Bairro desenhado para uma vida sem carro faz sucesso nos EUA
Empreendimento projetado para 1000 pessoas oferece bicicletas, comércio local, passarelas e conexão real com a vizinhança e a natureza
Empreendimento projetado para 1000 pessoas oferece bicicletas, comércio local, passarelas e conexão real com a vizinhança e a natureza
Em um país, como os Estados Unidos, em que carros e caminhonetes são símbolos de status e fazem parte da cultura nacional, propor um bairro projetado justamente para deixar automóveis de fora é uma proposta ousada. Quem vive lá não tem sequer uma garagem. Mas, mesmo nos EUA, essa ideia está dando certo. A prova é a comunidade que escolheu Culdesac Tempe como casa. O bairro sem carro planejado no Arizona nasceu com o objetivo deve priorizar a caminhada, a bicicleta e o transporte público – além de conexões sociais mais fortes e com mais verde.
Lançado em 2021, o local tem a proposta de apresentar uma nova maneira de viver em comunidade, fortalecendo as conexões entre a vizinhança, mudando a maneira como as pessoas se deslocam e trazendo de volta a ideia de uma vida mais tranquila e sustentável.
O bairro planejado tem como limitante o fator econômico, com uma construção de alto padrão e preços altos para a locação das mais de 20 plantas disponíveis, que variam de estúdios a apartamentos de 3 quartos, com valores de US$ 1,3 mil a US$ 2,7 mil mensais. Mas, quem faz esse investimento, garante que vale a pena.

A construção do empreendimento custou cerca de US$ 200 milhões e o resultado são 17 acres onde as pessoas são prioridade. Projetado para ser a casa de mil pessoas, com 700 unidades habitacionais, o Culdesac Tempe tem hoje cerca de 300 moradores.
As pessoas que se mudaram para o bairro foram atraídas por uma série de benefícios, como e-bikes gratuitas, passes de transporte público e fácil acesso a comodidades, eliminando a necessidade de carros particulares. “Fiquei impressionada quando recebiesse acesso à bicicletas e ao transporte”, conta Sheryl Murdock, pesquisadora oceânica de pós-doutorado na Arizona State University que se mudou do Canadá para ficar mais perto do trabalho.

Nas ruas, as vagas de estacionamento, faixas de automóveis e a movimentação acelerada de carros perderam espaço para ciclovias, mais de mil vagas para bicicletas, caminhos para pedestres, áreas de convívio social e espaços sombreados por árvores. Os espaços públicos incluem pátios, assentos comunitários, murais e uma rede Wi-Fi de alta velocidade em todo o bairro.
O projeto do arquiteto Daniel Parolek, da Opticos Design, levou em conta o conforto térmico, já que o Arizona fica em uma região semiárida, com clima quente e seco na maior parte do ano. “Eliminar os espaços ocupados por carros abriu a oportunidade de focar na criação de espaços voltados para as pessoas”, explica Daniel.

Como consequência desta mudança de prioridades, o bairro se transformou no que eram as antigas vizinhanças, com pessoas que se encontram e criam vínculos mais fortes entre si, se sentindo convidadas à vida fora de suas próprias casas. “As passarelas serpenteiam entre prédios brancos brilhantes, limitando a exposição ao sol e ao mesmo tempo fazendo com que todo o espaço pareça acolhedor”, observa Murdock.

Como tudo que envolve quebra de paradigmas, a construção de um lugar que muda um modo de vida fortemente estabelecido nos EUA não foi fácil no início. Com a preocupação de trazer para o Culdesac Tempe apenas negócios alinhados com a proposta de um bairro mais sustentável, muitas facilidades, como lojas, academias e restaurantes não estavam disponíveis desde o início. “Não começou a funcionar imediatamente, mas agora tem muita coisa”, disse Murdock.
Essa dificuldade inicial foi significativa, já que a proposta era que as pessoas pudessem ter acesso a tudo o que precisam sem percorrer grandes distâncias ou usar carros individuais – um conceito similar ao das cidades de 15 minutos.

Hoje, o bairro oferece academia, parques, espaços de coworking e uma grande variedade de comércio local. Para a gestão destes empreendimentos, foram priorizados moradores e líderes comunitários.
E, caso alguém precise de um carro ocasionalmente, é possível alugar um automóvel no local, por US$ 5/hora – priorizando o transporte compartilhado ao invés do carro individual.

Os americanos, acostumados cm a vida sobre rodas, estão gostando da mudança. Ignacio Delgadillo se mudou para o bairro com sua esposa e seu filho de quatro anos, que agora pode andar de bicicleta livremente, sem os perigos do tráfego de veículos. “Provavelmente fizemos mais conexões aqui em seis meses do que fizemos em 15 anos em outros lugares”, garante.
Apesar do entusiasmo de quem já experimentou esse novo estilo de vida, a mudanças do “estilo de vida americano” parece distante. Uma pesquisa da Pew Research descobriu que a maioria dos americanos ainda prefere casas maiores, mais distantes de comodidades, ao invés da rotina em lugares com casas menores e bairros caminháveis.

O bairro projetado no Arizona foi uma iniciativa privada limitada à pessoas com um poder aquisitivo privilegiado. Mas, a ideia de uma vida menos dependente do carro é possível com políticas públicas que tornariam essa realidade acessível para um número cada vez maior de pessoas.
Priorizar áreas verdes, transporte público, vias ara pedestres e bicicletas e um planejamento urbano que evite grandes deslocamentos é possível e existem boas referências e especialistas que podem ajudar o poder público a repensar nossas cidades e garantir uma qualidade de vida melhor para a população.
Como cidadãos, podemos votar em quem tem entre as suas propostas um modo de vida mais sustentável nos centros urbanos e repensar nossas escolhas diárias, como deixar o carro na garagem sempre que possível. Fortalecer os laços com a vizinhança, organizando um grupo de caronas, também é uma alternativa para melhorar a vida nas cidades.