Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA) lançou Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais, livro em que reúne histórias e bastidores do trabalho em defesa dos povos indígenas nos últimos 40 anos.

Com bom humor, a obra traz crônicas sobre capítulos decisivos deste trabalho, como a Constituinte de 1986-1987, sobre o “capítulo dos índios” na Constituição, após duas décadas de ditadura, e do surgimento da sociedade civil organizada durante a redemocratização, incluindo a fundação do ISA.

Cada lembrança é contada por meio de uma crônica. As narrativa levam ­­ o leitor em uma viagem pela diversidade do Brasil. As crônicas resgatam, de um ponto de vista muito particular e atuante, o Brasil em processo de redemocratização, com populações historicamente oprimidas e marginalizadas resgatando parte de seus direitos fundamentais.

Índios de várias etnias ocupam auditório da liderança do MDB,
durante negociações do capítulo dos índios na Constituinte.
Foto: Beto Ricardo | ISA

Lembranças vivas

Santilli relembra muitos embates e chega até os dias de hoje com a atuação da bancada ruralista e ao ano de 2018, com a eleição do atual governo brasileiro.

O autor lembra, por exemplo, do ato de protesto do jovem Ailton Krenak, hoje respeitada liderança indígena, durante as sessões da Constituinte, pintando a cara de preto para chamar a atenção dos deputados; a atuação do coronel Jarbas Passarinho, ex-ministro da Educação na ditadura militar, que foi deputado constituinte, e – quem diria – o responsável por emplacar o conceito de “terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”, no texto final da Constituição de 1988.

O histórico encontro dos Povos da Floresta, em Altamira (PA), em 1989, como parte da mobilização indígena contra a construção da usina de Karararô, atual Belo Monte, também está presente.

Outro episódio recuperado foi o do deputado indígena Mario Juruna devolvendo dinheiro para o deputado Paulo Maluf. Em 1985, ainda durante o regime militar, às vésperas da eleição pelo Colégio Eleitoral do próximo presidente da República, Maluf era um dos candidatos e tentou “comprar” Juruna.  Alertado que, se ficasse com o dinheiro, seria considerado corrupto, Juruna chamou a imprensa e, dentro de uma agência do Banco do Brasil no Congresso Nacional, devolveu o dinheiro que recebeu, deixando funcionários do banco sem saber como agir.

O autor

Lideranças partidárias e outros parlamentares negociam emenda no capítulo dos Direitos Indígenas na Constituinte. Em pé, Márcio Santilli (segundo da direita para a esquerda.
Foto: Beto Ricardo | ISA

Ativista desde a juventude, Santilli foi eleito deputado federal pelo MDB (1983-1987). Militou no Núcleo de Defesa dos Indígenas (NDI) e fundou o ISA em 1994 com um grupo de pessoas de movimentos ambientais e de defesa dos direitos humanos.

Santilli também foi o autor de proposta, com outros pesquisadores, para remunerar países que conseguissem reduzir o desmatamento em suas florestas tropicais, hoje um dos principais mecanismos internacionais para combater a crise climática.

Em 2009, foi agraciado com o prêmio Herói do Meio Ambiente, concedido pela prestigiada revista britânica Time. Além de ser autor de dezenas de artigos, é autor do livro Os Brasileiros e os índios, de 2000.

Em uma das crônicas, Márcio conta como foi se consolidando a ideia do nome “socioambiental”, que expressasse não a junção de social com ambiental, mas a síntese entre ambos. Pelas regras da língua portuguesa, “socioambiental” tinha hífen e os fundadores do ISA decidiram abolir, subvertendo a gramática e dando origem ao slogan da organização: socioambiental se escreve junto!

O livro está à venda na loja virtual do ISA.

Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais
Autor: Marcio Santilli
Edição: Instituto Socioambiental
ISBN: 9788582260777
Páginas: 120
Preço: R$ 30,00