Caixão orgânico e compostável é usado pela 1ª vez em enterro

Feito de micélio, caixão foi usado na Holanda.

enterro sustentável

“Eu quero ir vivo pro céu” era minha versão errada para “Eu quero Ive Brussel” – sucesso de Jorge Ben Jor. Os versos, que sempre cantei errado não faziam sentido algum, mas com o surgimento de enterros ecológicos – e novos modelos fúnebres sendo testados – podemos até considerar que, de fato, alguns passos foram dados para eternizar a vida. Exemplo disso é o caixão de micélio que foi usado pela primeira vez em um enterro na Holanda.

O micélio é uma rede de fibras finas que formam a parte vegetativa da maioria das espécies de fungos. Esta rede no subsolo, acreditam pesquisadores, é usada pelas plantas até mesmo para estabelecerem comunicação: sim, as plantas “conversam” entre si.

Além disso, o micélio é capaz de neutralizar substâncias tóxicas e fornecer nutrição para as plantas que crescem a seu redor. Ou seja, o caixão desenvolvido com este material é perfeito para ser enterrado, pois coloca na terra algo que é da própria terra.

No aspecto mais subjetivo, proporciona a conexão com as infinitas vidas vegetais que se formam no solo. Perpetuar essa ligação com a natureza é certamente o sonho de muitos seres humanos.

“Atualmente vivemos no cemitério da natureza. Nosso comportamento não é apenas parasitário, mas também míope. Estamos degradando organismos em materiais mortos e poluentes, mas e se os mantivéssemos vivos?”, questiona Bob Hendrikx, o fundador da startup Loop, responsável pelo caixão orgânico.

O problema

Mas, nem morrer em paz a gente pode mais? Devem questionar alguns. Pouco se fala sobre, mas há muitos impactos ambientais gerados nos enterros tradicionais.

O caixão comum é geralmente feito de madeira, envernizado e possui componentes metálicos que contaminam o solo – entre outros itens que demoram centenas de anos para se decompor. Além disso, há a contaminação do solo (e dos lençóis freáticos) por necrochorume e o vazamento de gases sulfídricos por má confecção e manutenção de sepulturas e jazigos.

A solução

O desenvolvimento de caixões orgânicos é uma das possibilidades que vem sendo estudada, uma vez que muitas pessoas – às vezes por questões religiosas – não aceitam a cremação. O exemplo mais famoso é a Capsula Mundi – modelo orgânico proposto para involucrar o corpo e, logo acima, cobri-la com uma árvore.

Virar árvore após a morte, aliás, já é possível em muitos locais. Uma empresa em Minas Gerais, por exemplo, faz o substrato a partir das cinzas da cremação. Com este modelo, recém inaugurado, quer transformar cemitérios em florestas.

Já o caixão de micélio, por enquanto, é produzido apenas na Holanda. O produto foi batizado de Living Cocoon (em português, Caixão Vivo) e é absorvido pelo solo em 4 a 6 semanas. “Queremos saber exatamente qual a contribuição que dá ao solo, pois isso nos ajudará, futuramente, a convencer municípios a transformarem áreas poluídas em florestas saudáveis, usando nossos corpos como nutrientes”, planeja Hendrikx.

O fundador da startup – que surgiu na Universidade Técnica de Delft – salienta que o micélio já foi usado em Chernobyl, é utilizado em Rotterdam para limpar o solo e alguns agricultores também o aplicam para tornar a terra saudável novamente.

O micélio pode ser cultivado e moldado para diversos formatos, já tendo sido testado na produção de tijolos. Em forma de caixão, o primeiro teste foi realizado em um funeral no início do mês de setembro. “Este caixão significa que realmente alimentamos a terra com nossos corpos. Somos nutrientes, não resíduos”, ressalta Hendrikx.