Ícone do site

Denúncias, preocupação e frustações marcam início da COP29

Eleição de Donald Trump, a ausência de lideranças e metas pouco ambiciosas do Brasil são destaques na conferência do clima

Published 11/11/2024
petroleo baku Azerbaijão

Exploração de petróleo em Baku, Azerbaijão, sede da COP29. Foto: Orkhan Farmanli | Unsplash

Desde que o republicano Donald Trump foi reeleito presidente dos Estados Unidos, cientistas, lideranças políticas, jornalistas e ativistas têm se mostrado muito preocupados com as consequências da escolha do eleitorado norte-americano para o combate à emergência climática. A razão são as promessas do próprio Trump durante a campanha de ignorar a crise climática que ameaça a humanidade – e que está sendo discutida na COP29.

Vale lembrar que, quando esteve na presidência, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, abandonou as políticas de controle de poluição, impulsionou a produção de combustíveis fósseis em terras públicas federais e offshore. Além disso, reforçando sua postura negacionista, o político americano classificou a crise climática como uma “farsa” e, durante a campanha deste ano, minimizou os impactos do aquecimento do planeta, como a intensificação de tempestades e furacões.

Mais uma vez, o Trump deve desmontar as políticas criadas pelo seu sucessor – ele fez isso com o legado de Barack Obama e afirmou que fará o mesmo com o legado climático deixado por Joe Biden, como os incentivos para a expansão de fontes renováveis de energia e para a compra de carros elétricos.

Trump também prometeu retirar os EUA não somente do Acordo de Paris, mas também da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas, o que significaria a saída completa da diplomacia norte-americana das negociações multilaterais sobre o clima.

Foto: Gage Skidmore | Wikimedia Commons

O impacto dessa postura não está restrito aos Estados Unidos e seus habitantes – é uma preocupação mundial. Segundo o WRI, em 2022 (o último ano com dados disponíveis), a China aparecia como a maior emissora de CO2 e os EUA ocupavam a segunda posição, seguidos por Índia, Rússia e Japão.

No entanto, entre os 10 maiores emissores de CO2 do mundo, os Estados Unidos são o país com os níveis mais altos de emissões por habitante. A taxa de emissões per capita do país é o dobro da chinesa e oito vezes maior que a da Índia. E são com essas as perspectivas alarmantes em relação ao segundo maior emissor de CO2 do mundo e o primeiro em taxas de emissão per capita, que a COP29 começou nesta segunda-feira, dia 11 de novembro de 2024.

“A eleição de um negador do clima para a presidência dos EUA é extremamente perigosa para o mundo”, afirmou o cientista Bill Hare, da Climate Analytics, ao Guardian. Para ele, a volta de Trump provavelmente prejudicará os esforços para limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5°C neste século, como previsto pelo Acordo de Paris.

A conferência servirá como um termômetro para vislumbrar se e como o mundo poderá seguir no esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem a participação de seu país mais rico. Mas, diferentemente da Conferência de Marrakech de 2016 (COP22), a agenda de Baku, que recebe a COP29, é muito mais pesada e complexa do que há oito anos, com a questão do financiamento climático sem uma solução à vista.

“A vitória de Trump é um retrocesso para a ação climática global, mas o Acordo de Paris provou ser mais resiliente e é mais forte do que as políticas de qualquer país”, destacou Laurence Tubiana, ex-negociadora-chefe da França na COP21, em 2015, e uma das arquitetas políticas do Acordo de Paris. “Há um poderoso ímpeto econômico por trás da transição energética global, que os EUA lideraram e agora correm o risco de perder”.

No mesmo tom, a ex-secretária-executiva da UNFCCC, Christiana Figueres, disse que a ausência dos EUA do quadro climático global é um “grande golpe”, mas que “não pode e não irá travar as mudanças em curso para descarbonizar a economia” global. “Ficar com petróleo e gás é o mesmo que ficar para trás em um mundo em rápida evolução”.

COP29 começa mal

Foto: Divulgação | COP29

A COP29 do Clima terá como principal destravar o financiamento climático, que é urgente, mas ainda não saiu do papel. Além da eleição de Trump e suas consequências para as negociações e metas internacionais, o início da conferência teve ainda a denúncia de que o diretor executivo da conferência, Elnur Soltanov estaria disposto a discutir investimentos em combustíveis fósseis.

Soltanov foi flagrado discutindo “oportunidades de investimento” na Socar, empresa estatal de petróleo e gás fóssil do Azerbaijão, com um homem que se passa por um potencial investidor. “Temos muitos campos de gás que devem ser explorados”, disse o diretor, em falas que estão registradas em documentos e gravações secretas de vídeo feitas pela Global Witness e enviadas à BBC.

Durante a reunião, Soltanov disse que o objetivo da conferência era “resolver a crise climática” e “fazer a transição dos hidrocarbonetos de forma justa, ordenada e equitativa”. No entanto, falou que estava aberto a discussões sobre acordos também – incluindo petróleo e gás fóssil.

Soltanov ainda afirmou que o futuro energético do país incluiria combustíveis fósseis “talvez para sempre”. E sugere que, mesmo com a meta de zero emissões líquidas, petróleo e gás continuariam a ser produzidos indefinidamente.

COP29 x G20

Outro motivo de frustração é a ausência de lideranças internacionais importantes. Com a reunião de cúpula do G20 acontecendo simultaneamente à conferência do clima, vários líderes decidiram não ir ao Azerbaijão, optando pelo encontro no Rio de Janeiro. Além do presidente Lula, não irão a Baku os líderes dos EUA, Joe Biden, da China, Xi Jinping, da Índia, Narendra Modi, da França, Emmanuel Macron, e da União Europeia, Ursula von der Leyen. Um esvaziamento que certamente impactará as negociações da COP29 e joga para o G20 a pressão de anunciar diretrizes efetivas para o clima.

“Sob Trump, para dizer o mínimo, os EUA não vão se comprometer a aumentar o financiamento climático aos países em desenvolvimento”, afirmou Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, na Finlândia. “Nesse cenário, a China vai querer se apresentar como um país que defende o Acordo de Paris, que é um parceiro confiável. Pode ser uma razão para trazer algo para a mesa, uma contribuição positiva para a COP.”

Segundo Myllyvirta, esta seria uma maneira da China se aproximar da União Europeia e outros países ricos, “que gostariam de se distanciar dos EUA de Trump” na questão climática,. No entanto, ele, que esteve na semana passada em Pequim, para reuniões e um seminário, descreveu chineses e europeus em campos opostos até o momento.

Para o físico e climatologista Paulo Artaxo, um dos principais especialistas brasileiros em mudanças climáticas, a meta de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C só permanece na cabeça dos diplomatas e já caducou. “Este ano já vamos ter aumento de 1,5°C”, disse em entrevista no UOL. Às vésperas da COP29, no Azerbaijão, o integrante do IPCC ressaltou a urgência de um novo modelo de governança climática que realmente funcione.

“As COPs são os mecanismos adequados para que essas metas sejam negociadas e verificadas. No entanto, hoje elas não têm efeito prático porque existe apenas um sistema voluntário dos países de colocar quais mecanismos estão fazendo. Não existe um sistema de governança, não há nenhum mecanismo global de verificação de emissões”, ressaltou.

Meta Climática do Brasil

Foto: Pixabay

O anúncio da Meta Climática Nacional do Brasil, também gerou questionamentos e frustração. As primeiras críticas vieram do próprio anúncio da NDC, sigla em inglês Contribuições Nacionalmente Determinadas. Sem a cerimônia oficial e sem convocação da imprensa, comuns em comunicados importantes, o governo federal divulgou a principal informação sobre a nova meta climática do país para a próxima década na noite de 6ª feira.

A expectativa era grande em relação ao anúncio da meta de emissões. Segundo o comunicado, o Brasil se compromete a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% em 2035, em relação aos níveis de 2005. Isso equivale a reduzir as emissões para algo entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) por ano.

Especialistas e organizações socioambientais consideraram os números conservadores, principalmente por se tratar do país sede da COP30, cujo mote serão as as metas de cada país para reduzir suas emissões e combater as mudanças climáticas. E sobretudo pela ambição brasileira de liderar a agenda climática, algo ainda mais importante após a vitória de Donald Trump e todo o seu negacionismo climático.

Segundo o comunicado do governo, a nova meta “está alinhada ao objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento médio do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial” e “permitirá ao Brasil avançar rumo à neutralidade climática até 2050, objetivo de longo prazo do compromisso climático”. Mas especialistas discordam.

Segundo o painel de cientistas, para termos a chance de manter o aquecimento global sob o teto de 1,5°C, as emissões globais em 2035 teriam que ser 60% menores que as realizadas em 2019. Como as emissões brasileiras em 2019 foram de 1,7 GtCO2e, o teto das emissões brasileiras para 2035 seria de 680 MtCO2e.

Blocos de exploração localizados na bacia sedimentar da Foz do Amazonas. Imagem: Ibama

Se levarmos em conta a promessa de desmatamento zero até 2030 feita pelo presidente; a recuperação de 12 milhões de hectares de florestas proposta no Planaveg; e o compromisso de redução de metano assinado na COP de Glasgow, as emissões em 2035 ficariam abaixo de 650 milhões de tCO2e.

Além disso, especialistas criticaram a falta de explicações em relação aos caminhos para atingir essa meta, o que gerou uma nova expectativa – dessa vez em relação ao detalhamento pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, líder da delegação brasileira em Baku.

“Estamos em um momento crítico e esses números não inspiram para que, de fato, haja um movimento eficaz para o planeta não ultrapassar o limite de 1,5°C. Vindo do país-sede da COP30, isso é preocupante, pois esse é o momento para irmos além e mostrarmos que queremos virar o jogo”, ressaltou Ilan Zugman, diretor da 350.org na América Latina.

Com informações de ClimaInfo

Sair da versão mobile