Fernando de Noronha conhece seu Índice de Felicidade
Iniciativa inédita no Brasil aplicou o Índice de Felicidade Interna Bruta do Butão para avaliar o desenvolvimento sustentável do arquipélago
Iniciativa inédita no Brasil aplicou o Índice de Felicidade Interna Bruta do Butão para avaliar o desenvolvimento sustentável do arquipélago
No Brasil, a aplicação do Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), metodologia desenvolvida pelo Centro de Estudos do Butão, começou por Fernando de Noronha e os resultados foram apresentados para a comunidade local durante o Festival de Sustentabilidade e Turismo, que aconteceu entre os dias 16 e 19 de outubro de 2025.
Moradores e moradoras de Noronha responderam à uma pesquisa detalhada, utilizando o questionário oficial do Butão adaptado à realidade local. Depois de avaliar e compilar os dados, as equipes da Aguama e da YOUniversality, fundada por Renata Rocha, puderam apresentar os resultados, em dois encontros especiais que abriram o evento.
Essa história começou em 2024, durante o I Fórum de Sustentabilidade e Turismo realizado pela Aguama Ambiental que contou com a presença de Dasho Karma Ura, presidente do Centro de Estudos do Butão.

A primeira apresentação do FIB pelo representante butanês levou a um projeto maior: aplicar a pesquisa que dá origem ao índice entre as pessoas que vivem em Fernando de Noronha, mostrando com está a qualidade de vida e outros indicadores sociais e econômicos no arquipélago.
O FIB é uma forma de medir o progresso de um país ou uma região. Ao invés de só analisar números da economia, como o PIB, ele considera o bem-estar em vários aspectos que envolvem qualidade de vida. O método avalia 9 dimensões e 33 indicadores: Saúde, Governança, Uso do Tempo (descanso e trabalho), bem-estar psicológico, Vida em Comunidade, Meio Ambiente, Padrão de Vida, Educação e Cultura.
Foram quase 500 entrevistas e 244 respostas válidas para compreender e mensurar o nível de bem-estar da população e identificar prioridades para ações coletivas que unem sustentabilidade, qualidade de vida e desenvolvimento local. O foco da pesquisa foram as pessoas que vivem em Fernando de Noronha, uma comunidade que tem uma realidade diferente do que é vivenciado por turistas.

O questionário incluiu mais de 200 perguntas que abordaram desde o acesso a serviços públicos e oportunidades de lazer até o sentimento de pertencimento e conexão com a natureza. O levantamento foi operacionalizado por meio de uma plataforma desenvolvida pela Aguama, com tecnologia de inteligência artificial, permitindo o monitoramento contínuo dos indicadores de felicidade e sustentabilidade da ilha.
Os resultados foram apresentados na última quinta-feira, 16 de outubro e revelaram que o índice geral de felicidade da população de Fernando de Noronha é de 55,27 – número que fica abaixo dos 66,7 considerados satisfatórios.
Dos respondentes, 42,6% dos moradores foram classificados como “moderadamente felizes” e 45% como “infelizes”. As dimensões com os melhores índices foram Diversidade Cultural e Resiliência (78,88), Saúde (60,02) e Bem-Estar Psicológico (60,08), enquanto os maiores desafios estão em Boa Governança (30,54), Uso do Tempo (25,02) e Diversidade Ecológica e Resiliência (39,97).

Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambiental, conta que a empresa que atua em Noronha desde 2017 e tem um relacionamento consistente com as lideranças comunitárias. Para ele, o o FIB representa um novo paradigma de desenvolvimento.
“A Felicidade Interna Bruta nos convida a repensar o que entendemos por progresso. Mais do que medir o crescimento econômico, o FIB traz um olhar humano e sustentável para o desenvolvimento da região. Esse indicador nos ajuda a entender como a população se sente, quais são suas necessidades e o que realmente importa para garantir qualidade de vida e um futuro equilibrado para os moradores.”, destaca.
Os dados da pesquisa ainda revelam que a população valoriza a cultura e o senso de comunidade, mas espera avanços em temas como governança, políticas ambientais e moradia. As sugestões apontadas pelos próprios moradores incluem melhorar a infraestrutura, promover igualdade econômica e garantir um turismo sustentável que respeite os limites ecológicos da ilha.

Com estes resultados é possível estabelecer um plano de co-criação entre poder público, setor privado e comunidade local para criar e fortalecer políticas públicas e projetos de impacto social e ambiental. “Noronha tem o potencial de se tornar referência mundial em felicidade e sustentabilidade. O FIB é mais do que um indicador, é um convite à ação coletiva para construir uma sociedade mais equilibrada e próspera”, complementa Caio.
A partir deste primeiro diagnóstico, a meta é que o FIB dê passos ainda mais largos, abrindo caminho para se consolidar no país como uma nova métrica de impacto socioambiental aplicável a empresas, investidores e gestores públicos.

O FIB nasceu no Butão, em 1972, quando o rei Jigme Singye Wangchuck declarou que a “Felicidade Interna Bruta é mais importante que o Produto Interno Bruto”. Desde então, tornou-se filosofia nacional do país asiático e, em 2012, foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um novo paradigma de desenvolvimento sustentável.
Diferente do PIB, que mede apenas a riqueza produzida, o FIB adota uma perspectiva holística e integra dimensões sociais, culturais, ambientais e espirituais. A metodologia se apoia em quatro pilares: boa governança, desenvolvimento socioeconômico sustentável, preservação cultural e conservação ambiental, e se desdobra em nove domínios, como saúde, bem-estar psicológico, educação, vitalidade comunitária, resiliência cultural, diversidade, padrão de vida, resiliência ecológica, entre outros. O índice utiliza notas que vão de 1 a 5 – quanto mais próximo de 5, maior a felicidade.

O índice chegou ao país com uma parceria entre a Aguama Ambiental, a YOUniversality, fundada por Renata Rocha, e o Centro de Estudos do Butão (CBS & GNH), com apoio da Diretoria de Felicidade da Heineken e da Administração de Fernando de Noronha.
O mapeamento feito pela Aguama mostra como os domínios do FIB se conectam às metas globais, incluindo os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que integram a Agenda 2030. Segundo Caio, o bem-estar psicológico, por exemplo, está relacionado aos ODS 3 (saúde e bem-estar) e 16 (instituições eficazes). Já a resiliência ecológica tem vínculos diretos com os ODS 13 (ação climática), 14 (vida na água) e 15 (vida terrestre).

“A convergência entre as duas agendas reforça a capacidade do índice de gerar diagnósticos que orientem políticas públicas, investimentos privados e projetos de impacto socioambiental”, enfatiza Queiroz.
No Butão, políticas públicas somente são aprovadas após análise de impacto sobre os domínios do FIB. Se aplicado em escala no Brasil, o índice pode ajudar a reduzir riscos reputacionais, qualificar métricas ESG e abrir espaço para instrumentos financeiros vinculados a resultados socioambientais.