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COP30: Organizações cobram liderança e menção a combustíveis fósseis

A segunda carta da presidência da COP30 propõe novos modelos de governança e exalta os saberes ancestrais, mas ignora combustíveis fósseis

Indígenas COP30
Foto: Kathleen Lamayo | 350org

A segunda carta da presidência brasileira da COP30, divulgada na última quinta-feira (8), propõe novas estruturas de mobilização internacional rumo à conferência de Belém. Em vez de anúncios técnicos, o documento aposta em uma proposta diplomático-narrativa ousada, centrada em quatro “Círculos de Liderança” e no conceito de “mutirão global”.

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Algumas dessas estruturas já estão em ação. É o caso do Círculo de Ministros de Finanças, liderado por Fernando Haddad, com foco em destravar o financiamento climático. A equipe técnica por trás dessa frente esteve diretamente envolvida no G20 em 2024, articulando a proposta de reforma dos bancos multilaterais e a criação de uma força-tarefa climática. A meta é viabilizar o chamado Roteiro Baku–Belém para alavancar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático de fontes diversas. Reuniões recentes entre os BRICS, além do diálogo crescente entre os governos do Brasil e de Barbados — protagonista global neste tema —, reforçam essa ambição.

Outro grupo que já se mobiliza é o Círculo das Presidências de COP, sob liderança de Laurent Fabius, que esteve à frente da COP21 que gerou o Acordo de Paris. Segundo a carta, o círculo terá o papel de um conselho, reunindo os presidentes das COPs dos últimos dez anos — e, segundo fontes, deve ampliar o escopo para consultar lideranças anteriores — para fortalecer a governança climática e preservar o legado das conferências.

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Foto: Diogo Zacarias/MF

Os outros dois círculos se voltam à sociedade. O Círculo Global dos Povos, presidido pela ministra Sônia Guajajara, pretende escutar e dialogar com povos indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais. Já o Círculo Ético, sob liderança da ministra Marina Silva, envolverá artistas, intelectuais e lideranças religiosas de todo o mundo numa mobilização moral e cultural contra a crise climática.

Na prática, os círculos funcionam como zonas de inteligência paralela. Embora evite uma crítica direta, a carta sugere que o modelo atual de governança climática — fragmentado, hierárquico e lento — já não responde à urgência da crise. A solução proposta é descentralização, ação concreta e articulação fora dos canais diplomáticos tradicionais: uma crítica implícita à lógica das promessas não cumpridas que tem marcado o regime da Convenção de Clima (UNFCCC).

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Falta liderança

A 350.org alerta para a proliferação de quadros processuais sem a liderança política necessária para alcançar resultados ambiciosos em Belém. A carta é publicada logo após ministros se reunirem em Copenhaga com o chefe da ONU para as mudanças climáticas, Simon Stiell, que na reunião advertiu que o planeta está numa trajetória para atingir 3°C acima dos níveis pré-industriais de aquecimento global.

A carta de 6 páginas detalha vários novos processos de consulta, mas ainda não fornece uma visão do que estes espaços devem alcançar e como irão dialogar e influenciar as decisões tomadas na conferência. Em suma, a carta carece de um esboço sobre como responder ao ciclo de ambição, nomeadamente a decisão de abandonar os combustíveis fósseis e triplicar a capacidade de energia renovável até 2030 – Os combustíveis fósseis não são, como na primeira carta, mencionados.

André Corrêa do Lago
Embaixador André Corrêa do Lago presidente da COP 30 no Palácio do Planalto, Na foto: Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Brasília – DF. | Foto: João Risi / SEAUD / PR

“A Presidência da COP30 tem o poder e a responsabilidade, ‘o queijo e a faca na mão’. Não podemos pisar em ovos em relação às decisões difíceis. É a segunda carta da presidência da COP30 e, embora estruturas importantes sejam anunciadas, ainda não temos detalhes sobre como a ação climática será implementada. Isso inclui detalhar como a COP30 reunirá espaços de tomada de decisão e discussões sobre os roteiros para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e a transição energética justa – Chefes de Estado e oficiais de governo não poderão apenas vir ao Brasil para ler discursos”, diz
Ilan Zugman, Diretor Regional da 350.org para a América Latina e Caribe.

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Em abril, mais de 180 organizações ambientais, líderes indígenas e jovens de todo o mundo assinaram uma carta, coordenada pela 350.org, para exigir urgentemente que a COP30 reafirme o compromisso global e apoie a implementação de uma transição justa e equitativa dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.

“O apelo da Presidência da COP30 para uma mobilização global sem precedentes é oportuno e bem-vindo. Mas este momento exige uma liderança política ousada, não apenas palavras bonitas. Para ter impacto histórico, a COP30 deve apresentar um resultado formal que acelere a transição energética e implemente o Global Stocktake – Compromissos voluntários no âmbito da Agenda de Acção não serão suficientes. Seja através de um processo obrigatório como o Diálogo dos EAU ou de uma decisão de cobertura nítida, o progresso da COP30 para a transição energética justa é inegociável”, afirma Andreas Sieber, Diretor Associado de Políticas e Campanhas da 350.org.

O elefante ausente: e os fósseis?

Apesar do tom mobilizador, a carta evita qualquer menção a energia, transição energética ou combustíveis fósseis. O silêncio é significativo: o parágrafo 28 do Global Stocktake (COP28/Dubai) que trata da redução progressiva dos fósseis é considerado central por parte da sociedade civil e de diversos países — especialmente diante da crescente pressão por um cronograma global de eliminação do petróleo, gás e carvão.

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No Brasil, essa omissão preocupa. A Petrobras, sem plano de transição pós-petróleo, mira a Amazônia como nova fronteira de exploração. Ignorar esse tema compromete a coerência da narrativa de liderança climática que o país deseja construir.

petróleo no Amazonas
Blocos de exploração localizados na bacia sedimentar da Foz do Amazonas. Imagem: Ibama

Questionado em entrevista coletiva, Corrêa do Lago reconheceu que não se pode falar em implementação sem abordar os combustíveis fósseis. “A floresta vai ser protagonista, mas não pode ocupar o espaço do verdadeiro problema — e o verdadeiro problema são as energias fósseis”, disse.

A ausência de uma abordagem mais direta sobre a transição energética também enfraquece o debate sobre o financiamento necessário para viabilizá-la. É notável que a carta não mencione os recursos que devem ser mobilizados — inclusive pelas próprias petroleiras e grandes emissores — para garantir que países e comunidades possam abandonar a dependência dos fósseis. O conceito do “Mutirão Global” aposta na descentralização das soluções, mas falha em reconhecer as responsabilidades diferenciadas entre governos, grandes empresas e a sociedade civil. A ideia de ação coletiva é inspiradora, mas precisa ser acompanhada de meios de implementação concretos e uma ênfase clara de que os maiores poluidores devem liderar — e financiar — essa transformação.

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Por outro lado, a carta corrige lacunas da comunicação anterior ao incorporar referências explícitas ao papel de povos indígenas, tradicionais e afrodescendentes. O reconhecimento do valor dos saberes ancestrais ao lado da ciência aparece como um avanço importante — especialmente simbólico para uma COP sediada na Amazônia.