Artigo de opinião | Agência Bori

A pandemia do coronavírus (covid-19), desde que foi diagnosticada pela primeira vez em dezembro de 2019, oficialmente já matou mais de 16.000 pessoas ao redor do globo, trouxe bilhões de dólares de prejuízo para a economia dos países (ambos os números continuam aumentando), sendo a mais grave crise que o planeta enfrenta desde a 2ª Grande Guerra. 

Diante de um cenário obscuro como esse, um país deve ser capaz de responder rapidamente a eventos que colocam em risco a vida de sua população. E em tempos de crise, é a ciência que acaba trazendo luz para as questões mais obscuras. Hoje, a ciência é a principal esperança contra o covid-19 e tem sido assim há séculos, inclusive no Brasil.

Em 2014, por exemplo, o vírus da zika entrou no nosso país, possivelmente durante a Copa do Mundo. Sua silenciosa proliferação só foi percebida em abril de 2015, com o primeiro surto sendo confirmado em Salvador. No mesmo ano também se iniciou um surto de casos de microcefalia em crianças recém-nascidas, que saltou de centenas de casos para milhares em 2016.

A situação só não foi pior porque cientistas brasileiros associaram o vírus da zika à má formação do cérebro dos recém-nascidos. Sem essa conexão, o surto de microcefalia teria continuado e aumentado, tornando-se um gravíssimo problema de saúde pública.

O vírus da zika já era conhecido desde 1947, mas até então, ele era considerado apenas um parente mais brando do vírus da dengue.

Quando a epidemia do zika começou no Brasil, em 2014, os cortes de recursos na ciência estavam apenas no início e a estrutura de pesquisa ainda estava consolidada.

Hoje, seis anos depois de sucessivos cortes no orçamento da ciência, nossa capacidade de resposta ao covid-19 está reduzida. Agências de apoio à ciência sofreram diversas restrições de recurso, mudanças estruturais e sucateamento.

Com isso, muitos cientistas deixaram o Brasil, desarticulando grupos de pesquisa e reduzindo a disponibilidade de mão de obra qualificada para enfrentar os efeitos da pandemia no Brasil. Quando cortamos o financiamento destinado a pesquisas e a bolsas de cientistas e futuros cientistas, abrimos mão de nossa capacidade de combater e identificar ameaças.

Agora, com o início da pandemia do coronavírus, a demanda por equipamentos e materiais de consumos utilizados em laboratórios de pesquisa e clínicos aumentou e kits básicos para isolamento do material genético e análises diagnósticas do covid-19 começaram a faltar.

Ao destruir as agências de financiamento da Ciência brasileira e atacar as universidades públicas, ficamos cada vez mais dependentes da importação de tecnologias desenvolvidas em outros países e perdemos a capacidade de desenvolver uma indústria tecnológica própria.

Nos próximos anos, muitos outros problemas surgirão: enfrentamos uma crise climática que ameaça nossa segurança hídrica e nossa segurança alimentar, enfrentaremos o surgimento e proliferação de novas doenças, veremos as mudanças sociais provocadas pelas novas formas de trabalho e pelos novas aplicações em Inteligência Artificial.

Sem cientistas brasileiros estudando e pensando o nosso país e o mundo, orientando políticas públicas em conjunto aos políticos eleitos e criando novas tecnologias para fortalecer a indústria nacional, perdemos o controle sobre o nosso futuro, abrindo mão de nossa soberania e colocando em risco nossa população.

Os autores

Carlos Takeshi Hotta é professor do Instituto de Química da USP

Luciano Lopes Queiroz é doutorando em Microbiologia do Instituto de Ciência Biomédicas da USP