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Projeto em Fortaleza criou um amplo calçadão e ciclovia. | Foto: Prefeitura de Fortaleza

Em São Paulo, que, entre as grandes metrópoles analisadas pela ferramenta suíça IQAir, teve um dos piores índices de qualidade do ar do mundo por vários dias consecutivos, segundo o site suíço IQAir, os veículos respondem por 72,6% das emissões de gases de efeito estufa, embora transportem apenas 30% dos passageiros, de acordo com levantamento de 2017 do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

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Os carros, além de ineficientes por poluir o ar e gastar muito combustível, moldaram a infraestrutura das cidades, sequestrando os espaços, os investimentos, retificando e canalizando rios e impermeabilizando solos. É urgente tirar os espaços dos carros e devolvê-los para as pessoas, para construirmos cidades mais frescas, verdes e com menos poluição do ar, principalmente considerando que 39% dos deslocamentos nas cidades brasileiras são realizados exclusivamente a pé, segundo dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) de 2018. O Project Drawdown calcula que se 5% das viagens de carros fossem feitas a pé, 2,9 gigatoneladas de CO2 deixariam de ser emitidas até 2050. Para criar cidades mais convidativas, habitáveis e menos dependentes de veículos motorizados, precisamos torná-las mais caminháveis.

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Foto: Prefeitura de Caruaru

No Brasil, segundo o relatório inédito Prêmio Cidade Caminhável: Panorama dos Projetos de Caminhabilidade no Brasil de 2012 a 2022, alguns projetos nas cidades já estão priorizando pessoas ao invés de veículos. Após a criação da Política Nacional de Mobilidade Urbana, levaram-se cinco anos para que as cidades começassem a realizar projetos focados em caminhabilidade. Desde 2018, esses projetos aumentaram significativamente e continuam a crescer.

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Priorizando pedestres

Analisando 57 projetos inscritos no Prêmio nas edições de 2021 e 2023, verificou-se que as gestões compreenderam que, para priorizar o caminhar no espaço urbano, é essencial reduzir a área destinada aos veículos motorizados. Isso ficou evidente pois, em mais de 50% dos projetos, foi realizada a redistribuição do espaço viário, seguida por medidas de acalmamento de tráfego e acessibilização de rotas. Isso destaca que, para construir cidades mais caminháveis, é necessário fazer mais do que manutenção de calçadas.

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Nesse sentido, merece destaque o projeto de Requalificação da Avenida Desembargador Moreira em Fortaleza (CE), que realocou duas pistas de tráfego viário para criar um amplo calçadão e ciclovia.

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Projeto em Fortaleza criou um amplo calçadão e ciclovia. | Foto: Prefeitura de Fortaleza

Nos projetos de caminhabilidade, a ação predominante tem sido a requalificação urbana, o que é positivo porque traz mais mudanças concretas e de longo prazo no cotidiano das pessoas. Os parques urbanos têm sido destaque, principalmente os Parques Lineares que, além de serem áreas de esporte e lazer, são importantes eixos de deslocamentos ativos – a pé e de bicicleta – integrando a natureza. Nesse sentido, destaca-se o Via Parque em Caruaru, que transformou 8 km da linha férrea que cruza 16 bairros da cidade pernambucana em um corredor de deslocamentos ativos, além do Parque Linear das Hortas do Dirceu, em Teresina (PI), que consiste na criação de um extenso parque linear e na renovação de 4,5 km de hortas comunitárias, criando caminhos para pedestres, praças de convívio coletivo e áreas de retenção de águas pluviais.

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Parque Linear das Hortas do Dirceu. | Foto: Prefeitura de Teresina

A caminhabilidade também está sendo promovida nas periferias das cidades. Embora 38,6% dos projetos estejam em áreas centrais, 31,6% estão em áreas marginalizadas ou historicamente desassistidas. Essa distribuição desafia a ideia de que projetos de caminhabilidade são exclusivos das áreas centrais e apoia a noção de que a caminhabilidade pode ajudar a diminuir desigualdades, especialmente nas periferias, onde as pessoas caminham mais devido à falta de alternativas.

Um exemplo é o Programa de Infraestrutura em Educação e Saneamento de Fortaleza (Proinfra), vencedor do Prêmio em 2023, que realizou obras de urbanização nas ruas, incluindo a construção de sistemas de drenagem, galerias e bocas de lobo, além da pavimentação com piso intertravado. Esse tipo de pavimento, além de reduzir a velocidade dos veículos, é mais permeável, prevenindo enchentes e diminuindo a retenção de calor, já que o asfalto, além de ser impermeável, retém calor por horas e pode elevar a temperatura em até 5ºC, segundo o Departamento de Ciências Florestais da Esalq da USP.

Desafios

Contudo, ainda há desafios para expandir a caminhabilidade no Brasil. Algumas cidades investem simultaneamente em projetos de mobilidade ativa e em infraestruturas para carros, como asfalto e viadutos, mostrando a falta de mudança de paradigma. Isso também está refletido no fato de não existirem setores específicos de mobilidade a pé nas prefeituras das cidades. Além disso, não há incentivos ou programas federais específicos para a caminhabilidade, o que força as cidades a se autofinanciar ou buscar outras fontes.

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Foto: Prefeitura de Caruaru

Outro obstáculo é diversificar o uso do solo, garantindo proximidade e criando destinos acessíveis a pé, uma vez que mais de 80% das pessoas nas cidades brasileiras estão a mais de 15 minutos a pé de escolas e serviços médicos de acordo com a pesquisa “Cidades de 15 minutos – caminhar nas cidades brasileiras” do Instituto Caminhabilidade e MindMiners.

O relatório Prêmio Cidade Caminhável: Panorama dos Projetos de Caminhabilidade no Brasil de 2012 a 2022 ajuda a mostrar caminhos para desenvolver cidades focadas no caminhar e nas pessoas, e não nos carros, o que é uma decisão urgente para a mitigação e adaptação das cidades, visando à sobrevivência diante da emergência climática que já nos afeta.

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