- Publicidade -

Trump retira Estados Unidos do Acordo de Paris

Saída de um dos maiores emissores de gases poluentes aumenta a responsabilidade de demais países

EUA Acordo de Paris
A saída dos EUA do Acordo de Paris é um risco sobretudo pelo potencial de criar um efeito-dominó. | Foto: GOP | Fotos Públicas

Na última segunda-feira (20), Donald Trump assumiu oficialmente o segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Como era esperado por ambientalistas e profissionais da área climática, o republicano, já em seu primeiro dia de mandato, assinou a retirada dos EUA do Acordo de Paris por meio de um decreto.

- Publicidade -

Considerado um acordo histórico para manter o aumento da temperatura global abaixo dos dois graus, o Acordo de Paris foi assinado por 196 países em 2015, que reconheceram que a mudança climática é uma preocupação comum da humanidade. Na época, os EUA que, junto a China e Índia, são considerados os maiores poluidores do mundo, também assumiram o compromisso de reduzir as emissões de gases poluentes. Desde então, é a segunda vez que o país norte-americano anuncia a saída do acordo – em ambos os casos, com Trump no poder.

Acordo de Paris
Foto: Tia Dufour | Oficial da Casa Branca

O Observatório do Clima, rede da sociedade civil brasileira sobre a agenda climática, analisa que, ao longo dos anos, a atuação dos EUA tem sido mais de atrapalhar do que de ajudar o avanço da pauta, de forma que a comunidade internacional precisa aprender a lidar com a emergência climática sem o país.

- Publicidade -

“Os americanos ameaçaram não assinar a Convenção do Clima, em 1992, mataram o Protocolo de Kyoto em 2001 e implodiram (juntamente com a China) a conferência de Copenhague, em 2009. Toda a arquitetura do Acordo de Paris, inclusive as metas nacionais voluntárias, foi pensada para dobrar o mundo às circunstâncias internas dos EUA, que tradicionalmente obstruem o debate sobre financiamento e sobre perdas e danos”, resume o Observatório do Clima.

Aumenta a responsabilidade do Acordo de Paris

Os EUA são os maiores emissores históricos de gases do efeito estufa, responsáveis por cerca de 20% a 25% do dióxido de carbono liberado na atmosfera desde 1950 – emissão associada com um aquecimento de 0,2°C na temperatura global.

- Publicidade -

Com o país estadunidense “lavando as mãos”, os demais precisam assumir compromissos mais rígidos, sobretudo em um contexto em que a situação só piora: 2024 foi o ano mais quente já registrado na história, com temperaturas 1,6°C acima da média pré-industrial.

marcha pelo clima no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil
Manifestação Marcha pelo Clima, é parte do Ato Global pelo Clima, que se realiza em diversas cidades do mundo e alerta para a crise climática e o aumento dos eventos climáticos extremos. Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

Para o Observatório do Clima, novas lideranças precisam preencher o vácuo. “Isso põe mais responsabilidade especialmente sobre a China, a UE, a África do Sul e o Brasil – anfitrião da primeira reunião do BRICS e da primeira COP pós-Trump 2.0. Está nas mãos de Luiz Inácio Lula da Silva dar em novembro a primeira demonstração de que o mundo está disposto a seguir em frente e evitar o colapso da civilização, mesmo com a maior economia do planeta dobrando a aposta na distopia”, analisa.

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) concorda que “a responsabilidade de trabalhar 100% das emissões recai sobre os demais países, sobre a Europa, China, outros dois grandes emissores junto aos EUA, também países em desenvolvimento, com o Brasil à frente”. A organização tem esperança que o Brasil possa assumir uma posição de protagonismo.

- Publicidade -
mudanças climáticas queimadas
As emissões de gases de efeito estufa recobrem a Terra, retendo o calor do sol. Isso leva ao aquecimento global e à mudança climática. O mundo agora está aquecendo mais rapidamente do que em qualquer outro momento registrado na história. Foto: © Brasil2 | Getty Images Signature.

“Nossa agenda de combate às mudanças climáticas está relacionada com a redução do desmatamento, e conseguimos diminuir, no ano passado, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Em meio a este ambiente de incertezas, o Brasil desponta como uma liderança que está conseguindo, de fato, reduzir as suas emissões. Isso traz para nós a esperança que o Brasil entre com autoridade na COP30 e convoque os países que não aderiram a esse movimento de Trump a seguirem e aumentarem suas ambições para alcançarmos os nossos objetivos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas o mais rápido possível”, aponta André Guimarães, diretor executivo do IPAM.

Perigo do efeito-dominó

O Observatório do Clima reconhece que a saída dos EUA do Acordo de Paris é um risco sobretudo pelo potencial de criar um efeito-dominó, isto é, inspirar outros líderes de extrema-direita do mundo a fazerem o mesmo. Quanto mais países fora da negociação, menores serão os esforços para a descarbonização – e, consequentemente, maior o risco para a humanidade, que já enfrenta maiores e mais intensos eventos climáticos extremos.

EUA Acordo de Paris
Presidente Donald Trump assina decretos no seu gabinete da Casa Branca. | Foto: RS/Fotos Públicas

O receio não é trivial. A primeira retirada norte-americana do Acordo de Paris foi seguida de resistência, sobretudo de governadores que ratificaram compromissos ambientais. André Guimarães, diretor executivo do IPAM, ressalta esse fato.

- Publicidade -

“Tem uma diferença entre o que está acontecendo agora, em 2025, e o que foi em 2017. Naquele ano, quando Donald Trump fez a retirada dos EUA do Acordo de Paris, empresas e Estados subnacionais se uniram na iniciativa ‘We are all in’, ou seja, ‘nós continuamos dentro [do Acordo de Paris]. Boa parte da sociedade norte-americana levantou a bandeira de que continuaria no Acordo de Paris, à revelia da decisão do governo federal na época. Mas a gente não viu esse movimento agora, pelo contrário: há setores, como o financeiro, anunciando que vão baixar a barra das medidas de compliance com as questões climáticas dos seus investimentos”, aponta Guimarães.

Outras medidas de Trump

Trump, que escolheu Chris Wright, um CEO de empresa de petróleo, para assumir o cargo de secretário de energia, também deixou claro seu apoio à exploração de petróleo. Entre as medidas anunciadas estão o plano para aumentar a produção de petróleo e gás no país, além de suspender metas de adoção de veículos elétricos, interromper leilões de energia eólica offshore e desbloquear autorizações para exportação de gás natural liquefeito.

petróleo Amazonas
Foto: Grant Durr | Unsplash

Ainda na série de decretos assinados no primeiro dia de mandato, Trump oficializou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em resposta, a OMS destacou, em nota, que os Estados Unidos figuram dentre os membros fundadores da entidade e têm participado na definição e gestão dos trabalhos desde então, juntamente com outros 193 Estados-membros. “Esperamos que os Estados Unidos reconsiderem e esperamos poder engajar em um diálogo construtivo para manter a parceria entre o país e a OMS, para o benefício da saúde e do bem-estar de milhões de pessoas em todo o mundo”, diz um trecho da nota.

- Publicidade -
assinantes
Veja nossa campanha aqui: benfeitoria.com/projeto/ciclovivo