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Butão usa Felicidade Interna Bruta como índice de desenvolvimento

Índice vai além do PIB, limitado a fatores econômicos, e pode ser usado para garantir o desenvolvimento sustentável de um país

Published 23/10/2024
Butão

O FIB, índice de Felicidade Interna Bruta, determina os investimentos do governo do BUtão. Foto: Pema Gyamtsho | Unsplash

Dinheiro traz felicidade? A felicidade das pessoas é parte do desenvolvimento de um país? Para as duas perguntas, a resposta é sim. A situação econômica é um dos fatores que contribui para uma vida feliz, mas não é o único. E, sim, a felicidade de quem vive em determinado território pode ser usada como uma medida para avaliar e indicar caminhos para o desenvolvimento deste lugar – é o FIB, a Felicidade Interna Bruta, um índice usado no Butão que substitui com eficácia o PIB (Produto Interno Bruto), que se limita a mensurar fatores econômicos.

Para falar sobre essas possibilidades, disruptivas e necessárias, Dasho Karma Ura, presidente do Centro de Estudos do Butão, esteve no Brasil para o I Fórum de Turismo e Sustentabilidade em Noronha, promovido pela Aguama Ambiental, empresa que atua com projetos socioambientais neste paraíso natural, desde 2017.

A escolha de Karma Ura como destaque do evento vem justamente da convicção de que que o desenvolvimento sustentável passa pelo cuidado com as pessoas, que vivem, atuam e cuidam bem do lugar onde estão, quando têm as condições necessárias para isso.

Dasho Karma Ura fala sobr o FIB na abertura do I Fórum de Sustentabilidade e Turismo em Noronha. Foto: Aguama Ambiental

“Já temos uma história de 7 anos de ações ambientais em Fernando de Noronha. Este ano decidimos expandir nossa atuação para iniciativas que tenham como foco as pessoas que vivem no arquipélago. Vamos somar novos projetos e a realização do Fórum vem ao encontro deste objetivo”, explica Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambiental.

Durante dois dias, o evento reuniu pessoas de diversas empresas e organizações que já atuam em Fernando de Noronha com especialistas e representantes dos setores público e privado com iniciativas de impacto positivo em diversas partes do Brasil, para trocarem experiências e conhecimento e encontrarem caminhos para o desenvolvimento sustentável de Fernando de Noronha. Quem abriu o Fórum foi justamente Dasho Karma Ura, em uma palestra que encantou os presentes e revelou uma nova maneira de olhar para o lugar onde estamos e para as pessoas que dividem este lugar com a gente.

“Escolhemos o Dasho Karma Ura para iniciar o Fórum porque o que ele nos ensina vem justamente ao encontro da proposta de colocar as pessoas, sua qualidade de vida e bem-estar, no centro da discussão. Sua palestra vem para coroar o trabalho que estamos realizando”, explica Caio.

Ação de plantio em projeto de restauração ecológica realizado pela Aguama em parceria com o ICMBio e a 21K em Fernando de Noronha. Foto: Aguama Ambiental

Felicidade Interna Bruta

O conceito do FIB foi criado em 1972 pelo rei do Butão Jigme Singya Wangchuck, como uma alternativa ao Produto Interno Bruto (PIB). O índice de felicidade também considera os fatores econômicos, mas inclui outros critérios, como a qualidade de vida das pessoas, sua relação com a natureza, com a comunidade onde vive, a conservação ambiental, o desenvolvimento sustentável, a preservação da cultura e a governança.

“Para qualquer pessoa que cria indicadores, você precisa considerar algumas perguntas. A mais importante é: o que você quer valorizar? O valor é gerado pelos seres humanos e pelo que eles escolhem valorizar”, explicou Karma Ura. Para ele, o que é verdadeiramente sustentável não pode ser definido exclusivamente por posses ou apegos ao mundo físico.

A segunda pergunta que precisa ser feita é como mensurar o que foi escolhido como importante. “Vamos medir o que valorizamos usando o dinheiro como parâmetro, ou vamos incluir fatores que não estão relacionados ao dinheiro?”, indagou.

Dentro do desafio de mensurar aspectos da vida humana, uma outra pergunta a se fazer é qual é a “quantidade” suficiente de cada um dos critérios avaliados e como colocar isso em uma escala. Depois de avaliar aquilo que pode ser medido em números, como o valor econômico, e o que tem outras medidas, como as emoções, é preciso reunir estas informações de forma que essa avaliação seja consistente.

Foto: Pixabay

“Até 2007 não tínhamos um sistema estatístico para avaliar o índice de felicidade. Precisamos de números e estatística para ter bases confiáveis. A questão é que as medidas para avaliar o desenvolvimento na maioria dos países exclui o fator humano”, lembrou Karma Ura.

Uma base robusta

O Índice de Felicidade Bruta é gerado por um método muito bem estabelecido, capaz de reunir informações objetivas e subjetivas na avaliação. O processo para a construção deste indicador inclui 9 domínios, 33 indicadores e 135 variáveis possíveis dentro deste universo. Se as respostas consideradas positivas para todas estas áreas somam mais de 66% do total, o índice de felicidade é considerado satisfatório. Se o resultado fica abaixo deste número, os pesquisadores têm as áreas que precisam de mais atenção e investimento.

Todas estas informações são obtidas por meio de pesquisas conduzidas pelo governo e resultados determinam a divisão de 65% do dinheiro público no Butão e criação de políticas públicas.

Foto: Mayukh Karmakar | Unsplash

Entre os dados apresentados por Karma Ura está o fato de que o índice de felicidade no Butão é maior do que em outros países, como os Estados Unidos, onde a renda per capita é maior. Isso mostra que não é apenas a situação econômica que garante a felicidade, mas Karma Ura conta que, mesmo neste cenário,  muitas pessoas do seu país declararam que ter mais dinheiro as faria mais felizes.

“É claro que isso acontece. O mundo tem no dinheiro uma ferramenta importante, vivemos em uma sociedade financeira. Então, o desafio é encontrar satisfação naquilo que não depende exclusivamente do dinheiro, como a presença da nossa família e da nossa comunidade”, diz Karma Ura.

Veja abaixo quais são os nove territórios avaliados durante a pesquisa que define o índice de Felicidade Interna Bruta no Butão:

  1. Bem-estar
  2. Ecologia
  3. Uso do tempo
  4. Diversidade cultural
  5. Governança
  6. Padrão de vida
  7. Educação
  8. Saúde
  9. Vitalidade da Comunidade

“A comunidade é a base do altruísmo, da generosidade. As pessoas se tornam seres humanos quando estão envolvidas em uma comunidade”, disse Kara Ura. “O nascimento do altruísmo começa na família e expande para a comunidade. Quando evoluímos, essa generosidade se expande para o resto das pessoas e para o mundo”.

Como avaliar a felicidade de uma nação?

Karma Ura falou sobre outros índices de avaliação para medir a felicidade em diferentes países, citando o fato de que a Finlândia é normalmente apontada como o país mais feliz do mundo. No entanto, para ele, essas avaliações são pouco profundas. “Temos diferentes realidades, diferentes histórias. Precisamos encontrar caminhos diferentes e muitos aspectos não estão incluídos nessas avaliações”.

A felicidade inclui a capacidade de superar momentos de sofrimento. Foto: Ugyen Tenzin | Unsplash

Como exemplo, ele citou a ética e a liberdade de ação, além da capacidade de superar o sofrimento. “A felicidade não está apenas em momentos de prazer, mas em possuir ferramentas para enfrentar momentos difíceis”, explica. “Podemos aprender a cultivar a habilidade de transcender o sofrimento”.

Entre os fatores que ajudam a manter a saúde mental da população está justamente outra área avaliada na pesquisa de FIB: a conservação ambiental. No Butão, 52% do território nacional é formado por unidades de conservação que são o lar de diversas espécies, entre elas, a humana.

“A natureza nos dá o que temos para o nosso sustento. O acesso à natureza, ver a fauna e flora, tem um impacto direto na saúde mental do ser humano. Aprendemos muito sobre o mundo e sobre a beleza do mundo físico com a natureza e os animais. E precisamos conservar essa beleza”, ensina Karma Ura.

O uso e disponibilidade de tempo também é um fator fundamental. Como exemplo, está o fato de que nem as pessoas mais ricas conseguem “comprar um dia com mais de 24 horas”, o que torna o tempo um recurso que tem enorme valor.

Foto: Prateek Katyal | Unsplash

Além do tempo gasto trabalhando, é preciso que as pessoas tenham tempo para descansar, para comer, para lazer e socialização e para dormir, um tempo de restauração. “O tempo que passamos dormindo deve ser dividido entre o tempo que descansamos e o tempo que sonhamos, o que só acontece no sono profundo, fundamental para restaurar nossa saúde e funções cognitivas”, explica o especialista em felicidade.

Para finalizar, a importância dos relacionamentos entre as pessoas foi reforçada. Uma comunidade saudável tem segurança, vizinhança saudável e relacionamentos próximos, garantindo o suporte emocional e um sentimento de pertencimento. “É preciso que exista uma troca constante entre as pessoas de uma comunidade. E isso pode se dar pelo compartilhamento de recursos, como empréstimo de dinheiro, mas também por conversas, momentos de lazer ou apenas dividir tempo que temos juntos. Rir junto é uma força de união muito importante”, conta Karma Ura.

Reconhecendo as emoções

Na pesquisa estão presentes emoções consideradas positivas (tranquilidade, compaixão, perdão, contentamento e generosidade) e, em contrapartida emoções negativas (raiva, egoísmo, inveja, medo, preocupação e tristeza), que compõe a estrutura da saúde mental. As pessoas apontam qual é a presença de cada uma dessas emoções nas suas vidas e a frequência que elas aparecem. Neste ponto Karma Ura conta que a filosofia budista está muito presente nesta avaliação.

Entre as emoções negativas, Karma Ura cita também a ganância, o apego e o desejo. Mas reforça que o apego e o desejo só se tornam negativos quando eles limitam a sua liberdade.  Ele chama a atenção para o fato de que essas emoções desempenham um papel importante na história da humanidade. “A ganância, por exemplo, foi legitimada e amplificada pelo capitalismo nos últimos séculos e tornou a nossa sociedade desigual e insustentável, pelo acúmulo que extrapola nossas necessidades reais”.

As outras emoções negativas são a agressividade e a raiva, também presentes no cenário mundial, com as guerras, e na vida pessoal pela presença do medo. Para lidar com essas emoções, a recomendação são meditação e espiritualidade, que podem estar juntas e se tornar uma prática estimulada por políticas públicas e instituições.

Foto: Lightscape na Unsplash

Muitas possibilidades

Para a pesquisa que determina o Índice de Felicidade Bruta, existem dois tipos de questionários: uma mais curto e um maior, mais detalhado. Além de aplicar essa metodologia para mensurar o FIB em territórios nacionais, Karma Ura contou que é possível fazer esta pesquisa em territórios menores, como cidades bairros e até em escalas reduzidas, como empresas e comunidades especificas.

Um exemplo de como a felicidade, bem-estar e outros fatores subjetivos, mas bastante consistentes, podem ser incorporados em contextos sociais, econômicos e até corporativo, Lívia Azevedo, diretora de Felicidade do Grupo Heineken, esteve presente no Fórum de Sustentabilidade e Turismo em Noronha falando sobre esta iniciativa pioneira e disruptiva da companhia.

Felicidade Corporativa

“O que nós estamos fazendo é muito recente. Temos um ano e meio de jornada de felicidade dentro da Heineken, mas, neste curto período, já temos resultados bem interessantes”, conta Livia. Como premissa, as pessoas precisam estar no centro das decisões, com respeito e cuidado, que são valores da companhia.

“A felicidade e o bem-estar das nossas pessoas é o pilar principal da estratégia de negócio da Heineken Brasil”, garante Livia. A explicação para esta decisão tem o mesmo princípio da escolha da comunidade de Fernando de Noronha como o foco do Fórum: as pessoas, quando estão bem, vão produzir os resultados que todos precisam.

Colaboradores da Heineken participam de plantio comunitário em São Paulo. Foto: Fresta Filmes

Na Heineken, esta jornada começou no final de 2022 com um piloto de uma “Pesquisa de Felicidade” que hoje acontece quinzenalmente com as 14 mil pessoas que trabalham na empresa, dentro de uma metodologia alinhada com a Felicidade Interna Bruta mensurada no Butão, porque fala de emoções, engajamento, relações, propósitos, realizações e vitalidade.

Os 6 pilares escolhidos pela Heineken vêm de uma metodologia chamada Perma, desenvolvida pelo psicólogo Martin Seligman, criador da psicologia positiva. Apesar de não ser obrigatória, a pesquisa tem taxa de resposta de 80% e essa adesão se deve muito ao trabalho dos líderes, que avaliam e discutem os resultados com suas equipes. “Não podemos falar de felicidade sem mencionar bons líderes. Na Heineken temos um programa especial de formação de lideranças que aborda a ciência da felicidade e segurança psicológica”, conta Lívia.

A segurança psicológica é um caminho para que as pessoas sejam elas mesmas e construam um senso de pertencimento no lugar onde estão, desenvolvendo todo o meu potencial.

Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambiental, Dasho Karma Ura, Lívia Azevedo, diretora de Felicidade do Grupo Heineken, e Vitor Assakawa, coordenador de compliance na Heineken, durante o fórum em Noronha. Foto: Aguama Ambiental

Além dos líderes existem também os embaixadores da felicidade. Todos querem ser felizes, mas poucas pessoas estudam e buscam conhecimento sobre os caminhos para a felicidade. “Nós procuramos transferir este conhecimento para nossas pessoas. A felicidade precisa ser intencional, existem maneiras de garantir isso”, explica a diretora. Ela que o impacto deste conhecimento está se expandindo para as famílias e comunidades dos embaixadores da felicidade da Heineken.

“Busquem conhecimento, informem-se sobre o que é a felicidade para vocês e quais são os caminhos para que essa condição seja alcançada. Isso faz toda a diferença: buscar esse conhecimento e colocar ele em prática”, finaliza a diretora de Felicidade.

Foto: Unma Desai na Unsplash
Veja nossa campanha aqui: benfeitoria.com/projeto/ciclovivo
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