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COP15 entrega proteção recorde para espécies migratórias

Conferência inclui 40 espécies nas listas de proteção e inicia, pela primeira vez, discussões sobre financiamento para conservação

tartaruga marinha
Foto: Brady Knoll / Pexels

A 15ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias, realizada em Campo Grande, na região do Pantanal brasileiro, entre 23 e 29 de março de 2026, foi encerrada com o que autoridades descreveram como um dos resultados mais robustos da história do acordo. A decisão combina proteção recorde da biodiversidade com os primeiros passos rumo a uma agenda global de financiamento.

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Um total de 40 novas espécies foi incluído nos apêndices da Convenção, marcando a maior expansão de proteção já alcançada pela CMS. O resultado foi amplamente apresentado pelos negociadores como prova de que a cooperação multilateral segue capaz de entregar resultados concretos, mesmo em um cenário geopolítico fragmentado.

“Temos uma das COPs mais bem-sucedidas da história da Convenção, com a inclusão de 40 novas espécies e um avanço muito firme na proteção global. Isso mostra que, com cooperação e multilateralismo, é possível entregar resultados concretos”, afirmou João Paulo Capobianco, presidente da COP15.

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Para além dos números, a conferência reforçou uma mudança em direção à cooperação prática entre países, com a aprovação de uma série de ações coordenadas para proteger rotas migratórias e habitats críticos. A mensagem central foi clara: para espécies migratórias, a ação nacional isolada não é suficiente.

aves migratórias penas claras
Foto: Pixabay

De forma crucial, a COP15 também marcou um ponto de inflexão ao colocar o financiamento no centro da agenda da CMS. Pela primeira vez, os países concordaram em avançar discussões sobre uma estratégia de mobilização de recursos, reconhecendo que a implementação dependerá de apoio financeiro — especialmente para países em desenvolvimento.

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“Pela primeira vez, a Convenção discutiu como garantir financiamento, tecnologia e capacidade para que os países cumpram seus compromissos — sem isso, a conservação simplesmente não acontece”, disse Patrick Luna, chefe da divisão de biodiversidade do Ministério das Relações Exteriores.

O resultado reflete a estratégia diplomática mais ampla do Brasil de posicionar a biodiversidade no centro dos debates de governança global, conectando proteção ambiental com desenvolvimento econômico, cooperação internacional e coordenação política.

A conferência também destacou a crescente convergência entre as agendas de clima e biodiversidade, com espécies migratórias sendo cada vez mais tratadas como bioindicadores das transformações ambientais causadas pelas mudanças climáticas.

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Atlas de Rotas Migratórias
O Atlas de Rotas Migratórias das Américas identifica os locais críticos de reprodução, parada e invernada dos quais as aves migratórias dependem para sobreviver. Imagem: The Cornell Lab of Ornithology

“A natureza não reconhece fronteiras — e o nosso compromisso de protegê-la também não pode reconhecer. Esta Convenção reflete uma responsabilidade compartilhada que vai além dos interesses nacionais — atuamos pelo que não pertence a ninguém e, portanto, pertence a todos”, afirmou Capobianco em seu discurso de encerramento.

Entenda a Conferência

Cerca de dois terços dos países soberanos do mundo (133 no total) são Partes da Convenção CMS, cujo objetivo é facilitar a cooperação internacional necessária para conservar espécies que migram entre diferentes países.

A Convenção possui dois Apêndices: o Apêndice I lista as espécies que requerem proteção rigorosa, incluindo a proibição de captura em quase todas as circunstâncias; e o Apêndice II inclui espécies para as quais é necessária cooperação internacional para garantir sua conservação, podendo essa cooperação assumir a forma de acordos formais, memorandos de entendimento, planos de ação ou outras medidas.

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cop15 das espécies migratórias
Foto: COP15

Cooperação na prática

Entre as espécies que passaram a contar com maior proteção estão exemplos que ilustram tanto sua importância ecológica quanto seu valor econômico e cultural em diferentes regiões.

Nos ecossistemas marinhos, espécies como o cação-cola-fina (Mustelus schmitti) — fortemente impactado pela pesca no Atlântico Sul — e tubarões migratórios de distribuição global destacam a necessidade de regulação internacional coordenada das atividades pesqueiras.

tubarão
Foto: Rui rui.oliveira@apexdive.com por Pixabay

Nos sistemas fluviais, a inclusão do pintado (Pseudoplatystoma corruscans) reflete sua importância econômica para a pesca na América do Sul e reforça a cooperação entre países da bacia Paraná–Paraguai.

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Já aves migratórias como o maçarico-de-bico-torto e o maçarico-de-bico-virado, que conectam a América do Norte à América do Sul ao longo de mais de 30 países, evidenciam a escala hemisférica dos desafios de conservação. Espécies oceânicas como os petréis, que cruzam até 64 países mas dependem de poucos locais de reprodução, ilustram de forma clara como a conservação depende de governança global coordenada.

Esses exemplos refletem uma mudança mais ampla: da proteção isolada para sistemas integrados de conservação transfronteiriça, já em implementação em diferentes regiões.

botos amazônicos
Casal de boto rosa (Inia geoffrensis) no lago Acajatuba, Rio Negro, Amazonas. Foto: franco Banfi WWF

Olhando para frente, o Brasil sinalizou que pretende avançar com essa agenda por meio de uma iniciativa emblemática voltada ao boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis). A proposta — a ser formalmente apresentada na COP16 — busca estabelecer uma área de conservação dedicada à espécie na bacia amazônica, envolvendo os nove países da região, incluindo aqueles que ainda não integram a Convenção.

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A iniciativa foi concebida não apenas para proteger uma espécie, mas como uma plataforma de governança regional, fortalecendo o alinhamento de políticas, ampliando a cooperação e incentivando a adesão de novos países à CMS.

Avanços para espécies migratórias

Em nota enviada à imprensa, o WWF-Brasil celebrou os avanços significativos na 15ª Reunião da COP15, ressaltando que os governos concordaram com novas medidas para reduzir a captura acidental, ampliaram a proteção de várias espécies ameaçadas e reforçaram os compromissos de promover a conectividade ecológica em terra e no mar.

“As Partes adotaram uma nova e robusta resolução sobre captura acidental e incluíram diversas espécies importantes nos Apêndices, incluindo a hiena-listrada, o tubarão-raposa e a coruja-das-neves. Também renovaram e fortaleceram o compromisso de avançar na conectividade ecológica em ambientes terrestres e aquáticos, além de adotarem uma nova resolução sobre Áreas Importantes para Tartarugas Marinhas, contribuindo para a iniciativa Corredores Azuis para Tartarugas, desenvolvida em parceria com o WWF”, afirmou a organização.

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cop15 espécies migratórias
Foto: COP15

Outro ponto destacado no comunicado foi uma posição fortemente preventiva em relação à mineração em águas profundas e uma nova iniciativa para enfrentar a captura ilegal e insustentável de espécies listadas na CMS. Também foram acordadas medidas para fortalecer a cooperação na conservação das onças na região.

“As decisões tomadas para fortalecer a conectividade ecológica e proteger os corredores migratórios representam passos essenciais tanto para as pessoas quanto para a natureza. Acordos sobre ‘corredores azuis’ para tartarugas e ‘rotas migratórias’ para aves contribuem para a recuperação das espécies, ao mesmo tempo em que conservam os ecossistemas essenciais para sustentar as comunidades locais”, afirmou Colmán Ó Críodáin, chefe de Políticas de Vida Selvagem do WWF.

Alerta

“Entretanto, com apenas quatro anos restantes para cumprir a missão global de deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030, não há espaço para complacência. O progresso rumo às metas globais de natureza será avaliado ainda este ano, e os indícios atuais sugerem que os países não estão no caminho certo. O WWF insta todos os países a construir sobre os avanços alcançados em Campo Grande e acelerar as ações”, acrescentou Críodáin.

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Esta é a primeira vez que a COP da CMS é realizada no Brasil, e às portas do Pantanal. Campo Grande está situada na borda do bioma, a maior e uma das mais diversas áreas úmidas do mundo, lar de onças, capivaras (o maior roedor do mundo) e vitórias-régias (uma planta aquática com as maiores folhas do planeta).

onça pintada
Onça-pintada Aroeira. Foto: Lucas Morgado

“A realização da COP no Brasil também contribuiu para impulsionar propostas concretas e fortalecer a cooperação regional em torno de espécies migratórias. Ao mesmo tempo, evidenciou que o próximo passo é transformar essa ambição em implementação concreta. Já temos diagnóstico e direção – o que está em jogo agora é a capacidade de implementar, com cooperação e recursos, alinhando ambição e financiamento para garantir resultados na prática,” afirmou Mariana Napolitano, diretora de Conservação do WWF-Brasil.

Durante a COP15, o WWF organizou diversos eventos para apresentar projetos desenvolvidos em parceria, incluindo com o Secretariado da Convenção. Esses eventos destacaram trabalhos sobre corredores azuis para grandes cetáceos e tartarugas marinhas, esforços de conservação das onças e um relatório sobre espécies de peixes de água doce que podem ser consideradas para futuras inclusões nas listas da CMS.

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