Mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, diz IPCC
Obra "Changing" da artista Alisa Singer que ilustrou a capa do relatório neste ano.
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Foi divulgado nesta segunda-feira, 9 de agosto de 2021, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC – sigla em inglês). O estudo da principal organização que estuda as alterações climáticas, foi elaborado por 234 autores de 66 países e resume o mais recente entendimento científico sobre o que está acontecendo com nosso sistema climático.

O relatório comprova o que muitos negacionistas se esforçam em ignorar: a causa da das mudanças climáticas está na humanidade. Mais do que revelar a responsabilidade humana no aumento da temperatura, os cientistas mensuraram a contribuição antrópica. Segundo o relatório, do aquecimento de 1,09ºC observado entre 2011 e 2020 em comparação com o período pré-industrial (1850-1900), 1,07ºC – quase tudo – provavelmente deriva de atividades humanas como o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis.

Esta é uma das conclusões do Grupo de Trabalho 1 para o Sexto Relatório de Avaliação (AR6). As afirmações do IPCC têm sempre algum indicador de probabilidade, o que já fez o Painel ser acusado de “conservadorismo” e de facilitar o trabalho dos negacionistas. É exatamente por isso que o relatório de hoje causa apreensão.

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“A mensagem do IPCC é cristalina: mudar agora e preparar para o impacto. As piores previsões dos cientistas estão se tornando realidade mais rápido do que o esperado, os pontos de ruptura estão se aproximando e o único nível aceitável de emissões é zero.”

Stela Herschmann, Observatório do Clima

Segundo especialistas da WWF-Brasil, estamos no início da década mais decisiva da História para a ação climática. Com o novo relatório do IPCC, temos a mais abrangente e certeira avaliação do estado do clima no mundo e do que está por vir, dependendo do curso que escolhermos agora.

O que o mundo está vivendo em 2021 já é afetado por um aumento médio de 1°C na temperatura e as perspectivas de curto prazo não são animadoras: o novo relatório do IPCC mostra que o mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, antes do previsto pelo relatório anterior.

Isso não significa que a meta de 1,5°C no longo prazo esteja comprometida.  Embora os níveis de aquecimento global de 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais sejam excedidos até o final do século 21 em todos os cenários projetados pelo IPCC, o cenário de menor emissões mostra que no longo prazo o limite de 1,5°C ainda é possível – e essa é a boa notícia e também o principal alerta que este relatório traz: não podemos abrir mão dessa meta.

Estatísticas claras

Para entender a linguagem usada pelos cientistas, é importante ressaltar que, por tratar de cenários para o futuro, os termos usados tem como base uma classificação estatística onde:

  • Virtualmente certo corresponde a 99% a 100% de probabilidade
  • Extremamente provável corresponde a 95% a 99% de probabilidade
  • Muito provável corresponde a 90% a 95% de probabilidade
  • Provável corresponde a 66% a 90% de probabilidade
  • Mais provável que improvável corresponde a mais de 50% de probabilidade
  • Tão provável quanto improvável corresponde a 33% a 66% de probabilidade
  • Improvável corresponde a menos de 33% de probabilidade
  • Muito improvável corresponde a menos de 10% de probabilidade
  • Extremamente improvável corresponde a menos de 5% de probabilidade

Na linguagem do IPCC, o conjunto de eventos climáticos extremos recentes seria extremamente improvável de ocorrer sem influência humana. E ela provavelmente contribuiu para um aumento global da precipitação desde os anos 1950 e mais aceleradamente desde a década de 1980.

Há alta confiança sobre a influência humana no aumento da precipitação extrema associada a ciclones tropicais, e é virtualmente certo que a frequência e a intensidade de extremos de calor e a intensidade e duração de ondas de calor aumentaram na maior parte do planeta desde 1950.

crise climática
Imagem: Pixabay

Cinco cenários possíveis

No novo relatório, o IPCC considera cinco cenários, dependendo do nível de emissões que se alcance. O AR6 apresenta uma nova série de cenários de emissões batizado de Projeto de Intercomparação de Modelos Climáticos Versão 6 (CMIP6).

São dois cenários de baixas emissões (SSP1-1.9 e SSP1-2.6), um de médias (SSP2-4.5) e dois de altas (SSP3-7 e SSP5-8.5). Em todos os cenários, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5ºC é ultrapassada no começo da próxima década, dez anos antes do previsto.

Nos cenários de menor ação climática, as perspectivas são desastrosas: cada meio grau adicional de aquecimento global causa um aumento estatisticamente significativo nos extremos de temperatura.

No cenário SSP1-1.9, de emissões mais baixas, o aquecimento voltará a estar abaixo desse patamar somente no fim do século e isso só seria possível com um corte ambicioso de emissões que começasse imediatamene.

A temperatura global entre 2081 e 2100 será muito provavelmente 1ºC a 1,8ºC mais alta do que entre 1850 e 1900 no melhor cenário de emissões e de 3,3ºC a 5,7ºC mais quente no pior cenário.

Algumas regiões semiáridas e a chamada Região da Monção da América do Sul, que engloba parte do Centro-Oeste brasileiro, da Amazônia, da Bolívia e do Peru, deverão ter os maiores aumentos de temperatura nos dias mais quentes do ano – até duas vezes acima da taxa de aquecimento global.

Outra novidade do AR6 são as estimativas regionalizadas de médio prazo (próximos 30 anos), que podem orientar medidas de adaptação. Todas as regiões do planeta sofrerão mudanças do clima nesse período, e essas mudanças serão maiores com 2ºC do que com 1,5ºC de aquecimento. Em 2050, se o limite de 2ºC for atingido, muitas regiões terão aumento na probabilidade de vários eventos extremos simultâneos ou sequenciais, afetando, por exemplo, regiões produtoras de alimentos.

“A ciência é clara, os impactos da crise climática podem ser vistos em todo o mundo e se não agirmos agora, continuaremos a ver os piores efeitos impactarem vidas, meios de subsistência e habitats naturais.”

Alok Sharma, Presidente da COP26

Todos os cenários analisados pelo IPCC apontam para uma mesma conclusão: é preciso cortar emissões e cortá-las o mais rápido possível. Para isso, é preciso que todos se empenhem para alcançar a neutralidade de carbono antes de 2050: governos nacionais, subnacionais e empresas devem estabelecer planos consistentes, com ações concretas imediatas e metas intermediárias.

desmatamento queimadas
Desmatamento e queimadas em Rondônia. Foto: Bruno Kelly | Amazônia Real

Brasil

Para o Brasil e demais países da bacia amazônica, o conteúdo do relatório do IPCC traz alertas adicionais: já não basta zerar as emissões – é preciso remover o carbono já existente na atmosfera.

Como a floresta amazônica é um dos grandes sumidouros naturais de carbono do planeta, sua preservação é mais importante que nunca. Estudos indicam que partes da floresta já estão emitindo mais carbono do que capturando, em função de sua degradação que, se persistir nos níveis atuais, poderá pressionar todo o bioma além de seu ponto de equilíbrio, afetando o clima em todo o planeta, mas mais especialmente na América do Sul, colocando em risco a segurança alimentar, hídrica e energética do Brasil. Infelizmente, esse é o cenário para o qual o presidente Jair Bolsonaro está conduzindo nosso país.

Outro alerta do IPCC que tem relação direta com o Brasil diz respeito ao melhor entendimento dos gases não-carbono que também têm efeito estufa, como o metano. As emissões diretas da agropecuária representaram 28% do total brasileiro em 2019 segundo o 8º relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima.

Desse total, 61,1% vieram da fermentação entérica. Ou seja, além de ser um fator de pressão sobre a floresta, a pecuária é também emissora de gases para os quais o IPCC pede mais atenção.

Em um ano em que a conta da luz e o preço da comida subiram vertiginosamente por conta de fatores climáticos, o relatório do IPCC adverte: o aquecimento global intensificará ainda mais as mudanças nos ciclos da água, incluindo a variabilidade ano a ano e a severidade dos ciclos úmidos e secos.

“O que o novo relatório do IPCC sinaliza são as opções que podemos fazer hoje para que o amanhã seja seguro para todos. Em todo o mundo, o desafio é mudar a matriz energética. No Brasil, onde boa parte de nossa energia já é limpa, o desafio é zerar todo o desmatamento, que é o que nos coloca como sexto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo”, explica Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

“A melhor ciência do planeta está nos mostrando que o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho da catástrofe e é isso que não podemos aceitar: interesses eleitorais e setoriais não podem prevalecer sobre o bem comum da nação.

Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.
enchentes
Emchente do Rio Madeira, no Acre. Foto: Sérgio Vale | Secom

Emissões zero ou caos

Segundo o IPCC, para diminuir em qualquer medida o aquecimento global em curso é fundamental que as emissões líquidas de dióxido de carbono (CO2) sejam zeradas. Cada trilhão de toneladas de CO2 emitidas cumulativamente na atmosfera causa um aquecimento global de 0,27oC a 0,63oC, o que é conhecido como resposta climática transitória às emissões. Além disso, a concentração de outros gases de efeito estufa, como o metano (CH4), precisam ser substancialmente reduzidas.

As concentrações dos três principais gases de efeito estufa – CO2, metano e óxido nitroso (N2O ) – são as maiores em 800 mil anos. Somente em relação ao CO2, as concentrações atuais não se repetem há pelo menos 2 milhões de anos.

Desde 1850, a humanidade já emitiu 2,390 trilhões de toneladas de CO2. Para que a chance de estabilizar a temperatura em 1,5oC seja a maior possível, a humanidade não poderá emitir mais do que 300 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a seis anos de emissões mundiais atuais de gases de efeito estufa.

“Nossa mensagem para cada país, governo, empresas e parte da sociedade é simples. A próxima década é decisiva, siga a ciência e abrace sua responsabilidade de manter vivo o objetivo de 1,5°C.”

Alok Sharma, Presidente da COP26

Consequências irreversíveis

As emissões do passado já tornaram irreversíveis algumas consequências do aquecimento global, como o degelo, o aumento no nível do mar e as mudanças nos oceanos.

É virtualmente certo que o nível dos oceanos continuará subindo, já que a expansão térmica é irreversível na escala de centenas a milhares de anos, mas a elevação neste século dependerá do cenário de emissões: de 28 cm a 55 cm no melhor cenário (SSP 1.9) em relação à média 1995-2014; 63 cm a 1,02 m no pior (SSP 8.5).

Neste pior cenário, picos de maré alta extrema que ocorriam uma vez a cada século poderão ocorrer uma vez por ano em 80% das localidades com medições de maré do mundo. Desde o início do século 20, o nível do mar subiu 20 cm, mas a taxa de elevação está crescendo: passou de 1,35 mm por ano entre 1901 e 1990 para 3,7 mm por ano entre 2006 e 2018.

Somente entre 2011 e 2020, o aquecimento da temperatura dos oceanos foi de 0,88ºC. Neste século, o aquecimento do oceano pode ser duas vezes maior no melhor cenário (SSP1-2.6) e até oito vezes maior no pior (SSP5-8.5), em comparação ao período de 1971 a 2018. As ondas de calor marinhas também estão mais frequentes e a influência humana muito provavelmente contribuiu com 84% a 90% delas desde 2006.

O derretimento de geleiras como as dos Alpes, dos Andes e do Himalaia é a maior causa isolada (41%) do aumento do nível do mar entre 1901 e 2018, enquanto o degelo da Groenlândia e da Antártida respondem por 29%. Na última década a cobertura de gelo marinho no Ártico e nas geleiras atingiu a sua menor extensão em 170 anos no inverno e em mil anos no verão. O derretimento atual das geleiras é o mais acelerado em 2 mil anos.

E a massa das geleiras continuará diminuindo durante décadas mesmo se a temperatura global for estabilizada. Uma previsão de alta confiança é a de que os mantos de gelo da Antártida e da Groenlândia continuarão a perder massa neste século.

A circulação meridional do Oceano Atlântico muito provavelmente se enfraquecerá no século 21 em todos os cenários de emissão. A magnitude deste declínio ainda têm alto grau de incerteza. A confiança de que ela não sofrerá um colapso abrupto é média, o que impactaria nos padrões de tempo e no ciclo da água em grande parte do mundo, alterando os padrões de chuvas na África, Ásia e América do Sul.

aquecimento ártico
Foto: Pixabay

Para acessar o relatório completo, clique aqui.

O relatório é parte de um estudo maior a ser finalizado em 2022, organizado por cientistas que representam 195 países, no qual a ciência se compromete a apontar como as ações humanas estão alterando o clima do mundo, alertar sobre quais serão os rumos do planeta caso não haja uma ação política e evidenciar a urgência em adotar políticas para reverter a crise do clima que já afeta todos nós.

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