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Mudanças climáticas afetam saúde e educação das crianças

Poluição do ar prejudica o desenvolvimento de crianças desde a gestação. E ondas de calor já comprometem o desempenho de estudantes

escolas ilhas de calor
Foto: note thanun | Unsplash

A influência das mudanças climáticas na infância vem sendo reforçada por pesquisas que mostram impactos diretos tanto na saúde quanto na educação. Dois estudos recentes indicam que a má qualidade do ar e o aumento das temperaturas já afetam o desenvolvimento infantil desde a gestação e comprometem a rotina escolar de milhões de crianças.

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Um relatório do Early Childhood Scientific Council on Equity and the Environment (ECSCEE), ligado ao Center on the Developing Child da Universidade de Harvard, mostra que a exposição à poluição pode provocar danos significativos mesmo em níveis considerados baixos. Intitulado “A qualidade do ar afeta o desenvolvimento e a saúde na primeira infância” e traduzido pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), o documento reúne décadas de pesquisas e revela que os efeitos começam antes do nascimento.

Segundo o estudo, partículas e compostos químicos inalados por gestantes atravessam a placenta e alcançam o feto, interferindo na formação dos pulmões, do cérebro e de sistemas como o imunológico e o endócrino. Durante a gravidez, mudanças hormonais e fisiológicas ampliam o volume de ar inspirado e expirado, fazendo com que a gestante inale mais poluentes que o habitual.

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O relatório também aponta que a poluição do ar interno — em locais como escritórios, escolas, casas e veículos — pode ser de duas a cinco vezes maior que a do ar externo, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Como as pessoas passam mais de 21 horas por dia em ambientes fechados, grande parte da exposição a poluentes externos ocorre dentro desses ambientes. O documento destaca ainda que partículas microscópicas, como o carbono negro, podem atravessar a placenta e alterar a expressão gênica do feto, aumentando o risco de baixo peso ao nascer e de parto prematuro.

A exposição durante a gestação e a primeira infância também está associada a maior probabilidade de asma, atraso no desenvolvimento cognitivo e alterações hormonais. Outro alerta do relatório é que alguns poluentes conseguem atravessar a barreira protetora do cérebro em fases críticas do desenvolvimento, afetando áreas ligadas à memória, ao aprendizado e à regulação emocional.

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escola ecológica uganda alunos
Foto: Will Boase Photography

Desigualdades aprofundam o problema

O relatório destaca que fatores socioeconômicos e raciais amplificam o impacto da poluição. Famílias negras, hispânicas e de baixa renda tendem a viver próximas a rodovias e indústrias, áreas com moradias precárias e maiores concentrações de poluentes. Essas condições elevam a prevalência de asma e doenças respiratórias. Nos Estados Unidos, eliminar fatores de risco residenciais poderia reduzir em 44% os casos de asma diagnosticada em crianças menores de seis anos. Além disso, a combinação entre poluição e estresse intensifica processos inflamatórios, aumentando o risco de doenças crônicas como diabetes, enfermidades cardíacas e depressão.

O relatório de Harvard recomenda melhorar a ventilação e a filtragem do ar com o uso de filtros HEPA e manutenção de sistemas HVAC, substituir materiais de construção e produtos de limpeza que liberam compostos orgânicos voláteis (COVs), implementar barreiras de vegetação próximas a vias de tráfego intenso capazes de reduzir em até 60% as partículas poluentes, promover a transição energética diminuindo o uso de fogões e aquecedores a gás e aprovar normas específicas para a qualidade do ar interno baseadas em evidências científicas. “Garantir ambientes internos e externos saudáveis é essencial para que todas as crianças possam crescer, aprender e prosperar”, reforça o relatório.

Foto: Divulgação | Unicef

Ondas de calor já afetam ensino e aprendizagem

No mesmo dia em que teve início a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), o UNICEF chamou a atenção para outro efeito das mudanças climáticas sobre as crianças: o impacto das ondas de calor na educação. Segundo a organização, o aumento das temperaturas tornou-se um obstáculo silencioso à concentração, ao desempenho e ao bem-estar de estudantes e professores.

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Para tornar o problema visível e sensorial, o UNICEF instalou, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, a “Estufa Improvável”, uma sala de aula cenográfica transformada em estufa com temperatura de 38°C. A iniciativa busca demonstrar como o calor extremo prejudica a rotina escolar — em algumas regiões, as temperaturas durante ondas de calor tornam os ambientes de ensino “verdadeiras estufas”.

“As crianças são mais vulneráveis aos impactos das crises relacionadas com o clima, incluindo ondas de calor, tempestades, secas e inundações mais fortes e mais frequentes”, afirma Mônica Dias Pinto, chefe de Educação do UNICEF no Brasil. Ela destaca que o calor excessivo compromete a concentração, o conforto térmico e até o acesso à escola. “Muitas não conseguem chegar à escola se o caminho estiver inundado, se os rios estiverem secos, ou se as escolas forem destruídas ou usadas como abrigos”, explica.

Segundo Mônica, a instalação busca “chamar a atenção do público, durante a COP30, para a importância de os governos adaptarem as escolas para as condições climáticas atuais, reconstruírem escolas hoje localizadas em áreas de risco e promoverem soluções para mitigar problemas de acesso em contextos climáticos adversos”.

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Além da experiência imersiva, crianças que visitaram a instalação participaram, no dia 11 de novembro, de atividades educativas sobre os impactos das mudanças climáticas em suas rotinas escolares. O projeto foi idealizado pela agência Artplan para o UNICEF e desenvolvido com a produtora Genco. “A ‘Estufa Improvável’ parte de uma pergunta objetiva: como traduzir um dado científico em uma experiência que gere compreensão imediata?”, explicam Pedro Rosas e Pedro Galdi, diretores de criação da Artplan.

Temperatura em alta, aprendizado em queda

Dados do UNICEF mostram que o desempenho escolar diminui conforme a temperatura sobe. Em 2024, ao menos 242 milhões de estudantes em 85 países sofreram impactos em sua vida escolar devido a eventos climáticos. As altas temperaturas foram o principal motivo de fechamento de escolas, afetando mais de 118 milhões de estudantes apenas em abril daquele ano.

Pesquisas indicam que cada aumento de 0,5°C no ambiente reduz o rendimento escolar em cerca de 1%. Em salas com 35°C, estudantes apresentam mais cansaço, menor produtividade e maior dificuldade de concentração do que em ambientes entre 20°C e 25°C.

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Atualmente, um terço das crianças do mundo enfrenta de quatro a cinco ondas de calor por ano, com exposição prolongada a temperaturas acima de 35°C por mais de 80 dias anuais, períodos de calor de pelo menos cinco dias consecutivos ou temperaturas 2°C acima da média local. Se nenhuma medida for tomada, até 2050 quase todas as crianças do planeta — cerca de 2,2 bilhões — estarão expostas a ondas de calor frequentes.