Estão em andamento ao menos duas pesquisas que avaliam a presença do novo coronavírus (Sars-CoV-2) nas redes de esgoto. Uma delas é realizada em Niterói, no Rio de Janeiro, e chefiada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A outra avalia as cidades de Belo Horizonte e Contagem, sendo conduzida por diversos órgãos públicos de Minas Gerais.

O vírus foi detectado em oito entre 26 amostras (31%) na primeira semana dos trabalhos de campo nas cidades mineiras. As coletas foram realizadas no esgoto despejado no Ribeirão Arrudas e no Ribeirão do Onça entre os dias 13 a 24 de abril.

As sub-bacias dos ribeirões Arrudas e Onça recebem os efluentes gerados por cerca de 2,2 milhões de pessoas, equivalente a 71% da população urbana de Belo Horizonte e Contagem.

Segundo os pesquisadores, o objetivo da pesquisa é mapear os esgotos para indicar áreas com maior incidência da transmissão. A partir destes dados, será possível direcionar políticas governamentais. “Também pode possibilitar avisos precoces dos riscos de aumento de incidência da Covid-19 de forma regionalizada, embasando a tomada de decisão dos gestores públicos”, afirma a Agência Nacional de Águas (ANA) em nota.

O projeto-piloto, batizado de Monitoramento Covid Esgotos, está previsto para durar 10 meses. Há planos de criar mapas dinâmicos para apresentar os resultados e permitir acompanhar a evolução espacial e temporal da ocorrência do vírus.

Este trabalho é realizado pela ANA e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto, da UFMG. Tem ainda a parceria com o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).

Pesquisa em Niterói

Já a pesquisa da Fiocruz em Niterói tem parceria com a prefeitura da cidade e as primeiras coletas foram realizadas no dia 15 de abril. Por lá, estão sendo coletadas amostras de esgoto em 12 pontos distribuídos pela cidade, incluindo estações de tratamento de esgotos (ETEs), pontos de descarte de efluente hospitalar e rede coletora de esgotos.

O grupo detectou o material genético do novo coronavírus em cinco amostras na primeira semana. Enquanto as amostras coletadas nas duas semanas seguintes estão em fase de processamento.

Do conhecimento à ação

Também a Fiocruz destaca a importância da pesquisa como agente norteador de ações. “[…] A investigação sistemática pode fornecer um retrato da presença de casos positivos em determinada localidade, incluindo assintomáticos e subnotificados no sistema de saúde”, afirma a pesquisadora Marize Pereira Miagostovich, chefe do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz e responsável pela pesquisa..

O secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão da Prefeitura de Niterói, Axel Grael, reconhece que a pesquisa pode fortalecer as estratégias da cidade no enfrentamento da pandemia. “Como a Prefeitura está iniciando um programa amplo, de testagem, e nosso objetivo é priorizar justamente as comunidades, o resultado dessa pesquisa pode estabelecer prioridades entre as comunidades por onde a gente deve começar a testagem”, afirma.

As análises são lideradas pelo Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em colaboração com o Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, também do IOC/Fiocruz. O planejamento e realização das coletas é feito pelo Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), em colaboração com a concessionária Águas de Niterói, que opera os serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos da cidade.

Recentemente, a Fiocruz foi indicada como referência laboratorial em coronavírus nas Américas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).