Os rejeitos de minério de ferro da barragem de Mariana, que rompeu em 2015, foram transformados em ferritas – o material é capaz de tratar efluentes da indústria têxtil contaminados com corantes. O projeto foi desenvolvido no laboratório de Química da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pelo estudante Lucas Lorenzini.

No processo, desenvolvido com orientação da professora Maria de Fátima Fontes Lelis, a lama coletada é tratada e queimada junto com uma fonte de matéria orgânica, como fibra de coco, pó de café e bagaço de acerola, por exemplo. Nesse processo são produzidos óxidos de ferro, denominados de ferritas.

Como funciona?

Quando jogado em um tanque por onde passam os efluentes da indústria têxtil, o produto promove a adsorção (fixação de moléculas de um fluído em uma superfície sólida) dos corantes utilizados para tingir os tecidos. Em seguida, a ferrita, por um processo catalítico, promove a degradação das moléculas orgânicas responsáveis pela forte coloração do efluente.

O resultado deste processo é uma água limpa e tratada que pode ir para rios, lagos ou no mar. “Para cada litro de efluente, gastamos 0,2 gramas de ferrita produzida a partir da lama”, diz o estudante. A ferrita ainda pode ser reutilizada, pois pode ser retirada do tanque com a utilização de imãs.

Lucas Lorenzini e a professora Maria de Fátima Fontes Lelis, no laboratório de Química da Ufes.
Foto: Divulgação | Ufes

Aplicação em grande escala

Segundo Maria de Fátima, além de  dar destinação ao rejeito da barragem, a produção dessa ferrita substitui outros materiais não renováveis.

“A indústria pode deixar de usar a argila bentonita, o carvão ativado ou sílicas. É produzir ferritas em grande escala a partir dos rejeitos e aproveitar a biomassa disponível”, afirma a professora.

Os testes de bancada realizados até agora apontam para o sucesso total do experimento. “O material está pronto para ser levado para testes em maior escala. O que fizemos até agora foram testes de bancada, em laboratório. E neste momento estamos avaliando o mecanismo de degradação do composto tóxico, apurando o que fica em solução após a total descoloração do corante”, finaliza Maria de Fátima.

Projeto Candonga

A pesquisa foi desenvolvida dentro do Projeto Candonga, que, além da Ufes, envolve também a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e a Universidade Federal de Ouro Preto (UfOP). Esse projeto foi criado para dar soluções para os rejeitos vindos da barragem de Fundão, que foram parcialmente dragados pela Hidrelétrica Risoleta Neves (MG), também conhecida como Candonga.