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Cientistas e ambientalistas pedem foco no Cerrado na COP 28

Mais de 40 pesquisadores assinaram comunicado sobre a importância do bioma no combate à crise climática e a urgência da sua conservação

Cerrado água
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso de Goiás -GO. | Foto: Andre Dib

Trazer um olhar sobre a urgência de valorização e preservação da biodiversidade do Cerrado, assim como de suas comunidades tradicionais e povos indígenas. Este é o alerta que cientistas e ambientalistas ligados a universidades e organizações do Brasil, dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido fazem em uma carta publicada nesta semana, na revista científica Nature Ecology & Evolution.

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O grupo, formado por mais de 40 pesquisadores, destaca a COP 28, realizada neste ano em Dubai, como uma oportunidade de incluir a conservação de ecossistemas não-florestais, como o Cerrado e outros biomas brasileiros, no combate à crise climática.

Na carta, cientistas e ambientalistas apontam que, apesar de sua evidente importância ecológica, social e econômica para o mundo, o bioma considerado o “berço das águas” para o Brasil continua sendo destruído em ritmo acelerado pela ação humana. E as projeções indicam uma extinção sem precedentes de plantas endêmicas neste bioma até 2050. Atualmente, apenas 3% da sua área é protegida legalmente e 62% estão localizados em propriedades privadas.

desmatamento Cerrado água
Pesquisadores alertam para conexão entre desmatamento do Cerrado e segurança hídrica. | Foto: Acervo IPAM

A legislação do Código Florestal Brasileiro permite o desmatamento desenfreado em áreas particulares no Cerrado, protegendo apenas de 20% a 35% da vegetação nativa, em contraste com 80% para a Amazônia. Por isso, não existe uma solução simples para evitar a perda de vegetação local, já que as leis nacionais permitem para o seu alto índice de destruição. Para agravar, o Cerrado é historicamente visto como um grande celeiro para a produção de alimentos – abordagem que tem colocado o bioma em sacrifício, com o registro da perda de mais de 50% da sua vegetação nativa para exploração agrícola e pecuária.

“A desvalorização do Cerrado de pé faz com que a conversão de ecossistemas para a agropecuária continue acontecendo de maneira acelerada, prevalecendo cada vez mais o impulso de atender o mercado de grãos que acaba colocando em risco o abastecimento de água doce do País, bem como a biodiversidade e os meios de subsistência dos povos indígenas e das comunidades tradicionais da região, que dependem do uso sustentável e de seus recursos naturais. É crucial estabelecer ações e regulamentações coordenadas e abrangentes em níveis nacionais e globais a fim de garantir a eficácia na conservação das áreas remanescentes e promover a restauração de áreas degradadas no Cerrado”, diz a pesquisadora brasileira Polyanna da C. Bispo, que é professora no Departamento de Geografia da Universidade de Manchester, na Inglaterra.

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desmatamento cerrado
Desmatamento no Cerrado. Foto: Moisés Muálem | WWF-Brasil

Para a especialista, é preciso medidas urgentes para conservação e restauração do bioma. E isso deve abranger os recursos hídricos e a gestão do fogo, estabelecendo corredores ecológicos, restaurando terras convertidas e degradadas, além de proteger as comunidades indígenas e os povos tradicionais por meio de ações de educação ambiental e incentivos econômicos para frear o desmatamento.

O Cerrado tem um patrimônio cultural vivo nas comunidades tradicionais e nos povos originários, os conhecidos guardiões da biodiversidade e das águas do Cerrado, que detêm um saber sobre o uso dos recursos naturais, ciclos da natureza, clima e conservação do bioma, de onde retiram seu sustento.

“Temos que manter o Cerrado de pé valorizando a economia da sociobiodiversidade local e criando unidades de conservação, por exemplo. O fato é que o bioma é indispensável para a regulação hídrica do Brasil: as raízes de suas árvores atuam como uma esponja gigante, absorvendo e estocando água da chuva e distribuindo para oito bacias hidrográficas brasileiras, alcançando milhões de nascentes e aquíferos importantes. Estamos nas vésperas da COP 28 e acreditamos que será uma oportunidade para ressaltar a importância do nosso Cerrado para o mundo”, afirma Celso Silva Junior, Pesquisador do IPAM e da Universidade Federal do Maranhão.

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cerrado vegetação
A região entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, conhecida como MATOPIBA, é considerada a vitrine do agronegócio brasileiro. Mas esse modelo vem acelerando o desmatamento no Cerrado. Foto: Fernanda Ligabue | Greenpeace

Recentemente, o governo brasileiro lançou uma consulta pública para o PPCerrado (Plano de Ação para Prevenção e Controle de Desmatamento e das Queimadas no bioma Cerrado), que para os pesquisadores sua implementação é crucial, dado o desafio urgente e único, que é combater a destruição do bioma.

Os pesquisadores também destacam a importância que regulações internacionais, centrais no estabelecimento de cadeias de produtos livres de desmatamento, não somente foquem na preservação das florestas como também incluíam os ecossistemas não florestais, como as savanas do Cerrado. “A União Europeia já vem discutindo a inclusão desses ecossistemas, que cobrem a maior parte do Cerrado, na regulação que trata de produtos livres de desmatamento. É crucial que isso aconteça logo para evitar que o Cerrado continue sendo tratado como bioma de sacrifício”, explica Daniel E Silva, especialista em Conservação do WWF-Brasil.

Cerrado
Cerrado. Foto: Natashi Pilon | Unicamp

Estudo aponta caminhos para o Cerrado

Em um estudo recente, publicado pela Agência FAPESP, pesquisadores da Unicamp e outros especialistas analisaram dados de 82 áreas, distribuídas por cinco Estados e o Distrito Federal. Os resultados indicam que para recuperar a grande biodiversidade do bioma, é preciso combinar várias técnicas restaurativas, além de preservar o que ainda não foi destruído.

Os cientistas ressaltam que o Cerrado já perdeu cerca de 70% de sua cobertura original e que o bioma é a savana mais biodiversa do mundo, abrigando 33% de toda a biodiversidade brasileira. Além disso, é berço das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul.

Para ler o estudo completo, clique AQUI.

restauração do Cerrado
Síntese das principais formas de crescimento do Cerrado que cada técnica de restauração é capaz de recuperar. Imagem: Natashi Pilon | Unicamp