Celulares expõem crianças a avalanche de informações inúteis
Será que os pequenos estão aprendendo com o celular ou se perdendo em distrações irrelevantes?
Será que os pequenos estão aprendendo com o celular ou se perdendo em distrações irrelevantes?
Muito se discute sobre os impactos negativos do uso de celulares no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. O vício em internet atingiu níveis tão elevados que, em muitos lugares, o uso de celulares passou a ser proibido dentro das escolas. Entre os fatores que justificam essa decisão estão os possíveis riscos à saúde mental associados às mídias sociais e a crescente falta de interação presencial entre os jovens. Agora, um novo elemento se soma a esse debate: a sobrecarga de informação. Essa é a preocupação levantada pelo professor Dorje C. Brody, da University of Surrey, na Inglaterra.
Com uma pesquisa focada na ciência da informação, Brody utiliza a segunda lei da termodinâmica (uma das mais fundamentais da natureza) para explicar como os smartphones estão expondo crianças a uma avalanche de conteúdos irrelevantes e como isso pode ser prejudicial às mesmas.
Essa lei afirma que, com o tempo, a ordem tende a dar lugar à desordem, e a informação útil acaba sendo ofuscada pelo ruído. Para compreender esse conceito dentro do contexto da comunicação, é necessário pensar na evolução dos meios comunicativos ao longo do tempo, como explica abaixo o professor:

“Você não esperaria que um amigo que mora a milhares de quilômetros de distância lhe informasse que seu cachorro tinha acabado de latir para o gato do vizinho se isso significasse que a mensagem teria que fisicamente fazer uma viagem de milhares de quilômetros. A impressão, a comunicação por cabo, a internet e os dispositivos móveis mudaram isso. Com cada inovação que facilita a comunicação, a qualidade da informação transmitida diminui”, afirma. “Hoje grande parte da informação que nos cerca é ruído. Por ruído, quero dizer informações insignificantes e irrelevantes que ninguém precisa saber. Hoje em dia, sabemos não apenas que o gato do vizinho do nosso amigo está brigando com um cachorro, mas também sobre a vida dos gatos e cachorros de inúmeros conhecidos e desconhecidos da internet”, continua o professor.
Para muitos de nós, é fácil lembrar de um tempo em que o acesso à informação era limitado, seja por barreiras tecnológicas ou pelos custos envolvidos. Hoje, vivemos o cenário oposto: estamos imersos em um fluxo contínuo e crescente de conteúdo. Mas diante do reconhecimento desse excesso, surge a dúvida: seria possível escapar dessa sobrecarga?
Segundo o professor Brody, o aumento da contaminação informacional (ou ruído) é uma consequência natural prevista pela segunda lei da termodinâmica. Trata-se de uma tendência inevitável, difícil de ser contornada. Ainda assim, ele ressalta que, com esforço coletivo e atenção consciente, é possível reverter ao menos momentaneamente esse efeito.

Abaixo, o professor Dorje C. Brody detalha como funciona esse processo e qual a saída nesta encruzilhada.
Se informações irrelevantes e insignificantes são “ruído”, podemos, usando a terminologia da teoria da comunicação, chamar informações de interesse de “sinal”.
Imagine uma criança querendo pesquisar informações específicas em um smartphone para um projeto escolar – um dos planetas do sistema solar, talvez. A página da web que ela acessa contém uma enorme quantidade de informações não relacionadas, tais como comentários de leitores, links para outros conteúdos, talvez anúncios ou vídeos. Para obter o conhecimento que procura, ela terá que navegar e acabar absorvendo uma enorme quantidade de informações desnecessárias.

Você pode pensar na proporção de informações relevantes versus irrelevantes ou incorretas como a relação sinal-ruído. Um cálculo mostra que, normalmente, se o nível de ruído dobrar, você terá que consumir cerca de duas vezes a quantidade de informações para obter o mesmo nível de conhecimento relevante. Isso equivale a dobrar seu tempo de tela.
Portanto, se o nível de ruído aumentasse exponencialmente, como é inevitável pela segunda lei, você teria que consumir exponencialmente mais mensagens para obter a mesma quantidade de informações relevantes. Você teria que ficar grudado no seu smartphone 24 horas por dia, 7 dias por semana. Isso é obviamente algo que queremos evitar – para nós e para nossos filhos.

Para piorar a situação, as informações que consumimos afetarão o que consumiremos em seguida, e a sobrecarga de informações pode afetar negativamente esse processo. Quando isso acontece, é muito fácil acabar pulando de um site para outro sem reunir nenhuma informação útil.
Então, existe uma saída? Bem, a resposta, em teoria, é simples. Só precisamos manter o nível de ruído baixo.
Sistemas biológicos em ambientes naturais, isto é, sem intervenção humana, tendem a manter uma comunicação estável sem aumentar muito o nível de ruído. Isso ocorre porque os métodos de comunicação entre animais, tipicamente por meio de sinais sonoros, olfativos ou visuais, ou entre plantas verdes, tipicamente por meio de compostos orgânicos voláteis, praticamente não mudaram em milhares de anos. Somente os humanos são capazes de desenvolver tecnologias que aumentam significativamente a confusão.
Limitar o acesso das crianças a essas tecnologias significa que o ambiente delas se torna muito menos barulhento e mais calmo. O mesmo, claro, se aplica aos adultos. Proibir totalmente o uso de smartphones por crianças é impraticável e possivelmente inútil, mas criar um ambiente em que os pais possam dizer “não” confortavelmente a um smartphone, ou, alternativamente, em que os pais possam ter um diálogo aberto e transparente com seus filhos sobre o uso do smartphone, pode funcionar melhor.