Combate à desinformação ganha força na Conferência do Clima
Além do desafio global de reverter a emergência climática, é necessário articulação para frear o uso da desinformação
Além do desafio global de reverter a emergência climática, é necessário articulação para frear o uso da desinformação
Como se não bastasse o desafio mundial de transição para um modelo econômico e energético que não nos leve a um planeta inabitável pela humanidade, é necessário também incluir nas metas da Conferência do Clima o combate à desinformação, uma ferramenta que vem sendo usada de forma estruturada por aqueles que lucram com a situação atual.
“A instrumentalização deliberada das questões climáticas para fomentar a polarização é um perigo real e imediato — não apenas retarda ações urgentes, como mina as bases de nossas democracias”, afirma Jennifer Morgan, Senior Fellow da Tufts University.
Nesse cenário, foi lançada durante a COP30 a Declaração sobre Integridade da Informação em Mudanças Climáticas, estabelecendo compromissos internacionais conjuntos para enfrentar a desinformação climática e promover informação precisa e baseada em evidências sobre o tema.
A Declaração foi lançada pela Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas e é apoiada por mais de 200 organizações da sociedade civil e por dez países: Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Espanha, Suécia e Uruguai.

Os países signatários se comprometem a promover a integridade das informações relacionadas ao clima nos âmbitos internacional, nacional e local, em conformidade com o direito internacional dos direitos humanos e com os princípios do Acordo de Paris.
“As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça do futuro — são uma tragédia do presente”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belém. “Vivemos uma era em que obscurantistas rejeitam as evidências científicas e atacam as instituições. É hora de impormos mais uma derrota ao negacionismo.”
A Declaração conclama governos, setor privado, sociedade civil, academia e financiadores a tomar medidas concretas para enfrentar os impactos crescentes da desinformação, da negação da ciência e dos ataques deliberados a jornalistas ambientais, defensores, cientistas e pesquisadores — práticas que minam a ação climática e ameaçam a estabilidade social.
“Precisamos combater a desinformação, o assédio on-line e o greenwashing”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, nos preparativos da COP30. “Por meio da Iniciativa Global, governos e organizações estão colaborando para financiar pesquisa e ações que fortaleçam a integridade da informação sobre o clima. Cientistas e pesquisadores não devem temer dizer a verdade.”

A Declaração enfatiza que mobilizar toda a sociedade requer acesso a informações consistentes, precisas e baseadas em evidências, condição essencial para ampliar a conscientização pública, fortalecer a participação social, garantir a responsabilização e construir confiança nas políticas e ações climáticas urgentes.
“Sem acesso a informações confiáveis sobre a crise climática, jamais conseguiremos superá-la”, declarou a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, durante o lançamento da Iniciativa. “Com essa iniciativa, apoiaremos jornalistas e pesquisadores que investigam o tema — muitas vezes sob grande risco — e combateremos a desinformação climática que se espalha nas redes sociais.”

Com os recursos globais ainda insuficientes, a Declaração conclama os governos a financiar pesquisas sobre integridade da informação climática, especialmente nos países em desenvolvimento. Também exorta o setor privado a adotar práticas empresariais responsáveis, garantindo transparência e compromisso com a integridade da informação e com o fortalecimento do jornalismo confiável.
“Exorto os governos a intensificarem drasticamente seus esforços: é urgente responsabilizar os agentes que espalham desinformação e aplicar de forma decisiva salvaguardas legislativas já existentes, como o Digital Services Act (DSA), para proteger o nosso espaço informacional”, completa Morgan, citando a lei europeia.
Desde seu lançamento, em junho de 2025, o Fundo Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas recebeu 447 propostas de quase 100 países. Com aporte inicial de US$ 1 milhão do governo brasileiro, o Fundo começou a apoiar sua primeira leva de projetos em vários continentes, sendo quase dois terços provenientes do Sul Global.
A Declaração reconhece o papel central da Iniciativa Global no fortalecimento da cooperação internacional em defesa da integridade da informação climática e convida financiadores a contribuir com o Fundo Global para apoiar projetos locais, nacionais e internacionais nessa área.
Com informações de ClimaInfo