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Areia ‘que canta’ dá origem a hotel e ações sustentáveis

Com energia solar e replantio de árvores nativas, hotel fazenda em Brotas preserva nascente com areia que produz sons surpreendentes

hotel areia que canta
Nascente com areia especial atrai visitantes há 30 anos. Foto: Facebook | Hotel Areia que Canta

Em uma fazenda de 350 hectares, o atrativo principal é um tipo de areia que canta – e isso não é lenda! O lugar abriga também um ecossistema que visa preservar nascentes de rios, flora da mata atlântica e do cerrado, com produção orgânica de alimentos e uso de energia solar. Essa união de fatores positivo se destaca no roteiro turístico de Brotas, cidade paulista a 250 km da capital, famosa por seus rios e cachoeiras.

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O Hotel Fazenda Areia que Canta é a parte mais visível dos projetos sustentáveis desenvolvidos na área pela família Farsoni. De origem italiana, os Farsoni chegaram ao Brasil em 1887 e fincaram raízes em Brotas. Trabalharam em diversas atividades até conseguirem sua própria terra, onde criaram gado, porcos, galinhas e cultivavam café, milho, arroz e feijão.

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Fazenda manteve tradições, mas incorporou tecnologia e energia renovável. Foto: Divulgação

Hoje denominada Fazenda Tamanduá, a propriedade é administrada pela quarta geração da família, responsável pela criação do hotel que acaba de completar 30 anos. A nascente que dá nome ao empreendimento foi descoberta nos anos 40. Ela faz parte do aquífero Guarani e tem uma areia rara que, friccionada, emite sons semelhantes ao de uma cuíca ou ao canto de algum pássaro.

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Muito branca e fina, a areia é formada por grãos de quartzo, material usado para produção de vidro. O fenômeno ocorre porque o fluxo potente da água em brotação faz os grãos girarem, causando um atrito entre eles, que se tornam arredondados e finos, como micro bolinhas de gude. Ao serem friccionados, produzem sons.

areia que canta
Guia faz “música” com areia que canta. Fotos: Cleide Silva

Preservação das nascentes

“Nós nadávamos muito nesse lago quando éramos crianças”, conta Evandro Farsoni, um dos três membros da quarta geração da família, que já prepara a quinta geração para assumir o negócio futuramente.

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Foi a necessidade da preservação da nascente que acelerou vários outros projetos de conservação e sustentabilidade na “fazenda hotel”, como Evandro prefere chamar.

Começou com a limitação do número de pessoas que nadavam no local e a obrigatoriedade de uso de coletes de flutuação para que a areia não fosse pisoteada. A partir de 2000 foi proibida a entrada na lagoa, especialmente no olho d’água, onde a água brota. Há exceção controlada para uma pequena parte do lago para fotos de divulgação do local.

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A força da água brotando produz a areia que canta. Foto: Facebook | Hotel Areia que Canta

“Decidimos mudar o sistema: a pessoa vai vir, vai olhar a nascente, que não é uma piscina e por isso não se pode entrar”, diz Eloisa Farsoni, uma das irmãs de Evandro. “Se as pessoas quiserem nadar, temos outros lagos, rios e piscinas”.

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O foco da família passou a ser a proteção dos mananciais ao redor da ‘Areia que Canta’ e das outras nascentes da fazenda. “Hoje estamos com quase 15% a menos de chuvas que tínhamos na década passada e isso interfere muito nas nascentes e queremos preservá-las”, completa Evandro.

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O cuidado com a mata nativa garante que a água continue presente nos rios de Brotas. Foto: Facebook | Hotel Areia que Canta

Plantio de árvores nativas

A fazenda mantém de 20% a 25% de Áreas de Preservação Permanente (APP) próximas aos rios e Reservas Legais (LR) em terrenos de declividade. Por lei, não é permitida qualquer alteração nessas áreas, nem sequer retirar uma árvore.

Outra ação foi o plantio de 30 mil mudas de árvores nativas da Mata Atlântica e do Cerrado. Entre as espécies plantadas estão jatobá, sibipiruna, cedro, cabreúva, angico, canafístula e ingá, “cada uma no seu lugar, de acordo com o tipo de solo necessário, como arenoso ou mais úmido”, explica Evandro. As novas árvores compartilham áreas com espécies centenárias, como dois jatobás na trilha para a Areia que Canta.

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Evandro mostra orgulhoso área de reflorestamento na propriedade, que tem ainda árvores centenárias. Fotos: Cleide Silva

Energia solar e horta orgânica

A partir de 2020, a fazenda passou a receber energia fotovoltaica e hoje conta com 320 placas em três parques solares que geram de 12 a 14 mil kilowatts de energia por mês, suficientes para abastecer de 80% a 90% do consumo do hotel.

horta e placas solares
Horta orgânica produz alimento saudável para o restaurante do hotel. Foto: Divulgação | Hotel Areia que Canta

Ao lado do restaurante, uma grande horta orgânica iniciada por Andrelina, única representante da terceira geração dos Farsoni, abastece a cozinha com grande variedade de verduras e legumes. Ainda hoje, aos 79 anos, é ela quem administra a horta e, para quem tiver sorte, prepara especialidades com o que colhe em um fogão à lenha na mini cozinha montada ao lado da plantação.

Há muitos anos, segundo informa Evandro, a fazenda já tem tratamento de água e esgoto e separa todo o material reciclável, que é retirado por um morador da cidade e enviado para reciclagem. O resto orgânico é entregue a um vizinho que cria porcos e outros animais.

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fogão a lenha
Dona Andrelina, responsável pela criação do hotel, ainda recebe hóspedes em ocasiões especiais e cozinha receitas tradicionais da família. Foto: Cleide Silva

Tudo o que o hotel necessita e não tem produção própria é adquirido de produtores locais, “para ajudar a gerar renda e a desenvolver o ecoturismo na região, contribuindo assim com a economia local”, afirma Evandro. A maioria dos 120 funcionários também é da região. Cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) de Brotas vêm do ecoturismo.

Hoje, a Fazenda Tamanduá produz eucalipto para uso no hotel e venda externa, cana-de-açúcar em área arrendada para uma usina, laranja e bovinos, tudo com minimização de uso de adubos químicos, uso de roçadeiras em vez de grades para reduzir impactos no solo e gado sem confinamento, para cria e recria.

Livro conta história centenária

A ideia de construir o Hotel Fazenda Areia que Canta nasceu da iniciativa de Andrelina e seu esposo José, já falecido, de atender melhor as pessoas que frequentemente visitavam o local para ver a nascente. O projeto começou em 1994 com um simples serviço de café, bolo e suco oferecido aos turistas que pagavam R$ 5 de entrada.

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Três anos depois foi aberto um pequeno restaurante, ampliado mais tarde e hoje com capacidade para servir 400 refeições por período. Em 2000 foram inaugurados os primeiros 12 apartamentos para hospedagem. Hoje são 82, todos com amplo espaço e conforto. O hotel fazenda inclui salão de eventos, piscinas abertas, aquecidas e naturais, spa, salas de jogos, quadras esportivas, museu, capela e loja de produtos regionais.

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Livro de Carlos Minuano traz a história da família Farsoni e do Hotel Areia que Canta. Foto: Divulgação

A trajetória desde a chegada, há mais de um século, do primeiro Farsoni ao Brasil, Césare, que veio de Gênova aos 26 anos com esposa e dois filhos, a história cinco gerações da família e os 30 anos do hotel fazenda estão no recém-lançado livro “Areia que canta, 30 anos de histórias e memórias”, do escritor Carlos Minuano. O livro está a venda no hotel e na Livraria Capisce, em Brotas, que podem fazr envio pelos correios.

 

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