Duas pesquisadoras da University of New South Wales (UNSW), em Sydney, Austrália, descobriram uma maneira de transformar resíduos de plantações de banana em um material com potencial para virar embalagens não apenas biodegradáveis, como também recicláveis.

Jayashree Arcot e Martina Stenzel, ambas professoras de Engenharia Química da UNSW, buscavam formas de converter resíduos agrícolas em algo que pudesse agregar valor na cadeia de produção. Foi então que começaram a estudar a indústria de cultivo de banana, que geram grandes quantidades de resíduos orgânicos. Segundo as pesquisadoras, apenas 12% da planta é utilizada (a fruta), enquanto o restante é descartado após a colheita, geralmente virando adubo para a própria plantação. 

As pesquisadoras explicam que a planta morre após cada colheita, por isso pensaram em aproveitar os troncos e caules. “Algumas são usadas para têxteis, outras para compostagem”, diz Arcot.

A dupla queria avaliar se os itens como troncos e caules das bananeiras eram fontes valiosas de celulose e se poderiam ser usados ​​em embalagens, produtos de papel, têxteis e até aplicações médicas, como na cicatrização de feridas e administração de medicamentos. “Os troncos e caules são feitos 90% de água, então o material sólido acaba reduzindo para cerca de 10%”, disse a professora Arcot. “Trouxemos o material para o laboratório e o cortamos em pedaços, secamos em temperaturas muito baixas em um forno de secagem e depois moemos em um pó muito fino”.

Embalagem de celulose de bananeira desenvolvida na UNSW
Imagem ilustrando o processo de secagem do material |Foto: Richard Freeman / UNSW

A professora Stenzel continuou: “Depois pegamos esse pó e o lavamos com um tratamento químico muito macio. Isso isola o que chamamos de nanocelulose, que é um material de alto valor com toda uma gama de aplicações. Uma dessas aplicações que nos interessou muito foi a embalagem, principalmente embalagens de alimentos de uso único, onde muitas delas acabam em aterros sanitários.”

Quando processado, o material tem uma consistência semelhante ao papel manteiga.

Embalagem feita com celulose de bananeira na UNSW
O material parece um papel manteiga, mas pode ter diferentes espessuras | Foto: Richard Freeman / UNSW

Dependendo da espessura pretendida, o material pode ser usado em vários formatos diferentes nas embalagens de alimentos, como sacola de compras ou bandejas para carne e frutas. Os testes confirmaram que o material se decompõe organicamente no solo após seis meses. “O material também é reciclável. Um de nossos alunos de doutorado provou que podemos reciclar isso por três vezes sem nenhuma alteração nas propriedades”, disse Arcot.

Outros resíduos agrícolas

As pesquisadoras analisaram também a indústria de cultivo de algodão e arroz – elas extraíram celulose de ambos os resíduos de algodão coletados. “Em teoria, você pode obter nano-celulose de todas as plantas, mas algumas plantas são melhores que outras, pois possuem maior teor de celulose”, comentou Stenzel.

“O que torna as bananas tão atraentes, além da qualidade do conteúdo de celulose, é o fato de serem plantas anuais”, acrescentou a professora Arcot.

pesquisadores que estão desenvolvendo a embalagem de celulose de bananeira
Professoras Jayashree Arcot, Martina Stenzel e o pesquisador Kehao Huang no laboratório. | Foto: Richard Freeman / UNSW

As pesquisadoras dizem que faria sentido para a indústria da banana iniciar o processamento dos pseudo-itens em pó, assim poderiam vender aos fornecedores de embalagens como uma renda extra.

Nota do CicloVivo

Vale lembrar que os resíduos das bananeiras são considerados um dos melhores adubos orgânicos para plantações. Ricos em água, eles ajudam a manter o solo úmido por mais tempo, enquanto sua decomposição também dá nutrientes. As podas (ou manejo) das bananeiras são muito usadas nos sistemas agroflorestais, sendo sempre associadas a outros cultivos em um ciclo permanente onde não existem “sobras” ou “resíduos”.

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Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.