desastre climático
Foto: Unsplash
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O mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) foi divulgado e traz dados alarmantes sobre as consequências que iremos enfrentar com as mudanças climáticas que a ação humana está produzindo. Cerca de 3,3 bilhões de pessoas estão muito vulneráveis aos impactos do clima e mortalidade por eventos extremos já cresceu 15 vezes em regiões mais vulneráveis, nos últimos 10 anos. E, para os políticos brasileiros, o relatório traz alguns alertas específicos.

O documento precisa ser lido com atenção pelos parlamentares brasileiros. Em um momento em que o Congresso  discute a aprovação do Pacote da Destruição, que abre a floresta amazônica a níveis de destruição sem precedentes, colocando-a mais perto do ponto de não retorno, é fundamental que nossos políticos saibam o que isso significa. 

indígenas Brasília marco temporal
Foto: Marina Oliveira | CIMI

O relatório do Grupo de Trabalho II do IPCC cobriu riscos climáticos, impactos e como a adaptação poderá ajudar a reduzir a vulnerabilidade às mudanças climáticas e gerenciar os riscos. Ele reforça que já estamos vendo impactos negativos substanciais no aquecimento global de 1,1°C, causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. No caso do Brasil, a principal fonte desses gases é o desmatamento, que cresceu 56,6% no governo Bolsonaro.

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“Se o Governo Bolsonaro deixar como legado um arcabouço legal que favoreça o desmatamento em uma nova escala de grandeza, como estamos vendo durante sua gestão, ele estará nos legando também um futuro no qual desastres como o que vimos em Petrópolis (RJ) serão cada vez mais frequentes e destruidores”, adverte Renata Camargo, especialista em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil. 

Entre os projetos de lei do Pacote da Destruição estão, por exemplo, os PL 2633/20 e PL 510/21, que tratam de novas regras para a regulação fundiária e possuem alto grau de permissividade. Se aprovados, colaborarão para o aumento de eventos climáticos, uma vez que fragilizam todo o arcabouço legal de proteção ambiental. 

Como consequência das mudanças climáticas constatados pelos cientistas teremos a redução da produtividade agrícola, insegurança alimentar, aumento da pobreza extrema e o maior deslocamento de populações. O relatório também aponta para maior insegurança hídrica e energética.

torneira seca
Foto: Jouni Rajala | Unsplash

“O relatório do IPCC é um alerta para deputados e senadores, que precisam assumir sua responsabilidade quando analisam e votam projetos que favorecem a destruição ambiental.  Há uma série de futuros diante de nós – o que fazemos hoje afetará as emissões, o nível de aquecimento global e a gravidade dos riscos climáticos no futuro. Cada fração de um grau conta”, reforça Renata.

Adaptação à emergência climática

Mais do que alertar para o aumento de eventos extremos e dos riscos que eles trazem para avida de bilhões de pessoas, o relatório do IPCC mostra a importância dos esforços de adaptação para diminuir os impactos dos eventos extremos.

“Há muito a ser feito em adaptação à emergência climática no Brasil: desenvolver e implantar políticas públicas de ocupação de solo alinhadas ao novo normal, com ênfase em habitação, saneamento recuperação das bacias, bem como dar mais robustez aos sistemas de alerta e à Defesa Civil, são fundamentais em um país onde mais de 8 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de deslizamentos e/ou enchentes”, analisa Camargo.

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Foto: Reprodução YouTube | Memórias à Prova D’Água

Colocar a culpa pelas mortes e danos causados por enchentes e deslizamentos no aumento do volume de chuva e no clima seria retirar dos governantes a responsabilidade que eles têm ao não implementar políticas públicas para prevenir e evitar que estes fenômenos tenham impacto tão avassalador na vida das pessoas.

Além de evitar o desmatamento e a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa, é preciso investir em planejamento urbano e moradia digna para todos. Responsabilizar as pessoas que estão em áreas de risco é transferir para a população a responsabilidade de seus representantes.

Soluções imediatas

O relatório do IPCC também informa que, se investirmos em soluções de adaptação agora, podemos construir resiliência e ajudar a proteger as pessoas e a natureza. Cada país precisa conduzir uma avaliação de suas vulnerabilidades para identificar o risco de mudança climática e as prioridades de adaptação. 

“A negligência com os riscos climáticos de Petrópolis contribuiu para tragédias como a que vimos neste mês.  Mas o Brasil tem inúmeras localidades em risco de eventos extremos – lembrando  que só em 2022 já tivemos seca no Sul e enchentes na Bahia. Ou seja, nossa agricultura, que sofre com secas cada vez mais graves e mais recorrentes, precisa ter suas vulnerabilidades contempladas com medidas de adaptação”, explica Alexandre Prado, diretor de Economia Verde do WWF-Brasil.

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Consequências das mudanças climáticas, como ciclones e enchentes, representam um custo bilionário muito maior do que o investimento em medidas de combate e prevenção. Foto: Pixabay

A perda e a degradação dos ecossistemas tornam os impactos das mudanças climáticas ainda piores. Ao proteger e restaurar a natureza, podemos reduzir os impactos em nossas comunidades. Devemos investir e acelerar soluções baseadas na natureza, como a restauração de florestas, de manguezais, etc., para ajudar a proteger comunidades e ecossistemas vulneráveis.

Por isso, o relatório recomenda que os países façam mais para ampliar as soluções baseadas na natureza para adaptação ao clima e incorporá-las em seus Planos Nacionais de Adaptação e suas Contribuições Nacionalmente Determinadas – documentos que integram o arcabouço legal do Acordo de Paris.

Somos uma espécie vulnerável

Por fim, o relatório ressalta que determinados ecossistemas e espécies – incluindo populações humanas vulneráveis – não têm capacidade de adaptação aos impactos climáticos. Os limites de adaptação estão sendo ultrapassados, levando à migração forçada e à extinção de espécies.

O IPCC estima que 10% das espécies terrestres estarão seriamente ameaçadas até 2040 por causa da deterioração das condições climáticas.

moradores filipinas desabrigados
Moradores enfrentam enchentes nas Filipinas. | Foto: Noel Celis | IFRC

“Precisamos de cortes rápidos, profundos e sustentados nas emissões de gases de efeito estufa para diminuir o ritmo do aquecimento global e dar uma chance aos esforços de adaptação. Se conseguirmos reduzir rapidamente as emissões e investir em soluções agora, mitigaremos os riscos climáticos futuros para as pessoas e a natureza”, lembra Prado.

O que é o IPCC?

O IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas.

O IPCC não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos para embasar políticas mundiais globais e nacionais.

O relatório do Grupo de Trabalho II é a segunda das quatro partes do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (AR6). O relatório do Grupo de Trabalho I (ciência física das mudanças climáticas) foi lançado em agosto de 2021, enquanto o relatório do Grupo de Trabalho III (mitigação das mudanças climáticas) será divulgado em abril de 2022. O Relatório Síntese, que reúne informações dos três relatórios do grupo de trabalho, será lançado em outubro de 2022.

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Foto: Nasa

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