Com foco na COP30, líderes globais combatem desinformação
Lideranças se reuniram em Brasília e definiram ações para assegurar a integridade das informações sobre o clima
Lideranças se reuniram em Brasília e definiram ações para assegurar a integridade das informações sobre o clima
Mesmo em um momento em que a emergência climática e todas as suas consequências são inegáveis, a desinformação sobre o assunto continua conquistando espaço. As fake news e o negacionismo climático encontram um ambiente fértil no cenário de desmonte das políticas de moderação de conteúdo e verificação de fatos nas plataformas digitais.
Para combater essas ameaças, líderes de governos, organizações multilaterais e organizações locais e internacionais sem fins lucrativos se reuniram em Brasília, no dia 26 de março, para discutir soluções concretas que garantam a integridade das informações climáticas à medida que a COP30 se aproxima.
O Climate Information Integrity Summit reuniu mais de 120 participantes e contou com a presença de mais de 30 especialistas nacionais e internacionais. O objetivo foi claro: proteger as informações que orientam a ação climática global em meio a um ecossistema informativo cada vez mais obstruído por narrativas falsas e distorcidas.
“Não gosto do termo “fake news”. Porque contém a palavra notícia, acaba legitimando algo que não é notícia de forma alguma. Prefiro chamar pelo que realmente é: uma mentira”, ressalta Paulo Sergio Domingues, ministro do Superior Tribunal de Justiça do Brasil.

“Sou juiz há muitos anos e todos os dias vejo pessoas apresentando diferentes versões dos mesmos fatos – não por malícia, mas porque têm percepções diferentes do mundo. Mas aqui, a história é diferente. Aqui, estamos lidando com desinformação deliberada. Estamos falando de mentiras e distorções projetadas para gerar lucro e vantagem política”, completa Paulo Sergio.
Foi unânime entre os participantes do evento o papel central das grandes empresas de tecnologia, setores de relações públicas e até anunciantes no financiamento da desinformação. O modelo de negócios das plataformas digitais, que prioriza o engajamento a qualquer custo, tem alimentado a polarização e a disseminação de conteúdos falsos sobre a crise climática.
“As plataformas estão pagando para que o conteúdo de desinformação se propague, o que gera uma grande distorção da realidade e desvia a atenção das questões climáticas”, disse Imran Ahmed, CEO do Center for Countering Digital Hate.

“Não sejamos enganados ou silenciados por bilionários fingindo defender a liberdade. Esta é uma luta que devemos vencer. Não amanhã. Não no próximo ano. Mas agora. Pelo futuro da democracia, pela sobrevivência do nosso planeta, pela minha filha, minha família e a sua. Por todos nós”, afirma Imran Ahmed.
Organizado pela FALA, pela Conscious Advertising Network (CAN) e pela coalizão Climate Action Against Disinformation (CAAD), o evento se debruçou sobre os desafios enfrentados pelos sistemas de comunicação, onde a desinformação impede a mobilização efetiva em torno da crise climática. As discussões focaram em desenvolver um caminho claro para garantir a integridade das informações climáticas, com a COP30, marcada para o final deste ano, como um momento crucial para ações contra os riscos de manipulação de dados e informações vitais para o futuro do planeta.
“Decidi focar um dos meus relatórios temáticos para a Assembleia Geral da ONU no acesso público à informação sobre mudanças climáticas e direitos humanos, porque isso é realmente a condição prévia para o exercício e a proteção de todos os outros direitos humanos que são afetados pelas mudanças climáticas”, disse Elisa Morgera, relatora especial sobre mudanças climáticas das Nações Unidas.

O Brasil, anfitrião da COP30, fez um importante anúncio durante o encontro. O governo brasileiro se comprometeu a priorizar a integridade da informação no evento climático global e expandir seus esforços na liderança da Global Initiative for Information Integrity on Climate Change – uma parceria conjunta entre o governo brasileiro, a secretaria da ONU e a UNESCO para combate à desinformação climática.
“Lançaremos o capítulo brasileiro da iniciativa global de integridade da informação sobre mudanças climáticas. Queremos ter no Brasil uma rede de pesquisadores, organizações e centros mobilizados em torno desse tema”, explicou Nina Santos, chefe do escritório de Consultoria Especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República do Brasil e Subsecretária da Secretaria de Políticas Digitais.
A União Europeia manifestou apoio ao movimento e afirmou que trabalha nos processos para compromissos oficiais e contribuições financeiras. O Reino Unido também reforçou seu compromisso, reafirmando seu papel como membro fundador da coalizão.
“A UE foi abordada, assim como outros países, pelas autoridades brasileiras para aderir a esta iniciativa global e estamos claramente muito alinhados com os objetivos para combater a desinformação sobre as mudanças climáticas e aumentar a conscientização e a ação sobre o clima”, disse Maria Buzdogan, conselheira de economia, indústria e transformação digital na Delegação da União Europeia no Brasil.
Entre os temas discutidos, alguns pontos se destacaram pela unanimidade entre os participantes. A integridade da informação foi vista como uma condição essencial para uma ação climática eficaz.

Outro ponto fundamental do encontro foi o papel dos legisladores. Com o aumento da influência das grandes plataformas digitais, os especialistas destacaram a importância de políticas públicas que garantam a transparência das empresas de mídia e tecnologia, além de responsabilizar os atores que disseminam desinformação com o objetivo de proteger interesses próprios, como ocorre, por exemplo, com o lobby da indústria de combustíveis fósseis.
“Aqueles que lucram com falsidades são os mais interessados em espalhá-las. Hoje, qualquer pessoa é um jornal e seu próprio editor. Influenciadores pagos, coordenados para maximizar o engajamento, atuam como uma forma de publicidade altamente eficaz – e isso é uma preocupação séria”, reforçou Paulo Sergio Domingues.
A COP30 foi apontada como uma oportunidade única para que a comunidade internacional se posicione firmemente contra a desinformação climática. Os palestrantes enfatizaram o pedido para que os acordos finais da cúpula reconheçam, explicitamente, a ameaça à integridade da informação representada pelos interesses corporativos, incluindo setores intensivos em carbono, e que fosse claramente definido o papel e as responsabilidades de ambas as Partes e dos atores do ecossistema informativo.

As falas de representantes indígenas também ocuparam espaço importante no evento. Eliesio Marubo, ativista da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, relatou os desafios enfrentados por defensores do meio ambiente e povos indígenas, que, além de lidarem com a violência física, são alvo constante de ataques digitais e ameaças. “A desinformação é um dos maiores inimigos daqueles que, como nós, lutam pela preservação ambiental”, afirmou.
“Eu venho de uma região onde o crime organizado prevalece, onde as autoridades são negligentes – o mundo político está profundamente conectado com o crime organizado. Isso levou a uma negação deliberada em 2022 da importância da Amazônia e das questões ambientais, que estávamos discutindo globalmente”, conclui Eliesio.

Dentre os principais resultados, consensos e caminhos apresentados entre os palestrantes do Summit, estão:
Uma coalizão global de mais de 70 organizações líderes em clima e anti desinformação que exigem estratégias robustas, coordenadas e proativas para lidar com a escala da ameaça da desinformação e desinformação climática.
A FALA é um estúdio de impacto brasileiro premiado, dedicado à mudança social por meio de narrativa e comunicação estratégica. Tem como projeto original, Lies Have a Price, que expõe os custos da cadeia de desinformação climática, promovendo a integridade da informação, alfabetização midiática, engajamento climático e produção de conhecimento.
O que é a CAN?
A CAN (Conscious Advertising Network) é uma organização global sem fins lucrativos que une marcas, agências e a sociedade civil para remodelar a publicidade. Eles defendem práticas éticas, transparência e inclusão, com o objetivo de criar uma indústria sustentável que beneficie a todos, enfrentando questões como desperdício da indústria e direitos humanos.
Com informações de ClimaInfo