No Japão, há o costume de observar e celebrar o desabrochar das flores na primavera. O momento épico tem como maior símbolo a sakura ou flor de cerejeira, que inclusive atrai muitas pessoas no Parque do Carmo, em São Paulo, todos os anos. A cobertura rosa da floração é realmente espetacular. Porém, um grupo de pesquisadores viu nesta uma oportunidade de produzir corante natural e dela está extraindo a matéria-prima para tingir suas peças de roupas.

A novidade está saindo das mãos de cientistas, tecnólogos e designers que integram a Pangaia. O grupo não se intitula como uma marca de roupas e sim como uma empresa de ciência de materiais que produz inovações têxteis direto ao consumidor.

Em seu site, os fundadores da Pangaia explicam que passaram muitos anos trabalhando em soluções para roupas sustentáveis e o resultado disso é uma coleção de itens essenciais do guarda-roupa. A maior parte dos produtos comercializados são camisetas, mas há também calças e blusas de moletom, além de jaquetas.

tingimento natural
tinta cerejeira

Tecnologia

Em toda a coleção, a sustentabilidade é premissa. Há fibras e materiais reciclados de base biológica – feitos de garrafas plásticas recicladas. Quando usam algodão, é orgânico. Além do criação de corantes botânicos naturais a partir de resíduos de alimentos, plantas, frutas e legumes. “Nosso fornecedor tinge os têxteis de uma maneira que consome menos água, não é tóxico e biodegradável”, garante a empresa.

Para o corante de flores, a Pangaia firmou parceria com empresas de chá em Nagoya, no Japão, para coletar as pétalas rejeitadas. Desta forma, reaproveitam aquelas que seriam descartadas e não sacrificam as flores das árvores. Aliás, as empresas também não as cortam: colhem às que caem naturalmente após a floração anual.

Pela natureza

Usando tecnologia e engenharia biológica, o grupo de pesquisadores busca inovar e impulsionar soluções ecológicas. Não é à toa o nome Pangaia: PAN vem do grego e significa tudo, universo, mundo, enquanto GAIA é a Mãe-Terra. “Toda tecnologia com a qual trabalhamos tem como objetivo solucionar um problema ambiental entre a indústria da moda e a natureza”, afirma a companhia em seu site.

Para garantir a transparência, cada etiqueta de vestuário possui tecnologia blockchain que revela todo o histórico da peça. O grupo explica em detalhes as tecnologias já adotadas, confira abaixo:

Fibra de algas

Esta fibra é derivada de algas marinhas de água salgada que crescem abundantemente em um habitat natural do oceano. Isso evita os agressores agrícolas tradicionais, como o uso de pesticidas. A fibra criada é leve, absorve a umidade mais rapidamente que o algodão e retém alguns nutrientes ativos das algas. No final da vida útil da peça, ela se biodegrada perfeitamente.

Tratamento com óleo de hortelã-pimenta

O tratamento têxtil natural e de origem vegetal utiliza o óleo de hortelã-pimenta como seu principal ingrediente ativo e tem um efeito antibacteriano. É usado como tratamento de acabamento em nosso tecido para manter a roupa mais fresca por mais tempo: sua camiseta precisa ser lavada com menos frequência, economizando água, energia e tempo.

Flores silvestres

O FLWRDWN é um material totalmente biodegradável, criado com flores silvestres naturais, misturado com biopolímero e infundido com aerogel para desempenho e durabilidade. A tecnologia levou 10 anos de pesquisa e desenvolvimento em laboratório. É uma alternativa superaquecida, respirável, hipoalergênica e livre de crueldade animal. O material pode ser usado em casacos, edredons, jaquetas.

Corantes botânicos

Os corantes naturais são criados a partir de resíduos de alimentos e recursos naturais. Plantas, frutas e legumes ajudam a obter tons ricos e bonitos.

Algodão orgânico

O algodão comum requer mais água, pesticidas e degrada o solo ao longo do tempo. Em vez disso, os orgânicos são feitos a partir de sementes naturais e sem pesticidas ou outros produtos químicos nocivos. Como resultado, os produtos de algodão orgânico são mais seguros para a pele e para a terra.

Materiais recicláveis

Todos os resíduos têxteis e plásticos podem ser reciclados, transformados em fios e reutilizados repetidamente. A Pangaia desenvolveu produtos feitos de materiais reciclados pós-consumo e garrafas plásticas.

Embalagem compostável

Todo produto é envolto por embalagens de base biológica que desaparecem completamente, dentro de 24 semanas, nas condições adequadas.

O trabalho possui parceria científica com laboratórios e instituições de pesquisa na Europa, EUA, Japão e Coréia.

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