Nascido como Jorge Mario Bergoglio, em Buenos Aires, o Papa Francisco fez sua passagem hoje, dia 21 de abril de 2025, e deixa um legado de amor ao próximo e ao planeta Terra, que ele chamou de “Casa Comum” em sua encíclica Laudato si, publicada em junho de 2015.
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Famoso por ter uma abordagem mais liberal e acolhedora à frente da Igreja Católica, o Papa Francisco foi um líder pioneiro e corajoso. Foi o primeiro Jesuíta a se tornar Papa, o primeiro pontífice que veio das Américas e do Hemisfério Sul e o primeiro Papa, em mais de 1200 anos, que não tinha origem européia.
Ressaltando a importância da humildade, o Papa Francisco abriu mão dos seus aposentos no Palácio Apóstolico e passou a viver na casa de hóspedes Domus Sanctae Marthae. Entre as suas preocupações mais constantes estavam a pobreza e desigualdade social e os direitos humanos. Francisco usou a sua voz para combater as guerras, pedir paz e apoiar a causa dos refugiados.
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Papa Francisco conversa com líder indígena em visita ao Canadá. Foto: Government of Canadá | Fotos Públicas
Apesar de manter o posicionamento tradicional da Igreja Católica em temas como o celibato clerical, casamento e ao aborto, ele dizia que as igrejas não poderiam fechar as portas para ninguém – o que incluía a comunidade LGBTQIA+. Corajoso, abordou de forma clara o combate de abusos sexuais por membros do clero católico, um tema polêmico. Francisco tornou obrigatórias as denúncias, responsabilizando também os casos de omissão sobre o assunto.
As mudanças que o Papa propunha não se restringiam à Igreja Católica, incluíam também o nosso sistema econômico e modo de vida. Desde 2018, se posicionava claramente contra a onda de neonacionalismo propagada por líderes de extrema-direita.
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Ao invés do capitalismo desenfreado e do consumismo, Francisco pedia união e consciência no cuidado com o planeta. O amor ao próximo deveria se estender à nossa casa em comum, a Terra. Nesse sentido, o combate às mudanças climáticas era uma das causas presentes na vida de Francisco.
Foto: Mazur/cbcew.org.uk | Catholic Church (England and Wales)
Em um comunicado oficial, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, sobre o falecimento de Sua Santidade, “Eu me uno ao mundo para lamentar o falecimento de Sua Santidade, o Papa Francisco, um mensageiro de esperança, humildade e humanidade”, escreveu.
Guterres ressaltou o posicionamento de Francisco contra a desigualdade social e a favor do diálogo entre as mais diversas religiões, exaltando o respeito e a compaixão entre as pessoas. O secretário geral da ONU também citou a importância das palavras do pontífice para que líderes políticos e pessoas comuns se mobilizem para cuidar melhor uns dos outros e do planeta em que vivemos. Confira abaixo o comunicado:
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“O Papa Francisco foi uma voz transcendente em prol da paz, da dignidade humana e da justiça social. Ele deixa para trás um legado de fé, serviço e compaixão por todas as pessoas, especialmente por aquelas que foram deixadas à margem da sociedade ou presas pelos horrores do conflito.
O Papa Francisco foi um homem de fé para todas as religiões – trabalhando com pessoas de todas as crenças e origens para iluminar um caminho a seguir.
Ao longo dos anos, as Nações Unidas foram muito inspiradas por seu compromisso com as metas e os ideais de nossa organização – uma mensagem que transmiti em minhas reuniões com ele como secretário-geral.
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Em sua histórica visita de 2015 à sede das Nações Unidas, ele falou sobre o ideal da Organização de uma “família humana unida”.
O Papa Francisco também entendeu que proteger nossa casa comum é, no fundo, uma missão e uma responsabilidade profundamente moral que pertence a todas as pessoas. Sua Encíclica Papal – Laudato Si – foi uma grande contribuição para a mobilização global que resultou no histórico Acordo de Paris sobre mudança climática.
O Papa Francisco disse certa vez: “O futuro da humanidade não está exclusivamente nas mãos de políticos, de grandes líderes, de grandes empresas… [está], acima de tudo, nas mãos das pessoas que reconhecem o outro como um ‘você’ e a si mesmas como parte de um ‘nós’”.
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Nosso mundo dividido e discordante será um lugar muito melhor se seguirmos seu exemplo de unidade e compreensão mútua em nossas próprias ações.”
No dia 18 de junho de 2015, O Papa Francisco publicou uma encíclica criticando o desenvolvimento econômico insustentável, que coloca o lucro acima de tudo. O documento trazia ainda críticas ao consumismo da sociedade capitalista atual e pedia que o mundo se unisse para frear as mudanças climáticas e a degradação ambiental.
O pontífice tinha como objetivo estimular o movimento mundial por mudanças capazes reverter a ação predatória da humanidade frente à natureza, para deter a “deterioração global do ambiente”. Entre essas mudanças estão a transição energética, a economia e até mesmo o consumo de carne. Em seu Laudato si, Francisco pediu a participação de “cada pessoa que habita neste planeta”, apelando às pessoas comuns para que pressionem seus representantes políticos.
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Ao longo de 184 páginas, divididas em 6 capítulos, Francisco “condena a incessante exploração e destruição do ambiente, responsabilizando a apatia, a procura de lucro de forma irresponsável, a crença excessiva na tecnologia e a falta de visão política.”
Foto: Marcin Mazur | Fotos Públicas
Segundo ele, “as alterações climáticas são um problema global com implicações graves: ambientais, sociais, económicas, políticas e de distribuição de riqueza. Representam um dos principais desafios que a humanidade enfrenta nos nossos dias”.
A encíclica destaca ainda o papel dos combustíveis fósseis na origem das alterações climáticas e afirma que os países desenvolvidos têm a obrigação moral de ajudar os países em desenvolvimento no combate à crise das alterações climáticas.
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Para acessar o texto completo do Laudato si, clique AQUI.
Foto: Presidenciamx | Flickr
Conceitos do Laudato si
Destacamos abaixo um resumo, capítulo a capítulo, com os pontos chaves levantados pelo Papa Francisco em sua encíclica.
Capítulo 1 – O que está a acontecer à nossa casa
O Capítulo 1 apresenta o conhecimento científico atual sobre as questões ambientais, trata-se de “ouvir o grito da criação” para transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar (19). Algumas ideias chave são:
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Mudanças Climáticas: o impacto mais pesado dessas alterações recai sobre os mais pobres (26);
Água: privar os pobres do acesso à água significa negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável (30);
Preservação da Biodiversidade: os nossos filhos não poderão ver as espécies extintas (33); quando a intervenção humana se coloca a serviço da finança e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta (34);
Existência uma verdadeira “dívida ecológica”(51), sobretudo do Norte em relação ao Sul do mundo, as responsabilidades dos países desenvolvidos são maiores (52);
Fraqueza das reações diante dos dramas de tantas pessoas, falta disponibilidade para mudar estilos de vida, produção e consumo (59), é urgente criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas (53).
O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (95);
Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, n’Ele se conjugam o carinho e a força (73);
A narração da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a criação no seu conjunto, essas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: com Deus, com o próximo e com a terra, essas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado (66);
Os cristãos, algumas vezes interpretam de forma incorreta as Escrituras, e, portanto, devem rejeitar a ideia de que em consequência do fato de terem sido criados à imagem de Deus, podem exercer um domínio absoluto sobre as outras criaturas (67);
Os seres humanos têm a responsabilidade de “cultivar e guardar” (cf. Gênesis 2:15) (67);
Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos (91);
É necessária uma consciência de uma comunhão universal, forjada pelo fato de que fomos criados pelo mesmo Pai, e, portanto, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, que nos impele a ter um respeito sagrado, amoroso e humilde (89);
Jesus, ressuscitado e glorioso está presente em toda a criação com o seu domínio universal (100).
Foto: iStock
Capítulo 3 – A raiz humana da crise ecológica
As lógicas de domínio tecnocrático destroem a natureza e exploram as pessoas e as populações mais vulneráveis, esse paradigma tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política (109);
O mercado, por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social (109);
Em uma época de um excesso de antropocentrismo (116), o ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder, razão pela qual surge a uma “lógica do descartável”, que justifica todo tipo de descarte, ambiental ou humano que seja, que trata o outro e a natureza como um simples objeto e conduz a uma miríade de formas de dominação, é essa a lógica que leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em risco de extinção e de “diamantes ensanguentados”, é a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos, do tráfico de drogas e do descarte de crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais (123);
A encíclica aborda duas questões cruciais:
O trabalho, afirmando que: “Em qualquer abordagem de ecologia integral […] é indispensável incluir o valor do trabalho” (124), e que “renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade” (128);
Os limites do progresso científico, com clara referência aos Organismos Geneticamente Modificados (132-136).
A ecologia integral é um novo paradigma de justiça, trata-se de uma ecologia que integra o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda (15), desse modo, evita-se que se entenda a natureza como algo separado da humanidade ou como uma mera moldura da vida humana (139);
A perspectiva integral conduz também a uma ecologia das instituições, pois se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: “toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais” (142);
Há uma ligação entre questões ambientais e questões sociais e humanas que nunca pode ser rompida, pois a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma (141), portanto, não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental (139);
A ecologia integral é inseparável da noção de bem comum (156), e deve ser entendida de modo concreto: no contexto de hoje, no qual há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, nesse contexto, comprometer-se pelo bem comum significa fazer escolhas solidárias com base em uma opção preferencial pelos mais pobres (158), é o caminho para deixar um mundo sustentável às gerações futuras, não por meio de proclamações, mas através de um compromisso de cuidado com os pobres de hoje, para além da leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração (162);
A ecologia integral envolve também a vida diária, com particular atenção para o ambiente urbano, tendo em vista que ser humano tem uma grande capacidade de adaptação, criatividade e generosidade, considerando também que um desenvolvimento autêntico pressupõe um melhoramento integral na qualidade da vida humana: espaços públicos, moradias, transportes, etc. (150-154);
O nosso corpo nos coloca em uma relação direta com o meio ambiente e com os outros seres vivos, a aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes sútil, de domínio sobre a criação (155).
Foto: Pixabay
Capítulo 5 – Algumas linhas de orientação e ação
As análises não são suficientes, são necessárias propostas de diálogo e de ação que nos envolvam, para que cada um de nós seja a política internacional (15), para sair da espiral de autodestruição onde estamos a afundar (163);
A construção de caminhos concretos não deve ser concebida de modo ideológico, superficial ou reducionista, portanto, é indispensável o diálogo;
A Igreja não pretende definir as questões científicas, nem substituir-se à política, convida a humanidade a um debate honesto e transparente para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum (188);
As cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes (166), portanto, se faz necessário um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais (174);
A proteção ambiental não pode ser assegurada apenas por meio de mecanismos de mercado (190);
Apela-se àqueles que detêm cargos políticos, para que se distanciem da lógica eficientista e imediatista (181).
Capítulo 6 – Educação e espiritualidade ecológicas
Reconhece que não é fácil reformular hábitos e comportamentos, e, nesse contexto, a educação e a formação continuam sendo desafios centrais, pois toda mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo (15), que envolvem todos os ambientes educacionais: a escola, a família, os meios de comunicação e a catequese (213);
Deve-se apostar em uma mudança nos estilos de vida (203-208) e também exercer uma pressão sobre os que detêm o poder político, econômico e social (206);
Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo (230), e isto será mais fácil a partir de um olhar contemplativo que vem da fé, pois o crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres, além disso a conversão ecológica, faz crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, e o leva a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo (220);
Retorna à linha proposta na Evangelii Gaudium, que afirma que a sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora (223); e que a felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as muitas possibilidades que a vida oferece (223); desta forma torna-se possível voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos (229);
São Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria (10), modelo de como são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior (10), também são mencionados: São Bento, Santa Teresa de Lisieux e o Beato Charles de Foucauld.
O exame de consciência deverá incluir uma nova dimensão para considerar não apenas como se vive a comunhão com Deus, com os outros, consigo mesmo, mas também com todas as criaturas e a natureza.
Foto: Mazur/cbcew.org.uk | Catholic Church (England and Wales)
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