A ideia da oficina é que as pessoas tragam o que já tem na geladeira para que juntas possamos criar uma refeição saudável”, conta.

Elem ensinando as crianças a prepararem suas refeições | Foto: Cozinha Vegearte

Além de ser um espaço de aprendizagem, a cozinha onde acontece o Vegearte recebe diariamente os jovens que fazem os cursos de tecnologia sustentável e que, inclusive, são responsáveis por preparar seu próprio almoço, o que faz com que também sejam inseridos nesse movimento coletivo por uma alimentação saudável.

Jovens fazendo curso de tecnologias sustentáveis | Foto: Periferia Sustentável

O Instituto Favela da Paz pode ser visto como um grande organismo vivo em que uma tecnologia favorece a outra e onde todo o conhecimento é compartilhado. Para conhecer de perto é só chegar, a porta está sempre aberta.

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Comunicadora, nativa da Mata Atlântica, com formação em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e que trabalha pelo acesso à produção de comunicação como direito. Adora dormir em rede, no meio da floresta, tem especialização em Educomunicação e sonha em cruzar com uma onça na Amazônia. Vive em busca de um curso d’água que venha acompanhado de uma boa porção de gente sábia, admirável e que tem tanto a dizer e ensinar.