Dormir com luzes acesas aumenta o risco de doenças cardíacas
Estudo associa a exposição à luz artificial durante a noite a maior estresse cerebral, inflamação das artérias e risco de doenças cardíacas
Estudo associa a exposição à luz artificial durante a noite a maior estresse cerebral, inflamação das artérias e risco de doenças cardíacas
A claridade que atravessa a janela vinda de um poste, o ponto alaranjado do carregador ao lado da cama ou o brilho do celular anunciando uma mensagem tarde da noite não fazem parte do ambiente natural — e estudos recentes sugerem que essas luzes artificiais podem afetar o cérebro. Uma pesquisa preliminar apresentada nas Sessões Científicas de 2025 da Associação Americana do Coração apontou que níveis elevados de iluminação noturna estão associados ao aumento da atividade cerebral ligada ao estresse, à inflamação das artérias e ao risco maior de desenvolver doenças cardíacas. O estudo é o primeiro a combinar exames cerebrais com imagens de satélite para investigar uma possível via biológica que conecte a exposição contínua à luz noturna ao surgimento de problemas no coração.
“Sabemos que fatores ambientais, como a poluição do ar e sonora, podem levar a doenças cardíacas, afetando nossos nervos e vasos sanguíneos por meio do estresse. A poluição luminosa é muito comum; no entanto, não sabíamos muito sobre como ela afeta o coração”, explicou o autor sênior da pesquisa, Shady Abohashem, chefe de ensaios de imagem cardíaca PET/CT no Hospital Geral de Massachusetts e instrutor da Escola de Medicina de Harvard.
Para a investigação, 450 adultos passaram por exames PET/CT idênticos, sem apresentar doenças cardíacas nem câncer ativo. “Este é um exame de imagem de rotina no meu hospital”, disse Abohashem. “A tomografia computadorizada fornece detalhes da anatomia, enquanto a tomografia por emissão de pósitrons (PET) revela a atividade metabólica nos tecidos. O uso conjunto das duas técnicas de imagem permite a medição da atividade de estresse cerebral e da inflamação arterial em um único exame.” A partir dessa análise, observou-se que indivíduos expostos a mais luz artificial durante a noite apresentavam níveis mais elevados de atividade cerebral relacionada ao estresse, inflamação dos vasos sanguíneos e maior risco de eventos cardíacos graves. As informações vieram de prontuários médicos e foram revisadas por dois cardiologistas que não tinham acesso aos dados clínicos dos participantes.

A associação encontrada foi consistente: cada aumento de um desvio padrão na exposição foi ligado a uma elevação de cerca de 35% no risco em cinco anos e de 22% em dez anos. Esses resultados se mantiveram mesmo após ajustes para fatores de risco tradicionais e outras condições ambientais, como ruído e renda. O risco foi ainda maior entre pessoas que viviam em regiões marcadas por maior estresse social ou ambiental, como áreas de baixa renda ou sujeitas a tráfego intenso. Ao longo de dez anos, 17% dos participantes sofreram eventos cardíacos graves. “Quando o cérebro percebe o estresse, ele ativa sinais que podem desencadear uma resposta imunológica e inflamar os vasos sanguíneos. Com o tempo, esse processo pode contribuir para o endurecimento das artérias e aumentar o risco de ataque cardíaco e derrame.”
Para mitigar os impactos da poluição luminosa, o pesquisador sugeriu que cidades reduzam a iluminação externa excessiva, instalem proteções em postes ou optem por luzes com sensor de movimento. Dentro de casa, a orientação é simples: as pessoas podem limitar a luz dentro de casa à noite, mantendo os quartos escuros e evitando telas como TVs e dispositivos eletrônicos pessoais antes de dormir. “Essas descobertas são inéditas e reforçam as evidências que sugerem que reduzir a exposição excessiva à luz artificial à noite é uma questão de saúde pública”, destacou Julio Fernandez-Mendoza, diretor de medicina comportamental do sono da Universidade Estadual da Pensilvânia.