Para a conta fechar, o olhar precisa mudar: o poder das OSCs
Luciana Kamimura coloca holofote em Organizações da Sociedade Civil que fazem um trabalho anônimo e fundamental para mudar realidades
Luciana Kamimura coloca holofote em Organizações da Sociedade Civil que fazem um trabalho anônimo e fundamental para mudar realidades
Nas minhas andanças por diversos territórios e comunidades, uma coisa nunca muda: a surpresa de encontrar Organizações da Sociedade Civil (OSCs) fazendo um trabalho excepcional, muitas vezes no mais absoluto anonimato. É sério, tem muita gente boa contribuindo para a transformação de realidades por aí, e a maioria de nós não faz a menor ideia.
Essas instituições são o motor social de suas comunidades, mas enfrentam um dilema clássico. Elas têm a vontade, o conhecimento local e a inovação social na veia, mas falta o fôlego financeiro. A pergunta que não quer calar é: como escalar o impacto social sem acesso aos locais onde circula o investimento privado? É exatamente aqui que a conta não fecha.
Não podemos esperar que essas organizações façam tudo sozinhas. Além de operarem na linha de frente, combatendo vulnerabilidades e criando soluções onde o Estado muitas vezes não chega, ainda precisam se desdobrar para captar recursos e parcerias. É uma sobrecarga que sufoca o potencial de quem já faz muito com pouco.

Imagine um projeto de formação profissional que não entrega apenas o certificado, mas contribui para construir pontes para ingressar no mercado de trabalho, no empreendedorismo ou na economia solidária? Ela une a geração de renda digna ao acesso a direitos básicos, como saúde e educação. Em última análise, oferece o caminho para a autonomia.
Mas vamos ser honestos: como isso pode acontecer, se as empresas e clientes em potencial não olharem para além da planilha de custos? Contratar com propósito e intenção é enxergar o valor social agregado, não apenas a despesa pura e simples.
O último Censo GIFE (2024-2025) trouxe uma notícia boa, o crescimento do grantmaking (aquele repasse estruturado de recursos para causas públicas atendidos por meio de OSCs). Mas precisamos ser insistentes, ainda há um oceano de oportunidades para crescer, pois de nada adianta formar talentos incríveis se o mercado não estiver pronto para absorvê-los.

Nos últimos anos, muito têm se falado no “apagão” de profissionais no Brasil. Mas será que o problema realmente é a falta de gente ou a nossa forma de contratar? Para ampliar a oferta, precisamos aceitar que muitos talentos não chegarão prontos. É uma via de mão dupla, a empresa se corresponsabiliza pelo aprimoramento desse profissional, encarando a transição econômica e tecnológica de forma sustentável e humana.
Exemplos de excelência não faltam, mas serei breve e citarei apenas dois. O Instituto Entre o Céu e a Favela, da Cíntia Santana no Rio de Janeiro, e a Gastronomia Periférica, fundado por Adélia Rodrigues e Edson Leite, localizada em São Paulo, são provas vivas de organizações sérias que cuidam do profissional e do ser humano (o tal olhar biopsicossocial); porém, como tantas outras, ainda passam por “perrengues” desnecessários para manter as portas abertas.
Que tal criarmos um movimento nos nossos círculos profissionais e pessoais? Vamos levar a sério a intencionalidade de contratar de quem faz a diferença ou de consumir de empreendedores sociais que geram impacto direto na ponta.
Acredito que a mudança real da sociedade brasileira só acontece quando a gente decide juntos, finalmente, fazer essa conta fechar.
