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Com foco na COP30, líderes globais combatem desinformação

Lideranças se reuniram em Brasília e definiram ações para assegurar a integridade das informações sobre o clima

redes sociais
Foto: camilo jimenez na Unsplash

Mesmo em um momento em que a emergência climática e todas as suas consequências são inegáveis, a desinformação sobre o assunto continua conquistando espaço. As fake news e o negacionismo climático encontram um ambiente fértil no cenário de desmonte das políticas de moderação de conteúdo e verificação de fatos nas plataformas digitais.

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Para combater essas ameaças, líderes de governos, organizações multilaterais e organizações locais e internacionais sem fins lucrativos se reuniram em Brasília, no dia 26 de março, para discutir soluções concretas que garantam a integridade das informações climáticas à medida que a COP30 se aproxima.

Climate Information Integrity Summit reuniu mais de 120 participantes e contou com a presença de mais de 30 especialistas nacionais e internacionais. O objetivo foi claro: proteger as informações que orientam a ação climática global em meio a um ecossistema informativo cada vez mais obstruído por narrativas falsas e distorcidas.

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Não gosto do termo “fake news”. Porque contém a palavra notícia, acaba legitimando algo que não é notícia de forma alguma. Prefiro chamar pelo que realmente é: uma mentira”, ressalta Paulo Sergio Domingues, ministro do Superior Tribunal de Justiça do Brasil.

fake news
Foto: Luis Villasmil | Unsplash

“Sou juiz há muitos anos e todos os dias vejo pessoas apresentando diferentes versões dos mesmos fatos – não por malícia, mas porque têm percepções diferentes do mundo. Mas aqui, a história é diferente. Aqui, estamos lidando com desinformação deliberada. Estamos falando de mentiras e distorções projetadas para gerar lucro e vantagem política”, completa Paulo Sergio.

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Foi unânime entre os participantes do evento o papel central das grandes empresas de tecnologia, setores de relações públicas e até anunciantes no financiamento da desinformação. O modelo de negócios das plataformas digitais, que prioriza o engajamento a qualquer custo, tem alimentado a polarização e a disseminação de conteúdos falsos sobre a crise climática.

“As plataformas estão pagando para que o conteúdo de desinformação se propague, o que gera uma grande distorção da realidade e desvia a atenção das questões climáticas”, disse Imran Ahmed, CEO do Center for Countering Digital Hate.

o ano mais quente
Danos da mudança climática podem se tornar irreversíveis, alerta o relatório sobre o Estado do Clima Global 2024.

“Não sejamos enganados ou silenciados por bilionários fingindo defender a liberdade. Esta é uma luta que devemos vencer. Não amanhã. Não no próximo ano. Mas agora. Pelo futuro da democracia, pela sobrevivência do nosso planeta, pela minha filha, minha família e a sua. Por todos nós”, afirma Imran Ahmed.

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Organizado pela FALA, pela Conscious Advertising Network (CAN) e pela coalizão Climate Action Against Disinformation (CAAD), o evento se debruçou sobre os desafios enfrentados pelos sistemas de comunicação, onde a desinformação impede a mobilização efetiva em torno da crise climática. As discussões focaram em desenvolver um caminho claro para garantir a integridade das informações climáticas, com a COP30, marcada para o final deste ano, como um momento crucial para ações contra os riscos de manipulação de dados e informações vitais para o futuro do planeta.

“Decidi focar um dos meus relatórios temáticos para a Assembleia Geral da ONU no acesso público à informação sobre mudanças climáticas e direitos humanos, porque isso é realmente a condição prévia para o exercício e a proteção de todos os outros direitos humanos que são afetados pelas mudanças climáticas”, disse Elisa Morgera, relatora especial sobre mudanças climáticas das Nações Unidas.

lobistas COP30
Manifestação de Líderes indígenas durante encontro da COP 29 sobre Mudanças Climáticas da ONU. | Foto: Habib Samadov

O Brasil, anfitrião da COP30, fez um importante anúncio durante o encontro. O governo brasileiro se comprometeu a priorizar a integridade da informação no evento climático global e expandir seus esforços na liderança da Global Initiative for Information Integrity on Climate Change – uma parceria conjunta entre o governo brasileiro, a secretaria da ONU e a UNESCO para combate à desinformação climática.

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“Lançaremos o capítulo brasileiro da iniciativa global de integridade da informação sobre mudanças climáticas. Queremos ter no Brasil uma rede de pesquisadores, organizações e centros mobilizados em torno desse tema”, explicou Nina Santos, chefe do escritório de Consultoria Especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República do Brasil e Subsecretária da Secretaria de Políticas Digitais.

A União Europeia manifestou apoio ao movimento e afirmou que trabalha nos processos para compromissos oficiais e contribuições financeiras. O Reino Unido também reforçou seu compromisso, reafirmando seu papel como membro fundador da coalizão.

“A UE foi abordada, assim como outros países, pelas autoridades brasileiras para aderir a esta iniciativa global e estamos claramente muito alinhados com os objetivos para combater a desinformação sobre as mudanças climáticas e aumentar a conscientização e a ação sobre o clima”, disse Maria Buzdogan, conselheira de economia, indústria e transformação digital na Delegação da União Europeia no Brasil.

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Legislação, publicidade, ameaças e COP30

Entre os temas discutidos, alguns pontos se destacaram pela unanimidade entre os participantes. A integridade da informação foi vista como uma condição essencial para uma ação climática eficaz.

evento desinfomração climática
O Climate Information Integrity Summit reuniu mais de 120 participantes. Foto: Alex Amaral

Outro ponto fundamental do encontro foi o papel dos legisladores. Com o aumento da influência das grandes plataformas digitais, os especialistas destacaram a importância de políticas públicas que garantam a transparência das empresas de mídia e tecnologia, além de responsabilizar os atores que disseminam desinformação com o objetivo de proteger interesses próprios, como ocorre, por exemplo, com o lobby da indústria de combustíveis fósseis.

“Aqueles que lucram com falsidades são os mais interessados em espalhá-las. Hoje, qualquer pessoa é um jornal e seu próprio editor. Influenciadores pagos, coordenados para maximizar o engajamento, atuam como uma forma de publicidade altamente eficaz – e isso é uma preocupação séria”, reforçou Paulo Sergio Domingues.

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A COP30 foi apontada como uma oportunidade única para que a comunidade internacional se posicione firmemente contra a desinformação climática. Os palestrantes enfatizaram o pedido para que os acordos finais da cúpula reconheçam, explicitamente, a ameaça à integridade da informação representada pelos interesses corporativos, incluindo setores intensivos em carbono, e que fosse claramente definido o papel e as responsabilidades de ambas as Partes e dos atores do ecossistema informativo.

A resposta somos nós indígenas G20
Povos indígenas brasileiros lançam a campanha ‘A Resposta Somos Nós’ no G20. Foto: Apib

As falas de representantes indígenas também ocuparam espaço importante no evento. Eliesio Marubo, ativista da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, relatou os desafios enfrentados por defensores do meio ambiente e povos indígenas, que, além de lidarem com a violência física, são alvo constante de ataques digitais e ameaças. “A desinformação é um dos maiores inimigos daqueles que, como nós, lutam pela preservação ambiental”, afirmou.

“Eu venho de uma região onde o crime organizado prevalece, onde as autoridades são negligentes – o mundo político está profundamente conectado com o crime organizado. Isso levou a uma negação deliberada em 2022 da importância da Amazônia e das questões ambientais, que estávamos discutindo globalmente”, conclui Eliesio.

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Principais resultados

2024
Globalmente, cada um dos últimos dez anos foi individualmente o mais quente já registrado. Imagem: ONU

Dentre os principais resultados, consensos e caminhos apresentados entre os palestrantes do Summit, estão:

  • Integridade da informação e direitos humanos:Os participantes concordaram que a integridade da informação não é apenas essencial para ações climáticas robustas, mas também para a proteção dos direitos humanos fundamentais, da democracia e da liberdade de expressão.
  • Papel crucial dos legisladores:Medidas regulatórias podem proteger o espaço público digital, os direitos humanos e os processos democráticos. O Summit reiterou firmemente o papel crítico dos legisladores em promover a transparência e a responsabilidade entre os meios de comunicação, as redes sociais e as empresas de tecnologia, enfatizando sua responsabilidade em promulgar políticas e regulamentações focadas em proteger a integridade da informação, os direitos individuais (incluindo o direito ao acesso à informação) e prevenir a manipulação do discurso público por meio da desinformação.
  • Ameaças a defensores climáticos:A urgente necessidade de proteger defensores ambientais, cientistas climáticos e outros, e povos indígenas, que enfrentam pressões e ameaças devido à proliferação da desinformação, foi destacada como uma questão crítica e urgente, junto à necessidade de agir de forma interseccional contra uma oposição que ataca o clima, direitos LGBTQ+, justiça racial e outras questões e populações marginalizadas de forma coordenada.
  • Responsabilidade da Publicidade:O modelo de negócios atual da publicidade está financiando ódio online e desinformação. As grandes empresas de tecnologia, a indústria de relações públicas e os anunciantes são financiadores da desinformação, que prejudica a ação climática, os direitos humanos e as democracias. Além disso, o setor de combustíveis fósseis usa o modelo opaco de negócios de publicidade para proteger seus interesses próprios. A indústria de publicidade deve começar a contribuir para a integridade da informação, não financiando ódio e desinformação.
  • COP30: oportunidade ação global:O Summit concluiu que a COP30 representa uma oportunidade global única para a cooperação multilateral sobre integridade da informação. Os participantes pediram que o resultado oficial da COP30 reconhecesse explicitamente a ameaça à integridade da informação representada pelos interesses corporativos, incluindo setores intensivos em carbono, e que fosse claramente definido o papel e as responsabilidades de ambas as Partes e dos atores do ecossistema informativo – grandes empresas de tecnologia, empresas de mídia, empresas de relações públicas e anunciantes – na proteção da informação climática.

O que é a CAAD?

Uma coalizão global de mais de 70 organizações líderes em clima e anti desinformação que exigem estratégias robustas, coordenadas e proativas para lidar com a escala da ameaça da desinformação e desinformação climática.

O que é a FALA?

A FALA é um estúdio de impacto brasileiro premiado, dedicado à mudança social por meio de narrativa e comunicação estratégica. Tem como projeto original, Lies Have a Price, que expõe os custos da cadeia de desinformação climática, promovendo a integridade da informação, alfabetização midiática, engajamento climático e produção de conhecimento.

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O que é a CAN?

A CAN (Conscious Advertising Network) é uma organização global sem fins lucrativos que une marcas, agências e a sociedade civil para remodelar a publicidade. Eles defendem práticas éticas, transparência e inclusão, com o objetivo de criar uma indústria sustentável que beneficie a todos, enfrentando questões como desperdício da indústria e direitos humanos.

Com informações de ClimaInfo

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