Durante um ano e dois meses cavando a terra com as mãos, o povo Guarani-Mbya da aldeia Itakupe (atrás da pedra), localizada atrás do Pico do Jaraguá, zona norte de São Paulo, traz de volta à vida o fluxo de uma das nascentes de água da região que dá origem ao Rio Ribeirão Manguinho. O caminho que a água fazia até então estava assoreado por conta do desmatamento provocado pelos juruás (homens brancos) que plantaram eucalipto antes dos Guarani retomarem a terra.

Além de terem recuperado o caminho da água, os Guarani de Itakupe construíram três lagos; em um deles foram introduzidas sete espécies de peixes que vão garantir a subsistência dos moradores da aldeia. A proposta é chegar até dez espécies, sempre priorizando as que já faziam parte do ecossistema local.

O projeto de construção dos lagos surgiu a partir do encontro com o permacultor e ativista ambiental Adriano Sampaio, que estuda e mapeia os rios de São Paulo. Ele é responsável pela criação do “Existe Água em SP”, uma iniciativa que tem como finalidade chamar a atenção para a situação dos rios e das nascentes da cidade.

Além de um dos lagos na aldeia ter se tornado fonte de alimento, a iniciativa traz também esperança para um povo originário que vive pressionado pelo crescimento urbano. “A inauguração desses primeiros lagos é a concretização do sonho de toda uma comunidade. Água é vida”, diz Geni Macena, líder da aldeia.

Crianças da aldeia e Adriano olhando o lago Itakupe | Foto: Camila Doretto

Acompanhar o renascimento da vida na floresta através de um curso d’água tem significado relevante para quem carrega na memória uma relação ancestral de conexão e cuidado com a natureza. Para os Guarani-Mbya, todos os seres que habitam este mundo têm algum espírito-dono que zela por eles, inclusive a água. “A água da nascente ajuda a fortalecer o nosso interior. Ela é viva e tem espírito”, diz Pedro Macena, líder espiritual da aldeia Itakupe.

Os rios são como veias e artérias do nosso corpo

Quando o permacultor e ativista ambiental Adriano Sampaio chegou na aldeia, em 2015, foi convidado por Ari, o cacique da época, a conhecer o rio que estava assoreado. O acúmulo de matéria orgânica que sufocava o caminho da água era resultado da plantação de eucaliptos feita pelo juruá (homem branco).

O assoreamento acontece quando a cobertura vegetal natural é retirada e o solo e as rochas que estão nas margens são carregados para o fundo do curso d’água, principalmente no período de chuvas. E apesar da situação do rio ser preocupante na ocasião da primeira visita, a nascente ainda estava viva e o cacique havia garantido a Adriano que seria possível recuperar seu fluxo.

Como a relação do permacultor com a água e com a recuperação de nascentes é antiga, ele mergulhou nessa parceria e a partir de janeiro de 2018 passou a ir todos os dias da semana para a aldeia. “Esse trabalho de recuperar os recursos naturais deveria ser feito em toda a cidade de São Paulo”, diz Adriano. “Os rios são como veias e artérias do nosso corpo e a gente precisa deles pra viver. Hoje, fazemos um mal uso da água e por isso essa fonte de vida corre sérios riscos de se esgotar. É nosso dever regenerar os recursos naturais da cidade”, completa.

O renascimento dos lagos

Como Adriano Sampaio já convivia com os Guarani Mbya de Itakupe desde 2015, ele já havia se conectado com uma sabedoria ancestral dos povos indígenas que diz muito sobre como lidar com a natureza. Por isso, trabalhar com as mãos e respeitar o fluxo natural da água eram objetivos primordiais dos esforços pela recuperação da nascente. O modo de trabalho foi predominantemente artesanal: 20% na enxada e 80% na mão.

“Quando começamos a mexer com a terra, primeiro usamos a enxada pra tirar a matéria orgânica que estava acumulada na camada superior. Depois, quando chegamos na argila, passamos a usar a técnica ancestral dos Guarani de trabalhar com as mãos. Conforme tirávamos a argila, a usávamos para construir uma barragem que tem como função impedir o assoreamento do lago que abriga os peixes. Trabalhar dessa maneira possibilitou que observássemos o trajeto da água e a partir daí, pudéssemos seguir o caminho natural do rio”, conta Adriano.

Até agora, foram construídos três lagos. O primeiro deles, que fica na parte mais alta, tem como função conter o assoreamento. O segundo lago é o responsável pela reprodução dos peixes, onde os indígenas vão voltar a pescar. E o terceiro, ainda em construção, é o lago onde que todos poderão nadar e aproveitar a água que, graças à presença dos Guarani, ainda corre limpa pela terra.

“Mas o trabalho não terminou”, ressalta Geni Macena, líder de Itakupe. O objetivo de Adriano Sampaio e dos Guarani-Mbya do Jaraguá é continuar construindo lagos até que tenham peixe suficiente para a subsistência das seis aldeias que fazem parte do Território Indígena. “Daqui a 3 ou 4 anos, pretendemos ter um complexo de lagos que vai oferecer peixe pra todo mundo. E além de trazermos de volta o costume tradicional da pesca e garantirmos alimento, estamos resgatando algo muito maior. Ao recuperarmos a natureza original, acreditamos que os pássaros podem voltar a voar por aqui, assim como vários outros animais”, destaca Adriano.

Adriano, a água e a ancestralidade Guarani

Adriano Sampaio e os Guarani-Mbya de Itakupe se encontram num sonho compartilhado e numa relação com a água que já existe de longa data.

O rio mais antigo na memória de Adriano vem da infância. “Minha família é da Chapada Diamantina, meu avô é pescador e desde pequeno eu costumava passar férias lá. Na frente da casa do meu avô passava o Rio do Ouro. Uma vez, aos 8 anos de idade, eu peguei aquelas redinhas de embalar limão e laranja e, querendo imitar meu avô, fui até o rio. Armei minha pequena rede e fui embora. Quando voltei, encontrei dois lambaris e uma traíra”, relata.

Apesar do sucesso com a pescaria, nem tudo correu bem. A água estava contaminada e Adriano teve esquistossomose. Se o olhar cuidadoso para a água nasce ou não a partir dessa experiência, o que mais importa é que essa relação desencadeou uma vida dedicada à revitalização de nascentes e rios e que fez brotar o primeiro projeto, a iniciativa “Existe Água em SP”.

O trabalho de investigação sobre os rios que correm por debaixo da capital paulista já fez o permacultor descobrir mais de cem nascentes e construir quinze lagos. “Eu olho o mapa, escolho uma bacia hidrográfica dos mais de 300 rios da cidade e sigo o percurso da água até encontrar a nascente. Quando eu a encontro, faço um vídeo descrevendo o local, converso com moradores antigos pra saber qual a relação deles com aquele rio no passado e, se possível, faço uma intervenção”, conta Adriano.

“O que eu quero é que esse trabalho de identificação e recuperação de nascentes vire política pública. Precisamos reverter a lógica de que é preciso canalizar rios e, por isso, buscar água longe da cidade. Se temos tanta água acessível na zona urbana, por que precisamos ir tão longe? Além de gerarmos um custo muito alto, essas obras provocam grandes impactos na natureza e na vida de todos”, defende.

Os Guarani-Mbya de Itakupe e Adriano Sampaio esperam que as pessoas da cidade se interessem por essa experiência e se aproximem da aldeia para que a troca de conhecimento seja um processo harmônico em defesa da vida. Por isso, o convite para conhecer de perto essa iniciativa está aberto à população.

Aldeia Itakupe

Av. Chica Luiza, 1041 – Jaraguá – São Paulo – SP | CEP: 05183-270

Para agendar visitas, entre em contato:

Líder espiritual Pedro Macena: (11) 963 914 229

Líder Geni Macena: (11) 930 230 795

Comunicadora, nativa da Mata Atlântica, com formação em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e que trabalha pelo acesso à produção de comunicação como direito. Adora dormir em rede, no meio da floresta, tem especialização em Educomunicação e sonha em cruzar com uma onça na Amazônia. Vive em busca de um curso d’água que venha acompanhado de uma boa porção de gente sábia, admirável e que tem tanto a dizer e ensinar.