Identificados como um dos principais poluentes dos oceanos mundo afora, os microplásticos são fragmentos muito pequeninos de plástico que, infelizmente, já estão presentes em quase tudo, desde a água que bebemos até produtos como esfoliantes, cremes dentais e glitter. Estudos apontam que até a parte aquática da Antártica está atualmente contaminada com microplásticos, gerando grande preocupação dos estudiosos, que estão traçando as rotas da contaminação.

Apesar de não haver consenso sobre a definição desse termo, é aceito pela comunidade científica que consideremos os fragmentos de até 5 milímetros como microplásticos, ou microbeads, uma vez que essas partículas apresentam tamanho o suficiente para serem ingeridas acidentalmente por animais . Eles podem ser separados em duas categorias, primários e secundários. Os primários são aqueles que são adicionados às fórmulas de cosméticos para conferir o caráter abrasivo, utilizados em algumas pastas de dentes e esfoliantes, enquanto os secundários são formados por conta da desintegração de resquícios plásticos maiores.

“Apesar de as empresas cosméticas estarem empregando políticas de interrupção do uso de microbeads em suas fórmulas, muitas matérias-primas são capazes de se degradar em microplásticos após o enxágue, como o Nylon-12, e apenas uma análise criteriosa de segurança detecta esses detalhes em cada ingrediente ainda na fase de formulação do cosmético”, afirma a Dra. Maria Inês Harris, Diretora Executiva do Instituto Harris , referência em avaliação de segurança de cosméticos.

Consequências para a saúde

Quanto menor for o tamanho da partícula, menos informações são encontradas sobre ela e maiores podem ser seus efeitos toxicológicos. “É bem complicado avaliar quais são os riscos toxicológicos para o ser humano, uma vez que estão sendo liberados no ambiente polímeros de diversas composições, tamanhos de partículas, formatos, densidade e persistência”, afirma. “Dessa forma, é extremamente complexo avaliar as consequências para a saúde com essa grande quantidade de variáveis, e praticamente impossível estabelecer um limite seguro de resíduos. No entanto, apesar de ser mais encontrado principalmente no ambiente terrestre, os impactos na vida marinha já estão sendo documentados”, lamenta.

“Por ser um problema recente, mais estudos precisam ser feitos para determinar todos os riscos que as partículas microplásticas apresentam para os organismos. Por enquanto, tem se observado que quando os animais ingerem os microplásticos por acidente, a predação acaba sendo comprometida pois o material permanece no trato digestivo por muito mais tempo que os alimentos de sua dieta. Com a diminuição da predação, os organismos apresentam taxas inferiores de crescimento, reprodução e até mesmo sobrevivência”, continua a Dra. Harris.

Os microplásticos já foram banidos dos cosméticos nos Estados Unidos , Reino Unido , Suécia , França , Coréia do Sul , Taiwan , Canadá e Nova Zelândia . Em 2018, a Suécia, Áustria, Luxemburgo, Holanda e Bélgica emitiram um apelo conjunto para proibir as pequenas partículas e evitar que o desastre ambiental seja maximizado. Atualmente, a Itália e a Índia já encaminharam um processo de banimento e deverão banir em alguns anos, já a Finlândia e África do Sul propuseram a adoção da medida.

Produtos adaptados a esta nova realidade deixarão de contribuir para o aumento de microplásticos no meio ambiente, preservando a vida marinha e oferecendo maior valor agregado aos consumidores modernos.

A holandesa Plastic Soup Foundation criou a ação Beat the Microbead e em seu site é possível checar produtos e empresas que ainda utilizam microplásticos. A checagem deve ser feita com cautela, pois na lista consta apenas os produtos em que há confirmação da ausência desses materiais. Ou seja, existem ainda produtos que também podem conter microplásticos mas que ainda não foram adicionados à lista.

Consumo consciente de cosméticos – Dra. Harris explica que já existem alternativas sustentáveis para tentar evitar as micropartículas em algumas formulações, como por exemplo, o glitter orgânico biodegradável. As empresas também encontraram a alternativa de substituir os esfoliantes que apresentam microplásticos por produtos que utilizam sementes trituradas e que têm a mesma função. No entanto, em alguns casos ainda há desafios na reformulação, pois o caráter abrasivo não pode ser excessivo, o que culminaria em danos para o consumidor durante o uso. Nesses casos, novas substâncias estão sendo pesquisadas para servirem como um bom substituto.

Nota do CicloVivo

Um projeto de lei que proíbe microplásticos em cosméticos no Brasil foi aprovado em junho de 2019 por comissão, porém ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Em janeiro deste ano a indústria de higiene e beleza do Brasil anunciou que irão gradualmente retirar o microplástico de suas composições até 2021.

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Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.