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Biodiverso: a potência da floresta em pé e da união de seus povos

No Mato Grosso, seringueiros e indígenas mostram caminhos para o desenvolvimento econômico em harmonia com a biodiversidade da floresta

Published 28/04/2025
Kiara menina indígena

Kiara, do Povo Rikbaktsa, recebeu a equipe do CicloVivo na Aldeia Pé de Mutum. Foto: Mariana Bassani

Nas margens do Rio Aripuanã, que dá nome a uma pequena cidade na Amazônia do Mato Grosso, indígenas e seringueiros já tiveram dias de conflito. Isso ficou no passado. Hoje, os povos da floresta e as comunidades tradicionais são aliados, unidos pelo propósito do desenvolvimento sustentável que tem na bioeconomia sua principal ferramenta.

Everaldo Dutra é filho de seringueiros e presidente do projeto Biodiverso, que começou com o projeto Pacto das Águas, nos anos 90. Ele explica que o nome Pacto das Águas veio justamente dessa união entre indígenas e extrativistas pela preservação de rios e territórios.

Em uma visita à Aldeia Pé de Mutum, Everaldo, um grupo de jornalistas, a equipe do Biodiverso e representantes da Petrobrás, patrocinadora do projeto, acompanharam Donato Bibitata, de 67 anos, e aprenderam com ele a técnica indígena para retirar o látex da seringueira sem prejudicar a árvore. “Nós não nos dividimos da floresta. Se sangra a floresta, sangram os povos indígenas. Então queremos mostrar boas práticas de como trabalhar com a seringueira”, conta Donato.

Donato cuida das seringueiras com o carinho de quem tem uma conexão ancestral com essas árvores e com o chão onde elas e o seu povo vivem. Ele faz parte do povo Rikbaktsa. São 34 aldeias divididas entre a Terra Indígena Erikbaktsa e Terra Indígena Japuíra.

Donato Bibitata mostra como extrai o “sangue” da seringueira. Foto: Mariana Bassani

O comércio do látex, do artesanato e da castanha vêm como uma resposta à necessidade crescente das aldeias por novas fontes de renda. Apesar de viver em territórios demarcados, o povo Rikbaktsa é ameaçado pela agropecuária que cerca totalmente as terras indígenas.

A caça e a pesca que eram fartas vêm diminuindo ao longo dos anos. Muitos animais, como a anta e o cateto, saem da mata em direção às plantações, onde encontram alimento com muito mais facilidade. Os rios perdem água para irrigação e a presença de agrotóxicos diminui a quantidade de peixes. O resultado é que os alimentos, antes encontrados no próprio território, hoje também precisam ser comprados. O dinheiro também é necessário para construções importantes nas aldeias, como o barracão destinado aos rituais ou espaços escolares.

Floresta em pé e união

O projeto Biodiverso atua com 6 territórios na região: 5 aldeias e 1 reserva extrativista. Sávio Gomes é coordenador do projeto. Ele também veio de uma comunidade de seringueiros. Vendo muitos conhecidos saírem do seringal para o garimpo, decidiu seguir no caminho da preservação e se uniu à Everaldo.

“Eu vivi 2 anos com o povo Rikbaktsa, nas aldeias Beira Rio e Pé de Mutum. Foi com eles que entendi o que é a conexão com a floresta e toda a vida que ela abriga”, conta Sávio.

Sávio é recebido pelos indígenas da Aldeia Barranco Vermelho. Foto: Mariana Bassani

Everaldo, Sávio e uma equipe muito comprometida trabalham em parceria com o povo Rikbaktsa, desde 2013, quando o projeto Biodiverso foi selecionado em um edital do Programa Petrobras Socioambiental. As decisões são coletivas: um conselho indígena é consultado sempre que o projeto dá um passo importante. Quando é possível comprar um barco, por exemplo, caciques de diferentes aldeias, se reúnem para decidir para onde vai o equipamento.

“Quando entramos num território é muito importante ouvir, entender as necessidades e saber o que faz sentido para as pessoas que vivem aqui”, explica Lara Sousa Leandro, educadora ambiental do projeto Biodivreso que, entre outras atividades, trouxe um meliponário para a aldeia Pé de Mutum e está apoiando as mulheres na criação de abelhas sem ferrão. O projeto começou há cerca de um mês e pode ser um outra fonte de renda para os indígenas.

Mulheres aprendem a produzir mel de abelhas sem ferrão na Aldeias Pé de Mutum. Foto: Mariana Bassani

Mesmo enfrentando tempos difíceis, os Rikbatsa se recusam a trazer para o seu território a exploração predatória de recursos. E nesse propósito de gerar renda e manter a floresta em pé, têm na equipe do projeto Biodiverso grandes amigos e aliados.

Castanheira e Seringueira, árvores generosas

Quando não são derrubadas, as árvores dão frutos, sombra, regulam a temperatura, sequestram carbono e abrigam diversas espécies. Uma vez que são cortadas podem ser vendidas como madeira, mas garantem um único benefício, uma única vez.

Exemplo disso são as seringueiras e as castanheiras, fonte de renda para o povo Rikbaktsa. Com o projeto Biodiverso os indígenas ganharam uma ponte com empresas como a Veja, marca franco-brasileira de calçados conhecida pelo seu compromisso socioambiental. É para a sola e outras partes destes tênis que vai o látex extraído com cuidado e carinho por seu Donato.

Seringueira. Foto: Mariana Bassani

Recentemente, a equipe do projeto fechou um novo contrato, com a marca de pneus Michelin, que garantiu a compra de 100% da produção nos próximos anos. Mas, mesmo com compradores garantidos, existem desafios. A entrega do produto é difícil, já que o caminho até a aldeia é longo, com muitos trechos em estradas de terra e outros em vias esburacadas.

O custo do transporte precisa ser compensado por uma grande quantidade de produto, algo entre 30 e 40 toneladas. Essa exigência demanda muito tempo de trabalho e muitas pessoas envolvidas com a extração do látex – uma logística difícil de ser implantada em um território enorme.

Atuando como um elo entre as diferentes realidades, a equipe do Biodiverso percorre as aldeias atendidas pelo projeto sinalizando as oportunidades e entendendo as dificuldades dos indígenas, para garantir que a bioeconomia traga recursos e desenvolvimento para o maior número possível de pessoas.

A equipe do projeto Biodiverso e jornalistas convidados são recebidos com dança na Aldeia Pé de Mutum. Foto: Mariana Bassani

Na Aldeia Beira Rio, o desejo por fazer parte da cadeia da borracha foi uma das demandas apresentadas pelo cacique Ademir Rikbaktsa. Os anciões da aldeia, que são sempre consultados quando visitantes chegam e decisões são tomadas, pediram a Savio e Everaldo apoio para necessidades das famílias. Além da reforma do barracão principal, a alimentação é uma preocupação.

Para esta demanda, a proposta também envolve a capacitação da comunidade em sistemas agroflorestais. Uma novidade por lá e uma ideia que foi muito bem recebida. “Não podemos prometer soluções rápidas, do dia para noite. Mas garanto que vamos estar sempre buscando as melhores condições para atender a todos”, garantiu Everaldo.

Everaldo, fundador e presidente do Projeto Pacto das Águas. Foto: Mariana Bassani

Beneficiamento e empoderamento

Dentro da bioeconomia, a cadeia da castanha segue o mesmo princípio que norteia a borracha: as árvores em pé, dentro de uma floresta preservada trazem frutos e benefícios, ano após ano. Os ouriços de castanha do Brasil ou castanha do Pará, como são conhecidas no país, caem naturalmente quando estão maduros.

Colheita da Castanha por indígenas da Aldeia Barranco Vermelho. Foto: Mariana Bassani

Cabe às mulheres a tarefa de escolher os melhores ouriços da área em volta da castanheira. Os homens então partem o ouriço, uma esfera de madeira bem rígida onde ficam as castanhas em suas cascas. Elas são separadas e levadas para a fábrica de castanha, uma conquista da aldeia Barranco Vermelho e do projeto Biodiverso.

Há 12 anos, os indígenas recolhiam e vendiam a castanha em seu estado bruto, sem o beneficiamento. O valor pago era baixo e o produto ia direto para os atravessadores. Em 2024, com as mesas de secagem e um galpão onde as castanhas são cozidas e descascadas em máquinas, é possível vender o produto pronto para o consumo e receber um valor maior.

No beneficiamento das castanhas, mais uma vez, as mulheres são protagonistas. Quem lidera a fábrica é Luciente Rikbaktsa, presidenta da Associação de Mulheres da Aldeia Barranco Vermelho. As castanhas são descascadas por 16 mulheres que dividem seu tempo entre o trabalho no galpão e as tarefas domésticas. Com isso, elas estão pouco a pouco conquistando uma autonomia financeira até então desconhecida.

Luciente Rikbaktsa, presidenta da Associação de Mulheres da Aldeia Barranco Vermelho, no galpão de beneficiamento das castanhas. Foto: Mariana Bassani

“Nós como mulheres, temos que ser independentes. O povo Rikbktsa é um povo guerreiro e isso inclui as mulheres. No início foi difícil, é um trabalho duro, mas hoje já nos acostumamos”, conta Lucinete.

As máquinas, no entanto, pertencem a um parceiro comercial que paga às indígenas pelo quilo de castanha descascada. “No futuro queremos ter nossas próprias máquinas, ampliar o barracão e poder vender nossa própria castanha”, explica a presidenta, que tem apenas 25 anos, é mãe e a primeira mulher a assumir a liderança da associação da aldeia.

Castanheira, árvore que dá frutos e gera benefícios, ano após ano. Foto: Mariana Bassani

Arte e identidade

Outra fonte de renda e manifestação cultural muito presente nas aldeias é o artesanato. Feito principalmente por mulheres, o trabalho é delicado e exige experiencia. Os fios para fazer colar, pulseira, cocar e outras peças é tecido à mão, com o algodão colhido no próprio território.

O algodão é colhido e fiado para ser usado no artesanato. Fotos: Mariana Bassani

As sementes são polidas, cortadas e furadas com precisão. São cores vivas, combinadas com carinho e que trazem significados. O vermelho, por exemplo, é usado em dias de festa ou batalhas.

Os homens também fazem manualmente, e com o mesmo cuidado, outras peças como as flechas, chocalhos, e lindas Bordunas, armas de madeira, para guerra e caça, que também simbolizam proteção para quem as recebe como presente.

Instrumentos musicais, colares, chocalhos e outroas peças fazem parte do colorido artesanato Rikbaktsa. Foto: Mariana Bassani

Vender as joias e outras peças de artesanato fora das aldeias depende de parcerias externas e da dificuldade da logística de transporte e o comércio online. No momento, as vendas dependem do contato direto com a Associação de Mulheres ou de visitas às aldeias.

Mulheres do Povo Rikbaktsa com suas bordunas. Fotos: Mariana Bassani.

Uma cultura viva e ancestral

Para além da luta pela conservação do seu território e do trabalho para inclusão em cadeias econômicas de modo sustentável, as lideranças do povo Rikbaktsa têm uma preocupação constante com a manutenção da sua cultura e tradições. A alfabetização das crianças acontece dentro dos territórios, em salas de aula com condições que variam muito de uma aldeia para outra.

Se o português é falado por todas as crianças, que também escrevem no idioma do colonizador, a língua materna está se perdendo. As escolas têm pelo menos 6 horas semanais dedicadas a ensinar Saberes Indígenas indígenas, o que não tem sido suficiente.

Os educadores enfrentam o desafio de lecionar para diversas turmas, de diferentes idades. Isso porque o número de alunos e alunas não é suficiente para formar as classes do ensino formal. Outra dificuldade é que as tradições e idioma não estão tão presentes nas famílias, como já estiveram. Uma das causas está o fato de vários indígenas terem sido levados para estudarem em internatos onde a língua materna era proibida.

Criança na aldeia Pé de Mutum. Foto: Mariana Bassani

Uma solução encontrada pela professora Geysilene Rikbaktsa é levar os anciões para dentro da sala de aula, onde eles dividem com os mais jovens toda a sabedoria e histórias ancestrais. É um passo importante, mas o caminho ainda é longo.

O ensino da língua e da cultura é dificultado pela falta de material didático, já que a tradição dos povos indígenas sempre foi oral. Com professores e professoras se formando em pedagogia e retornando às aldeias, essa barreira está sendo rompida e alguns livros escritos por indígenas para indígenas já estão chegando às crianças e jovens. Entre os Rikbatska já são onze professores com graduação e dois educadores com mestrado – Geyselene é graduada em Pedagogia e tem mestrado em Ciências Sociais.

Geysilene Rikbaktsa e seus alunos entregam carta com demandas da aldeia a Gregório Araújo, do Programa Petrobras Socioambiental. Foto: Mariana Bassani

Na visita que fizemos à Aldeia Barranco Vermelho, ela e seus alunos entregaram em mãos um documento pedindo mais recursos para que a bioeconomia possa se fortalecer cada vez mais dentro das Terras Indígenas Japuíra e Erikbaktsa e para que a fiscalização do território seja mais consistente. Quem recebeu o documento foi Gregório Araújo, do Programa Petrobras Sociambiental, que apoia mais de 170 projetos de impacto socioambiental positivo.

As invasões, o garimpo e o desmatamento são ameaças constantes, mesmo em Terras Indígenas demarcadas. A presença do agronegócio, com pecuária e monoculturas, também impacta o equilíbrio ecológico destas áreas e, consequentemente, a vida dos povos indígenas que fazem parte deste equilíbrio.

Indígenas do Povo Rikbaktsa, às margens do Rio Jaruema, norte do Mato Grosso. Foto: Mariana Bassani

A equipe do CicloVivo viajou ao Mato Grosso para conhecer as iniciativas do Projeto Biodiverso à convite de Petrobras. Todas as emissões de CO2 desta viagem serão compensadas pela Iniciativa Verde, parceira do CicloVivo #PorUmMundoMelhor.

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