Anormalidades morfológicas são alterações na forma do corpo de um animal durante o seu desenvolvimento, que podem surgir como consequência de vários fatores. Nos últimos anos, o declínio progressivo nas populações de anuros – sapos, rãs e pererecas – deixou muitas espécies vulneráveis ​​à extinção. Estudos recentes apontam que o uso de agrotóxicos pode influenciar no desenvolvimento e no metabolismo desses anfíbios, e a infecção por vírus tem sido apontada por aumentar a toxicidade de pesticidas, o que pode estar potencializando o problema.

Estudos já desenvolvidos com anuros identificaram ambientes de anormalidades morfológicas com frequência ultrapassando 5% em ambientes naturais. No norte do Rio Grande do Sul, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade de Passo Fundo (UPF) registraram uma frequência de anormalidades acima desse percentual, caracterizando a região como um ambiente de anormalidades. O grupo de cientistas encontrou nove tipos de anormalidade em uma floresta e sete em uma área agrícola.

A pesquisa tem sido desenvolvida pelos pesquisadores Thaís Ascoli Morrete e Elias Signor, do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UPF, e pela Dra. Manuela Santos Pereira, do Laboratório de Ecologia de Vertebrados da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenados pela professora da UPF Dra. Noeli Zanella. Segundo eles, o papel potencial das anormalidades morfológicas como um mecanismo desse declínio na população de anuros tem atraído a atenção de muitos pesquisadores em estudos recentes.

O estudo

Para o estudo, o grupo de pesquisadores trabalhou em três espaços: área florestal; área agrícola; área periurbana. “Os ambientes agrícola e florestal apresentaram uma diversidade semelhante de anormalidades. Isso pode refletir o pequeno tamanho dos fragmentos florestais estudados e a influência do entorno agrícola nessa área”, comenta a professora que coordenou o estudo, citando que a área periurbana apresentou uma menor incidência de anormalidades, o que pode ser atribuído às suas características, por se tratar de uma área de preservação.

Dentre as principais anormalidades encontradas durante a pesquisa, os pesquisadores evidenciaram a braquidactilia como a mais recorrente, o que ocasiona uma malformação dos dedos, que ficam anormalmente curtos. A professora explica que os anuros são apontados como um dos grupos animais mais ameaçados do planeta, com taxas de extinção maiores do que as de outros vertebrados. “Algumas características dos anuros os tornam mais sensíveis às mudanças no ambiente, como por exemplo possuir pele permeável, assim, são ótimos bioindicadores ambientais”, pontua.

Os dados mostram que as anormalidades morfológicas podem afetar as populações de anuros de forma diferente, e que, portanto, podem se tornar um sério problema para a sobrevivência do grupo. “Diferentes áreas podem apresentar diferenças quanto à frequência de anormalidades e estudos em áreas agrícolas parecem indicar que, nessas, as anormalidades são mais comuns e afetam mais os anuros, possivelmente devido à contaminação por agrotóxicos, como os pesticidas”, considera a pesquisadora Manuela.

Anuros na biodiversidade

Atualmente, são conhecidas mais de mil espécies de anuros no Brasil e esse grupo é um dos mais ricos do mundo, conforme os pesquisadores. “Na Mata Atlântica, mais de 85% dessas espécies são endêmicas, isso é, exclusivas do local onde vivem. Apresentam os mais diversificados modos de reprodução conhecidos entre todos os vertebrados, ocupando uma importante posição na teia alimentar”, explicam eles.

Sobre a atuação dos anuros, eles destacam que são importantes predadores de artrópodes, principalmente insetos, e mesmo de pequenos vertebrados. “São também presas para a alimentação de mamíferos, aves, répteis e mesmo de outros anfíbios e até de artrópodes, contribuindo para o equilíbrio ecológico das comunidades”, dizem. O ciclo de vida, geralmente compreendido por uma larva aquática (girino) e uma fase adulta terrestre, torna os anfíbios um dos grupos mais afetados pelas alterações ambientais.

As informações são da Universidade de Passo Fundo.