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Foto: Feliphe Schiarolli | Unsplash
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Uma nova pesquisa sobre as complexas cadeias de suprimentos globais da indústria da moda mostra que uma série de grandes marcas podem estar contribuindo para o desmatamento na floresta amazônica, com base em suas conexões com curtumes e outras empresas envolvidas na produção de couro e artigos de couro.

O relatório, divulgado segunda-feira, analisou quase 500 mil linhas de dados alfandegários e descobriu que marcas como Coach, LVMH, Prada, H&M, Zara, Adidas, Nike, New Balance, Teva, UGG e Fendi têm múltiplas conexões com uma indústria que sustenta o desmatamento na Amazônia: a pecuária.

O estudo foi conduzido pela Stand.earth, uma empresa de pesquisa da cadeia de suprimentos. As descobertas são surpreendentes, em parte porque várias das marcas pesquisadas anunciaram recentemente políticas para se desvencilhar dos atores ao longo da cadeia de abastecimento que contribuem para o desmatamento.

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Mais de 50 marcas têm vários elos da cadeia de suprimentos com o maior exportador de couro brasileiro, a JBS, conhecida por se envolver no desmatamento na Amazônia . A JBS recentemente assumiu o compromisso de atingir o desmatamento zero em sua cadeia de fornecimento global até 2035, o que foi considerado insuficiente por grupos ambientais.

Os pesquisadores esperam um dia expandir para outras indústrias que dependem fortemente do couro, como o setor automotivo.

“Com um terço das empresas pesquisadas tendo algum tipo de política em vigor, seria de se esperar que houvesse algum impacto sobre o desmatamento”, disse Greg Higgs, um dos pesquisadores envolvidos no relatório. “A taxa de desmatamento está aumentando, então as políticas não têm efeito material.”

Desmatamento no Brasil

Apesar da pressão internacional, o desmatamento no Brasil continua batendo recordes ano após ano. A taxa atual de desmatamento na Amazônia é a maior desde 2006.

A pesquisa mostrou que a indústria pecuária é o maior impulsionador do desmatamento da floresta amazônica e a indústria da moda é uma peça importante na máquina de exportação de couro.

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Foto: Robbie Noble | Unsplash

Na verdade, as projeções mostram que, para continuar fornecendo aos consumidores carteiras, bolsas e sapatos, a indústria da moda deve abater 430 milhões de vacas por ano até 2025.

A análise não prova uma ligação direta entre cada marca de moda e o desmatamento na Amazônia, mas aponta conexões que aumentam a probabilidade das peças terem origem na pecuária da região, que é apontada como principal responsável pelo desmatamento na área.

Controle insuficiente

O relatório identificou que muitas marcas marcas de moda participam do Leather Working Group ou assumiram outros outros compromissos voluntários. Infelizmente estes acordos usam a avaliação de couro a partir dos matadouros, excluindo as fazendas relacionadas ao desmatamento.  

Das 84 empresas analisadas pelo relatório, 23 tinham políticas explícitas de combate ao desmatamento. Os pesquisadores acreditam que essas 23 empresas estão “provavelmente” violando suas próprias políticas, com base em suas descobertas. A grife LVMH, por exemplo, foi apontada como de alto risco de conexão com o desmatamento da Amazônia – apesar de ter assumido o compromisso público de proteger a região.

“Neste momento de emergência climática, se a indústria da moda quer ser relevante, esta é a oportunidade.”

Angeline Robertson, pesquisadora que trabalhou no estudo
proteção ambiental lei
Foto: Bruno Kelly | Amazônia Real

Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Aliança dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), disse que as marcas têm “a responsabilidade moral, a influência e os recursos econômicos” de parar de trabalhar com fornecedores que contribuem para o desmatamento na Amazônia hoje, “não daqui a 10 anos, não em 2025”.

O efeito dos recentes incêndios florestais na Amazônia teve consequências devastadoras para os grupos indígenas, que acusam o governo do presidente Jair Bolsonaro de remover os povos indígenas à força para abrir caminho para a agricultura, mineração e outras atividades ecônomicas.

Com um número crescente de alternativas ao couro sendo desenvolvidas, é possível um futuro em bolsas ou calçados não sejam produzidos à custa da floresta amazônica.

“No final do dia, temos que encontrar outras soluções e outros couros alternativos que não sejam de origem animal e que não sejam de origem plástica. Com os recursos que as empresas de moda têm, realmente não há desculpa.”

Céline Semaan, presidente-executiva e cofundadora da Slow Factory
couro
Estudantes brasileiros criaram couro feito com kombucha.
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