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Em um ano, desmatamento cai 30,6% Amazônia e 25,7% no Cerrado

Dados oficiais do PRODES-INPE apontam queda no desmatamento, mas situação no Cerrado ainda é crítica e incêndios seguem ameaçando nossos biomas

Desmatamento Amazônia
Com mais de 10 mil focos somente em julho de 2024, o país tem recorde de fogo para o período em quase 20 anos na Amazônia. | Foto: © Marizilda Cruppe / Greenpeace

A taxa anual de desmatamento da Amazônia Legal para o ano 2024 foi de 6.288 km², uma queda de 30,6% em comparação ao período anterior. Já no Cerrado, houve também uma redução significativa, de 25,7%, mas o desmatamento se mantém em patamares preocupantes no bioma, com uma taxa de 8.174 km².

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Os dados são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), sistema responsável por medir as taxas oficiais de desmatamento. Os números se referem ao período entre agosto de 2023 e julho de 2024 e foram divulgados nesta quarta-feira, 6 de novembro, em um evento realizado em Brasília pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática (MMA), no qual também foi assinado o Pacto pelo Cerrado.

Na Amazônia, depois de aumentos sucessivos entre 2018 e 2021, as taxas de desmatamento vêm caindo desde 2022. Essa tendência de queda, caso se torne perene, poderá contribuir para uma melhora da imagem do Brasil em um mercado internacional cada vez mais exigente em relação à produção sustentável.

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Programação Dia da Amazônia
“A Amazônia está vivenciando um momento crítico e delicado. Nossas escolhas podem levá-la à devastação, portanto precisamos repensar tudo o que tem sido feito com o planeta. Para a Amazônia, não há mais o amanhã, o futuro é agora”, Valcléia Solidade, da Fundação Amazônia Sustentável. Foto: Michael Dantas

“Uma queda significativa no desmatamento da Amazônia pelo terceiro ano consecutivo é sem dúvida uma boa notícia, porém não é suficiente diante do tamanho dos desafios climáticos e de preservação da biodiversidade que enfrentamos”, comentou Mariana Napolitano, diretora de estratégia do WWF-Brasil.

Segundo ela, é preciso lembrar que 2024 foi um ano de diversas tragédias climáticas no Brasil – e para evitar os piores cenários de eventos extremos no país, como o que aconteceu no Rio Grande do Sul e as queimadas no Pantanal, é preciso garantir que a queda no desmatamento seja mantida e acelerada nos próximos anos.

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“A melhor ciência disponível já alerta que precisamos reflorestar parte do que foi destruído nas últimas décadas, especialmente no caso da Amazônia que caminha para o ponto de não retorno, perdendo sua capacidade de regeneração”, disse Napolitano.

Políticas anti-desmatamento

Essa redução recente do desmatamento está relacionada aos esforços de controle na destruição de florestas realizados a partir de 2023, com o lançamento de iniciativas como a criação de uma secretaria federal específica para o controle de desmatamento e a retomada do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM), ferramenta historicamente eficaz na redução da devastação. Em contraste, na gestão federal do período anterior as taxas anuais de desmatamento estavam acima de 10 mil km² no período entre 2019 e 2022.

A área desmatada entre agosto de 2023 e julho de 2024 na Amazônia foi a mais baixa dos últimos 9 anos no bioma. Rondônia, com queda de 62,5%, Mato Grosso, com queda de 45,1%, Amazonas, com queda de 29% e Pará, com queda de 28,4%, foram alguns dos estados que reduziram o desmatamento no período. Os estados que lideraram a destruição no período foram Pará, Amazonas e Mato Grosso, com 2.362km², 1.143 km² e 1.124 km² de florestas desmatadas, respectivamente. O maior aumento de desmatamento estimado foi no estado de Roraima com 53,5% a mais em relação ao período anterior.

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Queimadas Amazônia 2023
Áreas com alertas de desmatamento e fogo em agosto de 2023. | Foto: © Marizilda Cruppe | Greenpeac

Daniel Silva, especialista em Conservação do WWF-Brasil, alerta para os ataques recentes à Moratória da Soja no bioma. “Ao mesmo tempo em que podemos comemorar três anos consecutivos de queda no desmatamento da Amazônia, devemos temer pela continuidade dessa tendência. Estamos vendo um ataque sem precedentes à Moratória da Soja, que foi um dos mais eficazes instrumentos para redução na velocidade do desmatamento da Amazônia, com reconhecimento internacional”, declarou Silva.

Segundo ele, o sucesso da recente retomada do combate ao desmatamento merece ser reconhecido, mas ainda não garante o futuro sustentável que precisamos. “Estamos vendo o aumento no uso de agrotóxicos para desmatar em grande escala no Pantanal. Estamos vendo o avanço da destruição no Cerrado, onde metade da vegetação natural já foi perdida, colocando em risco áreas críticas para o vigor das nascentes de oito importantes bacias hidrográficas do nosso país, que ficam nesse bioma.”

Cerrado ameaçado

No Cerrado, embora o desmatamento tenha caído pela primeira vez desde 2019, a devastação segue em altos níveis e a situação permanece crítica. Há um ano, o governo federal divulgou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado (PPCerrado), mas a iniciativa ainda está em implementação. As ações para redução do desmatamento no bioma também são limitadas por outros fatores: ao contrário do que ocorre na Amazônia, no Cerrado a devastação se concentra em áreas privadas, a legislação é mais permissiva em relação ao desmatamento.

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Os estados que mais desmataram no Cerrado foram Maranhão (2.487 km²), Tocantins (2.019 km²) e Piauí (1.014 km²). Todos pertencem ao Matopiba, a mais recente fronteira agrícola do país, evidenciando a relação entre o avanço da produção de commodities e a destruição ambiental. Os estados da Bahia e do Maranhão tiveram redução de 63,3% e 15,1%, respectivamente.

desmatamento cerrado
A legislação do Código Florestal Brasileiro permite o desmatamento desenfreado em áreas particulares no Cerrado, protegendo apenas de 20% a 35% da vegetação nativa, em contraste com 80% para a Amazônia
| Foto: Moisés Muálem | WWF-Brasil

“O Cerrado, savana com maior biodiversidade do planeta, corre o risco de sofrer perdas irreparáveis. A fauna e a flora desse bioma, fundamentais para a regulação climática e para a preservação de várias espécies, estão sob constante ameaça”, comentou Daniel Silva.

Segundo ele, o avanço do desmatamento não é apenas um problema ambiental, mas também uma ameaça à segurança hídrica e à qualidade de vida das populações que dependem desses ecossistemas. A devastação também prejudica as atividades produtivas, gerando um custo adicional às mudanças climáticas, com quedas de safras cada vez mais frequentes.

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“Por isso é essencial fortalecer a fiscalização, adotar políticas de incentivo ao uso sustentável da terra e promover o engajamento de todos os atores sociais, especialmente do setor agropecuário, para garantir que o Cerrado continue a ser preservado para as futuras gerações”, afirmou Silva.

Mariana Napolitano destacou a importância de lembrar que a Amazônia e Cerrado são biomas conectados e cruciais para a disponibilidade de água doce no restante do país, da qual dependemos não só para nossa segurança hídrica, mas também para a segurança energética. “É urgente, portanto, que a preservação desses biomas seja finalmente vista de maneira integrada, com políticas articuladas, de impacto nos dois territórios”, disse ela.

Incêndios seguem em alta nos principais biomas brasileiros

Nos dez primeiros meses de 2024, o número de focos de incêndio é maior que o registrado no mesmo período do ano passado na Amazônia (51% de alta), no Cerrado (quase 70%) e no Pantanal (mais de 600%). No mês de outubro, os valores foram maiores que a média dos últimos cinco anos na Amazônia (mais de 11%) e no Pantanal (mais de 35%). No Cerrado, o número ficou 20% abaixo da média.

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queimadas
Ação do Prevfogo na Terra Indígena Tenharim/Marmelos, no Amazonas, realizada em agosto e setembro de 2024. Foto: Mayangdi Inzaulgarat | Ibama

“A devastação causada pelas queimadas não apenas compromete a rica biodiversidade que temos, mas também agrava as mudanças climáticas ao liberar quantidades significativas de gases de efeito estufa na atmosfera”, afirma Alexandre Prado, líder em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.

Segundo ele, a proximidade da COP29 do Clima, em Baku, no Azerbaijão, representa um momento crucial para abordar a crise ambiental que estamos enfrentando.

Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil, afirma ainda que o aumento dos incêndios é um dos resultados da pressão extrema sobre os biomas, produzida pela ação humana. “O alarmante cenário apresentado pelo Relatório Planeta Vivo evidencia a urgência de ações efetivas para reverter a perda de biodiversidade e os impactos das mudanças climáticas. A redução média de 73% nas populações de vida selvagem monitoradas em apenas cinco décadas é um sinal claro de que nossos ecossistemas estão sob pressão extrema, resultado de atividades humanas como queimadas e desmatamento”, afirma Helga.

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Fogo na Amazônia: recorde em 17 anos

Entre 1 de janeiro e 31 de outubro de 2024, foram registrados 120.821 focos de incêndios na Amazônia. O número representa um aumento de 51%, em comparação ao mesmo período em 2023 (79.998 focos) e é o maior valor registrado desde 2007 (mais de 164 mil focos). O valor é 44,9% maior que a média de focos nesse período nos cinco anos anteriores (2019-2023), que é de 83.377 focos.

No mês de outubro, foram registrados 16.169 focos de incêndios na Amazônia, uma redução de 26,7% em comparação aos 22.061 focos registrados no mesmo período em 2023. O valor, porém, é 11,2% maior que a média para o período nos cinco anos anteriores (2019-2023), que é de 14.540.

Cerrado tem pior ano desde 2012, mas queda em outubro

No Cerrado, no acumulado do ano até o dia 31 de outubro, foram registrados 76.655 focos de fogo: um aumento de 69,5% em comparação ao mesmo período do ano passado (45.232 focos). O valor é 38,4% maior que a média do mesmo período nos cinco anos anteriores (2019-2023), que é de 55.369. O valor registrado nos 10 primeiros meses do ano é o maior para o período desde 2012, quando foram detectados mais de 86 mil focos.

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Em outubro, o Cerrado teve 8.024 focos de incêndios, um valor próximo ao registrado no ano passado (8.371), com uma redução de 4,1%. O número em 2024 é 20% menor que a média dos cinco anos anteriores (2019-2023) para esse período, que é de 10.030 focos de incêndios

Pantanal: só 2020 foi pior nos 10 primeiros meses do ano

No Pantanal, do início de 2024 até 31 de outubro, foram detectados 14.292 focos de incêndio. Um número 639% maior que o registrado no mesmo período no ano passado (1.933 focos). O número é 76% maior que a média para o período nos cinco anos anteriores (2019-2023), que foi de 8.116 focos.

O número registrado em 2024 é o segundo maior da série histórica do Programa Queimadas, iniciada em 1998, perdendo apenas para 2020, quando foram registrados mais de 21 mil focos de incêndios. O ano de 2020, porém, foi marcado pelos piores incêndios da história do Pantanal, que chegaram a devastar mais de 30% da área total do bioma.

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No mês de outubro, foram registrados 2.437 focos de incêndio no Pantanal. O valor é 110% maior que o número de focos registrados no mesmo período em 2023 (1.157 focos). O número é 35,3% maior que a média do mesmo período nos cinco anos anteriores (2019-2023), que é de 1.801 focos de incêndios.

brigadista SOS Pantanal fogo
Além de combater focos de incêndio, os brigadistas trabalham o ano inteiro na prevenção e monitoramento de queimadas. Foto: SOS Pantanal