Paris amplia uso do Sena para resfriamento de edifícios
Rede de resfriamento urbano usa a água do Sena para climatizar milhares de prédios, reduz o consumo de energia e pode inspirar outras cidades
Rede de resfriamento urbano usa a água do Sena para climatizar milhares de prédios, reduz o consumo de energia e pode inspirar outras cidades
O resfriamento urbano vem se consolidando como uma das principais estratégias de Paris para enfrentar as altas temperaturas sem depender da expansão do uso de aparelhos de ar-condicionado. Enquanto esses equipamentos retiram o calor do interior dos edifícios e o liberam nas ruas, contribuindo para elevar ainda mais as temperaturas nos dias seguintes, a capital francesa aposta há três décadas em um sistema centralizado que utiliza a água do rio Sena para climatizar prédios. Agora, a cidade pretende triplicar essa infraestrutura. “Tudo que requer energia libera calor, e esse calor precisa ir para algum lugar”, disse Sophie Parison, pesquisadora especializada em aquecimento e resfriamento urbano.
O sistema Fraîcheur de Paris, que pode ser traduzido como “o frescor de Paris”, opera por meio de 120 quilômetros de tubulações subterrâneas. A água fria captada do Sena percorre um cano paralelo a outro que transporta a água quente de retorno dos edifícios conectados. Um trocador de calor transfere a temperatura entre os dois circuitos por meio de uma fina parede metálica, sem que os fluidos se misturem. A água resfriada volta aos edifícios, enquanto a água do Sena retorna ao rio ligeiramente mais quente do que quando foi captada.

O monitoramento realizado até o momento indica que essa elevação de temperatura permanece dentro dos limites ambientais, sem causar danos mensuráveis à ecologia do rio. Atualmente, o Louvre, o Grand Palais, hospitais, escolas e importantes centros comerciais já são abastecidos pela rede, que produz o resfriamento em um ponto central e o distribui por tubulações, de forma semelhante ao fornecimento de água ou eletricidade. Paris pretende triplicar a extensão do sistema até 2042, conectando mais de 3.000 edifícios em todos os distritos da cidade. Hospitais, escolas, creches e lares de idosos estão entre as prioridades da expansão. “A ambição é passar de uma rede histórica focada em grandes edifícios terciários para uma infraestrutura que abranja toda a cidade”, disse Tim Guigon, porta-voz da Fraîcheur de Paris.
O contrato de 20 anos, renovado em 2022 e avaliado em € 2,4 bilhões (aproximadamente US$ 2,6 bilhões), é administrado conjuntamente pela empresa de transportes RATP e pela Engie. A cidade de Paris é a proprietária integral da rede. Os aparelhos de ar-condicionado individuais demandam grande quantidade de energia e, ao expulsarem calor para o ambiente externo, acabam intensificando o aquecimento das áreas urbanas. O resfriamento urbano busca romper esse ciclo. “O consumo de energia deveria ser muito menor do que se o mesmo resfriamento fosse fornecido por sistemas modulares”, disse Charles Simpson, pesquisador sênior em mudanças climáticas do University College London.
Segundo Pauline Lavaud, diretora de transição climática da cidade, a rede “oferece um desempenho energético e ambiental muito superior ao dos sistemas de refrigeração individuais”. A redução na compra de aparelhos de ar-condicionado de janela pelos moradores, à medida que a rede avança, será um dos principais indicadores para avaliar essa estratégia. Embora nem todos os 2,1 milhões de habitantes de Paris possam ser conectados ao sistema, cada unidade individual que deixa de ser instalada reduz a demanda sobre a rede elétrica e evita a liberação de calor nas ruas.
Outras cidades também adotaram soluções semelhantes. Estocolmo utiliza água do Mar Báltico para resfriamento urbano, enquanto Toronto capta água do Lago Ontário. Nenhuma delas reproduziu exatamente o modelo parisiense, mas ambas adaptaram o conceito aos recursos naturais disponíveis. Essa adaptação é considerada essencial. Redes de resfriamento urbano só são viáveis em locais com demanda suficiente para justificar a infraestrutura e com disponibilidade de água em temperatura e vazão adequadas. O rio Tâmisa, por exemplo, não atende a esses requisitos. Além disso, o subsolo de Londres já é ocupado por uma complexa rede de túneis e serviços públicos, o que dificulta a implantação de um sistema semelhante.