Em 2005, quando optou por vegetalizar a fórmula de todos os seus sabonetes, a Natura passou a buscar inovações e tecnologias que pudessem reverter a lógica de produção da cadeia de óleo de dendê, conhecido também como óleo de palma, matéria-prima usada em uma série de produtos, de alimentos a cosméticos, produzida até então apenas em monocultura. Foi então que a empresa olhou para a própria natureza e apostou na biomimética para estabelecer o projeto SAF Dendê, com o objetivo de substituir a monocultura pelo sistema agroflorestal.

Mais sustentável sob diversos pontos de vista, o Sistema Agroflorestal (SAF) tem como premissa incluir árvores no sistema de produção, dessa forma gerando inúmeros serviços ambientais, entre eles a provisão de matérias-primas e alimentos. “A biomimética, quando nos inspiramos na natureza para inovar, foi muito relevante no desenvolvimento desse projeto, em um sistema de cultivo do dendê que copia a floresta, ao combiná-lo com outras culturas. Com isso, conseguimos um modelo mais resiliente, que mantém a diversidade da floresta em pé”, afirma Daniel Gonzaga, diretor de Inovação e Desenvolvimento de Produtos da Natura.

Este sistema de produção permite o cultivo de várias espécies em uma mesma área, em uma ocupação semelhante à uma floresta, com diferentes estratos na estrutura vertical. “Esse sistema de produção gera três vezes mais valor ambiental do que a monocultura, além de ter o potencial de diversificar a renda para o agricultor e distribuir melhor a mão de obra ao longo do tempo. Além do dendê, o sistema agroflorestal permite a colheita de outros produtos, como o cacau, o açaí, a bacaba, a andiroba, o taperebá, entre outros”, afirma Debora Castellani, gerente científica da Natura.

O SAF Dendê também se mostrou um sistema resiliente frente às mudanças climáticas, contribuindo de maneira positiva no controle biológico natural de pragas e doenças. O manejo agroecológico e a manutenção dos processos biológicos favorecem o equilíbrio natural entre os componentes do sistema, promovendo a saúde do solo, das plantas e do sistema como um todo.

Foto: Reprodução Youtube / Natura

O óleo de dendê ou óleo de palma (como é conhecido no mercado) é um ingrediente utilizado em grande escala, principalmente pelas indústrias de alimentos, cosméticos e biodiesel. O ativo corresponde a um terço da venda de óleos no planeta e sempre é cultivado em monocultura, com o uso intensivo de recursos naturais.

O projeto do SAF Dendê partiu de uma discussão interna na Natura sobre um modo de produção mais sustentável, que incluísse mais agricultores familiares, com benefícios socioambientais. “Em 2008, a Natura decidiu substituir de forma experimental a técnica de monocultura pelo sistema agroflorestal para produção de dendê em 18 hectares, junto com agricultores da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), no Pará”, afirma Gonzaga.

A Camta é referência no mundo em sistemas agroflorestais, e já era fornecedora de maracujá, cupuaçu e cacau para a Natura. Além da Camta, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) também contribuiu para o desenvolvimento desse sistema, que já teve apoio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), mais recentemente conta com o fomento da USAID (United States Agency for International Development), e de um novo parceiro de pesquisa, o ICRAF (Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal).

Colhendo benefícios

Dez anos depois, a iniciativa trouxe resultados surpreendentes: alta produtividade do dendê e do cacau, maior sequestro de carbono, maior fertilidade do solo, melhor qualidade de vida para o agricultor e até maior rendimento de óleo nos frutos de dendê comparado com a monocultura. “O Sistema Agroflorestal é o melhor sistema de uso do solo para os trópicos, contribuindo para recuperação de áreas degradadas na Amazônia, mas nunca havia sido usado para a produção de uma commodity como o dendê. É um projeto complexo, do ponto de vista técnico e científico, mas que está funcionando bem e acreditamos que pode ser referência para encorajar sistemas sustentáveis de produção de óleo de dendê ou palma no mundo, garantindo o futuro da produção de um dos ingredientes mais usados no nosso negócio”, observa Castellani.

A Natura, junto com Embrapa, Camta e Icraf, reuniu recursos e competências científicas para realizar uma próxima e ambiciosa etapa do projeto, com aporte de US$ 2,4 milhões no projeto. Além desse valor, o projeto SAF Dendê recebeu o apoio de US$ 2,37 milhões da USAID (United States for International Development), fundo americano de desenvolvimento internacional, com o objetivo de contribuir para o fomento do cultivo de óleo de dendê em sistema agroflorestal em áreas tropicais. Trata-se do primeiro projeto de uma empresa privada brasileira a obter recursos financeiros da USAID. “Nossa intenção é fortalecer esse modelo e criar mecanismos para expansão do cultivo de dendê no sistema agroflorestal, o que poderá gerar emprego, renda e preservação ambiental em nível global, com impacto positivo”, complementa Gonzaga.

Arquiteta e urbanista com formação em desenvolvimento sustentável pela University of New South Wales, em Sidney, Austrália. Fundou o CicloVivo em 2010 com a proposta de falar sobre sustentabilidade de forma divertida e descomplicada. Acredita que o bom exemplo é a melhor maneira de influenciar pessoas e que a simplicidade é a chave para vivermos em harmonia.