Estamos diante de uma geração de analfabetos ecológicos – crianças cada vez mais afastadas do mundo natural que desconhecem a procedência dos alimentos que levam à boca, que não sabem identificar a maioria das frutas e legumes comuns da nossa culinária e que passam a maior parte do dia confinadas em ambientes fechados, distantes da luz do sol, do contato com a natureza.

O documentário Muito além do peso de 2012, produzido pela Maria Farinha Filmes, que aborda o tema da obesidade infantil, aponta a ignorância das crianças em relação aos alimentos produzidos pela terra. Os pequenos confundem mamão com abacate, berinjela com rabanete, e não são capazes de identificar uma abobrinha, um pimentão, uma beterraba, etc.

Entretanto se apresentamos à elas as embalagens de “alimentos” processados, elas reconhecem de imediato as marcas e logo dizem o nome desses produtos.

No livro Desemparedamento da infância, uma professora da Educação Infantil da cidade de Novo Hamburgo (RS), relata uma história alarmante. Ela e sua turma, por falta de área verde na escola, passaram a frequentar um espaço arborizado da igreja vizinha à instituição educacional. Assim que começaram a desfrutar do amplo gramado repleto de árvores frutíferas, era a época final do ciclo das frutas e haviam muitas caídas de maduras pelo chão. A professora conta que as crianças ao verem laranjas espalhadas pelo gramado, ficaram indignadas e perguntaram:

– Quem jogou as laranjas no chão?

As crianças não fizeram relação entre o pé de laranja e a fruta caída no gramado. Será que não chegamos ao ápice da desconexão com a vida?

Vivemos como nunca antes um distanciamento entre homem e natureza, e consequente ruptura com processos de vida. E mais, vivemos como se não fizéssemos parte da natureza e como se dela não dependesse nossa sobrevivência.

A natureza é o espaço de pertencimento da criança, de suas raízes com a Terra. A partir da relação com o mundo natural, um mundo que exala aromas, floresce, frutifica e emite sons nativos, por meio do próprio corpo e sentidos, a criança apreende os princípios que regem a vida na Terra – seus ciclos de nascimento e morte, fluxos, processos dinâmicos, e aprende brincando, na linguagem da infância.

Como podemos reaproximar a infância ao mundo natural?

Estimular todos os sentidos da criança com formas primordiais, substâncias vivas, e materiais orgânicos é fundamental para restabelecer esta conexão.
Esta reaproximação pode iniciar pela boca, por meio de uma alimentação saudável. Comece substituindo as idas ao supermercado com as crianças nos fins de semana pelas compras em feiras livres. Sim aquelas onde os feirantes anunciam aos berros os preços promocionais da baciada de chuchus, mandioquinhas, pimentões e que gentis oferecem fatias de melancia, abacaxi, melão, para degustação. Ali as crianças aprenderão de forma divertida, com a simpatia dos feirantes, os nomes das frutas e legumes e experimentarão alimentos que em casa recusam dizendo não gostar sem nunca ter provado.

Depois troque o pedido de comida por aplicativo no sábado à noite pela ocupação da cozinha por toda a família. A cozinha é lugar de encantamento, de memórias afetivas e de riqueza de estímulos sensoriais – as formas e texturas, as cores dos alimentos, os aromas e sabores.

Convide as crianças para ajudar a preparar as refeições. Elas poderão descascar, lavar, misturar, amassar e sentir o delicioso aroma dos temperos enquanto a comida está no fogo. Dá mais trabalho? Leva mais tempo? Sim, com certeza, mas o resultado torna compensador todo o esforço.

Assim estaremos investindo na educação dos sentidos, na relação da criança com a natureza. Além de contribuir para a formação de hábitos alimentares saudáveis e consciência ecológica.