Crea-SP traz soluções naturais para cidades mais resilientes
Entidade lança Caderno Técnico Sobre Mudanças Climáticas com “Soluções Baseadas na Natureza”
Entidade lança Caderno Técnico Sobre Mudanças Climáticas com “Soluções Baseadas na Natureza”
Jardins de chuva, telhados verdes, pavimentos permeáveis e recuperação de manguezais estão entre as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN), estratégias que vêm ganhando espaço no planejamento urbano em diferentes países como alternativa para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Essas intervenções utilizam processos ecológicos e os próprios ecossistemas para reduzir riscos ambientais, melhorar a qualidade de vida nas cidades e fortalecer a resiliência urbana.
Além de contribuírem para a conservação da biodiversidade, as SbNs também ajudam no controle de enchentes, na redução das ilhas de calor, na segurança hídrica e na melhoria da drenagem urbana. O tema tem avançado no Brasil impulsionado por iniciativas técnicas, acadêmicas e institucionais voltadas ao desenvolvimento urbano sustentável.
De acordo com a engenheira agrônoma Gisele Herbst Vazquez, diretora técnica e coordenadora do Comitê de Mudanças Climáticas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), as Soluções Baseadas na Natureza exigem planejamento técnico e integração entre diferentes áreas do conhecimento.
“Trata-se de uma abordagem estruturada, que envolve diagnóstico territorial, definição da solução adequada ao contexto, escolha técnica de espécies e mensuração de benefícios pós-implantação”, explica.
Segundo ela, as SbNs representam uma mudança na forma como a infraestrutura urbana é concebida, incorporando elementos naturais como parte essencial do funcionamento das cidades.
As Soluções Baseadas na Natureza são frequentemente apontadas como alternativas ou complementos às chamadas “infraestruturas cinzas”, baseadas predominantemente em concreto e aço. Para o engenheiro civil Hassan Mohamad Barakat, coordenador adjunto do Comitê de Mudanças Climáticas do Crea-SP, essas estratégias combinam eficiência técnica, benefícios ambientais e ganhos sociais.
“Elas podem ser aplicadas isoladamente ou em conjunto com soluções tradicionais, formando sistemas híbridos mais resilientes”, afirma. “Entre os principais ganhos estão, por exemplo, a maior capacidade de adaptação a eventos climáticos extremos, a melhoria da gestão hídrica e a redução de custos de manutenção”, completa.

Entre os principais benefícios das SbNs estão:
Apesar das vantagens, especialistas avaliam que ainda existem desafios para ampliar a implementação dessas soluções no Brasil. Um dos principais obstáculos é a predominância histórica de modelos urbanos baseados em intervenções estruturais rígidas. “Há uma preferência histórica por intervenções como canalização de córregos e concretagem de leitos de rios”, diz o engenheiro sobre o planejamento urbano brasileiro.
O nível de conhecimento sobre as SbNs, fora do campo especializado, ainda é baixo. O Caderno Técnico sobre Mudanças Climáticas, publicação elaborada pelo Comitê de Mudanças Climáticas da Crea-SP, vem justamente para difundir o conhecimento técnico.
O material reúne referências científicas, orientações técnicas e diretrizes para profissionais da Engenharia, Agronomia e Geociências atuarem na implementação de estratégias resilientes e sustentáveis nas cidades.
A iniciativa busca fortalecer a adoção de práticas alinhadas à adaptação climática, à infraestrutura verde e ao planejamento urbano sustentável.

Além das iniciativas ligadas à engenharia e ao setor público, organizações da sociedade civil também têm investido em Soluções Baseadas na Natureza para aumentar a resiliência dos territórios frente aos eventos climáticos extremos.
Um dos exemplos é o Movimento Viva Água, desenvolvido pela Fundação Grupo Boticário desde 2019. O projeto promove ações como restauração florestal, proteção de nascentes, recuperação de áreas degradadas e incentivo à agricultura regenerativa.
Segundo a bióloga Juliana Baladelli, gerente de projetos da Fundação, o objetivo é integrar diferentes setores em torno da conservação de mananciais estratégicos para o abastecimento público, a partir de tecnologias sociais.

Juliana destaca que as principais ações envolvem a proteção e restauração de florestas – fundamentais para manter o ciclo da água, regular o clima e capturar carbono -, e da implantação de sistemas agroflorestais e do incentivo à agricultura regenerativa, que contribuem para melhorar as condições do solo, ampliar a biodiversidade e favorecer a qualidade da água que chega aos rios.
Até o momento, o movimento já mobilizou R$ 27 milhões, beneficiou mais de 180 mil hectares em bacias hidrográficas e apoiou 62 negócios de impacto socioambiental.
No meio acadêmico, universidades brasileiras também vêm ampliando estudos voltados à implementação de Soluções Baseadas na Natureza em contextos urbanos.
Na Universidade de São Paulo (USP), o Grupo de Interação à Pesquisa em Soluções Baseadas na Natureza (GIP-SbN) desenvolve pesquisas focadas na avaliação da eficiência dessas estratégias em cidades brasileiras.
O engenheiro ambiental Andre Luiz Marguti, coordenador do grupo, afirma que os estudos têm contribuído para validar parâmetros técnicos, uma vez que hoje é possível avaliar intervenções em escala real nas cidades brasileiras. Tal situação tem trazido novos desafios “ligados à operação e manutenção dessas soluções ao longo do tempo e, também, ao entendimento dos ganhos múltiplos proporcionados (ambiental, social e econômico)”, reforça o pesquisador.
Segundo Marguti, um dos próximos desafios é consolidar normas técnicas e regulamentações capazes de integrar as SbNs às políticas públicas e aos projetos urbanos.
Especialistas defendem que a incorporação das Soluções Baseadas na Natureza exige uma nova lógica de planejamento urbano, baseada na integração entre cidades e ecossistemas.
Nesse contexto, conhecimentos ligados à arborização urbana, manejo de solos, escolha de espécies adaptadas, fitossanidade e manutenção de áreas verdes passam a desempenhar papel estratégico na estrutura das cidades.
“As SbNs não se limitam ao plantio de árvores, mas exigem gestão ativa por meio de podas técnicas e supressões para garantir a segurança da infraestrutura, a longevidade dos serviços ecossistêmicos e a resiliência das áreas verdes urbanas”, pontua Gisele.

Para Barakat, essa mudança de perspectiva aponta para um modelo de desenvolvimento urbano mais equilibrado.
“Projetar cidades com esse olhar significa promover uma mudança de lógica: sair do controle da natureza e avançar para uma convivência e cooperação com ela”, ressalta. E, para isso, o envolvimento da Engenharia é decisivo para que essas estratégias avancem do campo conceitual para a implementação prática. “Sem Engenharia, não há políticas públicas voltadas às SbNs”, conclui.
Acesse aqui o Caderno Técnico sobre Mudanças Climáticas do Crea-SP