Regeneração virou profissão, mas diplomas ainda não chegaram
Vivi Noda fala sobre o mercado, a necessidade de certificações reconhecidas e os verdadeiros profissionais em regeneração
Vivi Noda fala sobre o mercado, a necessidade de certificações reconhecidas e os verdadeiros profissionais em regeneração
Esses dias abri uma caixinha de perguntas no Instagram. Minha intenção era simples: pedir sugestões de cursos bons sobre agroecologia. Mas o que recebi de volta me surpreendeu. Foram dezenas de respostas — não com indicações, mas com mais perguntas.
“Você encontrou algum bom?”
“Pode me mandar essa lista depois?”
“Também tô procurando!”
“Tem algo que tenha reconhecimento no mercado?”
Ali percebi que não era só uma busca minha. Tem muita gente querendo aprender sobre regeneração, agroecologia, sistemas alimentares, clima, restauração florestal… e não está conseguindo encontrar formações reconhecidas pelo mercado.
Estamos em 2025, ano de COP no Brasil, ano de movimentações econômicas que valorizam o cuidado com a floresta. Regenerar já deveria ser a base da educação, mas parece que ainda estamos tentando plantar essas sementes.
Quando eu escolhi trabalhar com regeneração, não existiam cursos formais sobre isso. Não existia pós-graduação em agrofloresta, muito menos MBA em soluções baseadas na natureza. O que existia era estrada. E eu fui.
Cruzei o Brasil de ponta a ponta, morei em um carro por meses, participei de mutirões, plantei em comunidades agroecológicas, coordenei oficinas, dei consultoria para projetos de impacto e fui aprendendo com cada conversa, cada troca, cada território.
Aprendi regeneração na prática. E foi maravilhoso.
Mas também foi cansativo, instável e muitas vezes invisível. Hoje, vejo uma geração nova chegando com sede de aprender — e não deveria ser preciso passar pelos mesmos perrengues que eu passei.

Nada substitui a vivência. Mas estudar com professores que guiam nossos interesses, que oferecem teoria com profundidade e abrem caminhos práticos, é um luxo para quem realmente quer atuar com consistência. É como se o caminho da regeneração estivesse finalmente ganhando trilhas mais acessíveis. Mas aí vem o grande gargalo.
O gargalo: e se eu quiser atuar com regeneração… no mercado formal? O cenário de hoje ainda é paradoxal.
A regeneração virou tendência. Mas… como comprovar que você sabe do que está falando?
Se eu decido trabalhar com empresas, governos ou grandes organizações, como mostro que tenho formação? Como valido uma trajetória construída por fora das instituições tradicionais?
Eu adoraria que a minha experiência prática, meus projetos, mentorias, consultorias, prêmios e artigos fossem reconhecidos como um currículo relevante por si só.

O mercado continua pedindo certificações, diplomas, selos reconhecidos pelo MEC. E quando olhamos para cursos na área de regeneração — agroecologia, restauração florestal, bioeconomia, sistemas alimentares regenerativos, soluções baseadas na natureza — simplesmente quase não existem opções com esse tipo de chancela institucional.
Ou seja: tem demanda, tem gente querendo aprender, tem gente com prática… mas ainda falta a estrutura para validar esse conhecimento dentro do sistema.
Depois de muito procurar, encontrei uma formação que me fez parar, respirar e pensar: “ok, isso aqui tem conteúdo, tem profundidade e me desafia a pensar diferente.”
Comecei o MBA “Soluções Baseadas na Natureza: Mercado e Projetos de Carbono”, promovido pela Universidade do Carbono, que me pareceu um bom caminho do meio.

Me deu uma sensação boa de que os mundos estão começando a se encontrar. Só lembrando que aqui estou falando de Brasil, ta?
O começo do curso tem abordado os créditos de carbono, e confesso que eu mesma já fui muito crítica a esse mercado. Ah, ainda sou um pouco. Tenho certa desconfiança, acredito que é só uma forma das empresas compensarem sem transformar sua cadeia produtiva. E sim, ainda tem muita coisa mal-feita por aí.
Mas o curso tem me ajudado a refinar esse olhar. Que diga-se de passagem, eu me considero bem cética a “soluções” até que me provem o contrário.
Mas na verdade, há uma porta de entrada aqui que está valendo abrir com cautela, essa é a maravilhosa transformação por estudar. Aprendi que nem todo crédito é igual. Existe uma diferença enorme entre projetos que apenas “compensam” emissões no papel, e aqueles que realmente geram impacto positivo no território — restaurando ecossistemas, incluindo comunidades, cuidando da água, da biodiversidade e da cultura local.
A qualidade de um crédito depende de muitos fatores:

Há, inclusive, ferramentas de avaliação (ratings) que tentam mensurar a qualidade dos créditos, não só com base no carbono, mas também considerando critérios mais amplos como impacto social, governança, rastreabilidade.
E isso me fez entender que o crédito de carbono pode ser um primeiro passo. Um ponto de partida, enquanto a cadeia produtiva e os modelos econômicos vão sendo redesenhados. É um espaço de transição, onde ainda cabe crítica, mas também participação qualificada de quem quer fazer diferente.
Não estou aprendendo fórmulas prontas. Estou aprendendo a fazer perguntas melhores.
As Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são estratégias para lidar com problemas sociais, ambientais e econômicos por meio da própria natureza.
Exemplos de SbN:

Segundo a IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), SbN são “ações que protegem, restauram e gerenciam de forma sustentável ecossistemas naturais ou modificados, que simultaneamente proporcionam benefícios à biodiversidade e ao bem-estar humano”.
Me parece bom.
Essa abordagem vem ganhando espaço em políticas públicas, finanças verdes e projetos corporativos. Mas o crescimento da demanda por SbN não está sendo acompanhado por uma formação qualificada de profissionais capazes de implementá-las.
Alguns dados:
Esse cenário aponta que não é só sobre vocação. É sobre profissão.
