Uma expedição gastronômica com foco em sustentabilidade e sociobiodiversidade colocou a juçara — espécie nativa da Mata Atlântica — no centro do debate sobre conservação ambiental e geração de renda. A iniciativa aconteceu no Banana Bamboo Ecolodge, em Ubatuba (SP), durante visita liderada pela chef Janaína Torres e pela chef Fatmata Binta, dentro do projeto À Brasileira, voltado à valorização da identidade alimentar brasileira.
A programação incluiu a apresentação de um sistema agroflorestal que integra produção de alimentos e recuperação da floresta. No local, a juçara é cultivada como espécie-chave para recomposição ambiental, ao mesmo tempo em que seu fruto — conhecido como o “açaí da Mata Atlântica” — cria oportunidades econômicas sustentáveis sem a necessidade de derrubada da palmeira.
Diferentemente da extração tradicional do palmito, que leva à morte da planta, o uso do fruto da juçara permite manter a árvore em pé e contribui para a regeneração da Mata Atlântica. A espécie também desempenha papel ecológico importante, servindo de alimento para aves e outros animais e ajudando na dispersão de sementes.
Durante a visita, foram apresentadas as etapas de manejo agroflorestal, colheita e processamento do fruto, demonstrando como a produção pode ocorrer em equilíbrio com o ecossistema. O modelo reforça a agrofloresta como alternativa à monocultura e como estratégia para recuperar áreas degradadas, aumentar a biodiversidade e fortalecer cadeias produtivas locais.
A expedição também destacou a conexão entre alimentação e conservação ambiental. Ingredientes nativos cultivados no sistema agroflorestal foram utilizados em um jantar que valorizou produtos da Mata Atlântica e práticas agrícolas regenerativas, evidenciando o papel da gastronomia na promoção de sistemas alimentares mais sustentáveis.
Além da dimensão ambiental, a iniciativa reforça a importância da sociobiodiversidade e do conhecimento tradicional associado ao território. A visita incluiu passagem pelo Quilombo da Fazenda, onde foram apresentados aspectos da cultura alimentar local e sua relação histórica com a floresta.
A experiência evidencia uma tendência crescente: chefs, pesquisadores e produtores atuando juntos para fortalecer cadeias sustentáveis e incentivar o consumo de ingredientes nativos. Nesse contexto, a juçara surge como símbolo de uma economia que alia conservação, cultura alimentar e desenvolvimento local na Mata Atlântica.
Selo Pró-Juçara
A Fundação Florestal lançou o Selo Pró-Juçara, uma iniciativa que reconhece produtores, organizações e estabelecimentos que adotam, em seus produtos, práticas sustentáveis relacionadas à palmeira-juçara (Euterpe edulis). A iniciativa está relacionada ao Programa de Conservação da Palmeira-Juçara (Pró-Juçara), criado em 2021 com o objetivo de proteger a palmeira, espécie ameaçada de extinção da Mata Atlântica.
O Selo tem o objetivo de promover maior valor agregado aos produtos ligados ao modelo de produção sustentável que mantém a conservação da espécie. Na prática, é um selo de alta qualidade concedido a produtos e estabelecimentos como reconhecimento para quem atua na cadeia produtiva sustentável da juçara, envolvendo desde os ciclos de coleta de frutos e a produção de polpa até o processamento e a comercialização de produtos derivados.
Alimento para a vida
Os frutos da palmeira-juçara, além de alimentarem mais de 70 espécies diferentes da fauna da Mata Atlântica durante períodos de escassez na floresta, têm grande potencial culinário e nutricional para os seres humanos, podendo ser consumidos puros e combinados com outras frutas ou utilizados em diferentes preparos culinários, como sucos, bolos, sorvetes, pães e geleias, entre outros.
“Trata-se de um projeto muito importante, já que ele gera visibilidade aos produtos, além de fortalecer mercados sustentáveis e incentivar práticas que contribuam para a conservação da espécie e da sociobiodiversidade da Mata Atlântica”, explica Victoria Karvelis, diretora de Bioeconomia da Fundação Florestal.
Como solicitar o selo?
Para quem pretende obter o reconhecimento, o edital da Fundação Florestal possui duas modalidades de selos. A modalidade Produtor (“Este produto apoia a juçara e quem a protege!”) é destinada a pessoas físicas ou jurídicas que pratiquem o manejo sustentável e a produção direta dos frutos da juçara. Já a modalidade Apoiador ou Comercializador (“Aqui tem produtos de juçara!”) é voltada a pessoas físicas ou jurídicas que comercializem produtos oriundos do manejo sustentável dos frutos da juçara.
As inscrições estão abertas para todas as pessoas que queiram participar. Os candidatos devem comprovar a realização do manejo adequado da juçara e o cumprimento da legislação ambiental.
Entre os critérios avaliados está, por exemplo, a coleta sustentável dos frutos, que prevê a manutenção de parte deles nas palmeiras para alimentar a fauna. Também é importante que não haja plantios de açaí amazônico próximos às áreas de coleta, a fim de evitar a hibridização (cruzamento) com a palmeira-juçara.
Ao todo, aproximadamente 300 famílias estão capacitadas para conquistar o selo, já que fazem parte do projeto socioambiental da palmeira-juçara na região.
Inscrições
As inscrições devem ser feitas por e-mail junto à Fundação Florestal, pelo endereço projucara@fflorestal.sp.gov.br. A documentação exigida está disponível no edital, neste link aqui.
As solicitações podem ser feitas em qualquer dia e serão analisadas pela equipe técnica do Pró-Juçara. Após receber o selo, ele terá validade de até dois anos e poderá ser utilizado em embalagens e materiais de divulgação dos produtos certificados.
Pagamento por Serviços Ambientais
O selo faz parte da política de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) da palmeira-juçara (PSA Juçara), desenvolvida pela Fundação Florestal. O programa remunera famílias pelo plantio, manejo e proteção da palmeira-juçara. A iniciativa incentiva a conservação da floresta em pé, a restauração ambiental e a geração de renda sustentável nos territórios onde estão localizadas Unidades de Conservação e suas zonas de amortecimento.
O PSA Juçara faz parte do conjunto de 61 iniciativas de Pagamento por Serviços Ambientais em execução pelo Governo de SP, que beneficiam mais de 1,4 mil famílias, contribuem para a preservação de cerca de 31 mil hectares de áreas naturais e consolidam o estado como referência nacional nesse modelo de conservação que alia proteção da biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
Qualificação
A iniciativa do Selo Pró Juçara faz parte da nova estrutura de Bioeconomia da Fundação Florestal. Trata-se de setores dedicados a Cadeias Produtivas Sustentáveis e Inteligência de Mercado que buscam fortalecer a sociobiodiversidade por meio da organização da base produtiva, governança e ampliação do acesso a mercados qualificados.
Ao incentivar sistemas agroflorestais e práticas regenerativas, a fundação garante a sustentabilidade do manejo e a segurança produtiva, enquanto a implementação de mecanismos de inovação, rastreabilidade e identidade territorial agrega valor simbólico e assegura a origem dos produtos. Tudo isso para transformar certificações como a da Juçara em ferramentas estratégicas de conservação ambiental e competitividade econômica.

