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enchente em porto alegre
Enchente em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foto: Gustavo Mansur | Palácio Piratini

O El Niño voltou ao noticiário com um adjetivo que chama atenção: “super”. A expressão parece anunciar um desastre inevitável, mas a melhor forma de lidar com ela é menos pelo susto e mais pela preparação. O fenômeno climático já está em curso e deve se fortalecer até o fim de 2026, segundo a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. A previsão mais recente indica 81% de chance de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro e 97% de chance de persistência até o início de 2027. Se isso se confirmar, estará entre os maiores eventos registrados desde 1950.

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Mas o ponto central não é decorar uma sigla meteorológica nem acompanhar o aquecimento do Pacífico como quem assiste a uma contagem regressiva. O ponto é perguntar: estamos usando essa informação para proteger pessoas, cidades, lavouras, rios, florestas e serviços públicos?

O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Parece distante, mas esse aquecimento mexe na circulação dos ventos e reorganiza padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta. É como empurrar uma peça importante de um grande tabuleiro climático: o movimento começa no oceano, mas o efeito aparece na terra firme, no regime de chuvas, nas ondas de calor, na produção de alimentos, na saúde e na rotina das cidades.

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inundação com carros embaixo da agua - cursos adaptação climática
Foto: Chris Gallagher | Unsplash

Quando se fala em “super El Niño”, é preciso fazer uma pausa. A Organização Meteorológica Mundial não usa oficialmente esse termo, porque ele não faz parte das classificações técnicas padronizadas. O nome mais adequado é El Niño “muito forte”. Em geral, essa categoria aparece quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais de 2°C acima da média. A diferença parece pequena para quem pensa na temperatura de uma cidade, mas no oceano, em uma área imensa, esse desvio representa muita energia acumulada.

Essa precisão importa porque palavras também são parte da adaptação climática. Se a comunicação pública só assusta, as pessoas se paralisam. Se ela minimiza, os governos atrasam respostas. O caminho mais responsável é explicar com clareza: El Niño forte não significa que todos os lugares terão os mesmos impactos, nem que cada evento extremo será causado por ele. Significa que certas probabilidades aumentam, e que a prevenção precisa começar antes da emergência.

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No Brasil, os efeitos costumam variar por região. O INPE explica que o El Niño está associado, historicamente, à seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, especialmente no primeiro semestre. No Sul, pode favorecer chuvas mais intensas, sobretudo na primavera. Já em parte do Sudeste e do Centro-Oeste, o fenômeno pode contribuir para temperaturas acima da média, dependendo da intensidade e da interação com outros sistemas atmosféricos.

O INMET também alertou que, no trimestre de julho a setembro de 2026, a tendência é de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média no centro-norte do país. O órgão aponta ainda alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, condição que pode aumentar episódios de ondas de calor e incêndios florestais.

enchentes
Comerciantes retiram entulho e limpam lojas para retomar os negócios no Centro Histórico de Porto Alegre em maio de 2024. Foto: Rafa Neddermeyer | Agência Brasil

Na prática, isso quer dizer que o El Niño não deve ser tratado como uma notícia de meteorologia distante da vida cotidiana. Ele pode aparecer na torneira com menos água, no preço dos alimentos, na fumaça das queimadas, no aumento de doenças respiratórias, no desconforto térmico dentro de casas mal ventiladas, na perda de lavouras, na sobrecarga de hospitais, no alagamento de bairros e no risco de deslizamentos.

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O que fazer, então?

A primeira resposta é fortalecer a comunicação de risco. Previsão climática não pode ficar presa em boletins técnicos que poucas pessoas conseguem interpretar. Municípios, estados, escolas, unidades de saúde, rádios comunitárias, lideranças locais e imprensa precisam traduzir os alertas em orientações simples: quando beber mais água, como proteger crianças e idosos do calor, que sinais indicam risco de deslizamento, onde buscar abrigo, como reduzir exposição à fumaça, o que agricultores podem fazer diante de estiagem ou excesso de chuva.

A segunda resposta é planejar por território. Um mapa nacional ajuda, mas não substitui o conhecimento local. Cada cidade precisa saber quais bairros alagam, quais encostas são mais vulneráveis, quais áreas têm pouca sombra, quais populações dependem mais de água transportada, quais escolas e postos de saúde podem funcionar como pontos de apoio. Adaptação climática começa quando a previsão encontra o CEP.

seca rios aquíferos
Barcos encalhados na Ponta da Piraíba, em Manaus, em novembro de 2023. Redução do nível dos aquífers agrava a estiagem e deixa a floresta mais suscetível a incêndios. Foto: Rafa Neddemeyer | Agência Brasil

A terceira é cuidar da saúde antes que a crise chegue. Ondas de calor, fumaça e falta de água não são apenas problemas ambientais. São problemas de saúde pública. Pessoas idosas, crianças, gestantes, trabalhadores ao ar livre, população em situação de rua e moradores de casas muito quentes precisam entrar nos planos de prevenção. Isso inclui protocolos em unidades básicas de saúde, orientação para escolas, ampliação de pontos de hidratação, salas frescas em equipamentos públicos e vigilância sobre doenças respiratórias e transmitidas por água contaminada.

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A quarta é proteger a agricultura e a segurança alimentar. Se há risco de seca em algumas regiões e excesso de chuva em outras, agricultores precisam de informação com antecedência, assistência técnica, crédito orientado, seguro rural, manejo de água, recuperação de solo e apoio para diversificação produtiva. O El Niño pode passar; a perda de renda e o aumento do preço dos alimentos ficam por mais tempo.

A quinta é levar a prevenção a sério no orçamento. Não basta dizer que o país está monitorando o fenômeno. Monitorar é indispensável, mas insuficiente. A diferença entre alerta e adaptação está no investimento: limpeza de drenagens, proteção de encostas, planos de contingência, brigadas contra incêndio, recomposição de vegetação, abastecimento de água, infraestrutura de saúde, comunicação comunitária e defesa civil equipada.

parque Qunli
O Parque Qunli, na China, resolveu o problema de enchentes, a escassez hídrica e trouxe opções de lazer para a população. Foto: Turenscape

Há uma tentação recorrente de tratar o El Niño como culpado único por aquilo que já estava mal resolvido. Ele pode intensificar extremos, mas não cria sozinho a ocupação de áreas de risco, o desmatamento, a falta de saneamento, a desigualdade habitacional, a ausência de arborização urbana ou a fragilidade dos sistemas de alerta. Fenômenos climáticos não inventam vulnerabilidades: eles revelam onde elas foram acumuladas.

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Por isso, o “super” do El Niño talvez não esteja apenas no oceano. Está no tamanho do teste que ele impõe ao Brasil. Um país que já conhece suas áreas de risco, seus gargalos de infraestrutura e suas desigualdades climáticas não pode agir como se cada evento extremo fosse surpresa.

A boa notícia é que previsão existe para ser usada. A ciência climática não elimina o risco, mas oferece uma vantagem preciosa: tempo. Tempo para preparar serviços públicos, orientar comunidades, proteger lavouras, reduzir perdas, salvar vidas e evitar que a próxima emergência seja tratada como inevitável.

Colunista Jaqueline Nichi
Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.

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