Cavalos podem buscar recompensas com esforço mínimo
Os cavalos são muito mais inteligentes do que se acreditava; saiba como os pesquisadores descobriram
Os cavalos são muito mais inteligentes do que se acreditava; saiba como os pesquisadores descobriram
Muitos telespectadores se encantaram quando o Globo Rural mostrou as técnicas usadas pelo argentino Don Oscar Scarpati para domar cavalos. A relação amorosa entre criadores e/ou proprietários de cavalos não é exatamente incomum, mas ainda chama atenção. Diferentemente do que acontece com pets, como cachorros e gatos, a tendência é ignorar a senciência e até possível inteligência de diversos animais. Foi buscando entender como funciona o aprendizado entre os cavalos que pesquisadores chegaram à conclusão de que tais animais podem ser muito mais inteligentes do que se imaginava até então.
Cientistas da universidade Nottingham Trent University, no Reino Unido, conduziram um estudo em que os cavalos participaram de um jogo complexo baseado em recompensas. Gradualmente, a tarefa foi ficando mais desafiadora. Ainda assim, o desempenho foi acima do esperado.
O estudo foi realizado basicamente em três etapas usando 20 cavalos. A equipe desenvolveu uma tarefa em que, com o focinho, os cavalos tocavam um pedaço de cartão para ganhar uma guloseima.
No estágio seguinte, os cavalos não ganhariam uma guloseima se tocassem no cartão enquanto uma luz estivesse acesa, mas ganhariam se tocassem enquanto estivesse apagada.
Todos os cavalos se esforçaram para realizar essa tarefa, sugeriu o estudo, tocando indiscriminadamente no cartão, independentemente de a luz estar acesa ou apagada, enquanto ainda eram frequentemente recompensados por todas as suas respostas corretas.
No estágio final, no entanto, os pesquisadores introduziram uma penalidade aos que tocassem no cartão quando a luz de “parar” estivesse acesa, dando um tempo limite de dez segundos durante o qual eles não conseguiam jogar ou receber uma recompensa.

O “castigo” funcionou: houve uma redução repentina e altamente significativa nos erros entre todos os cavalos envolvidos, pois eles começaram a jogar corretamente, tocando apenas o cartão na hora certa para receber a guloseima.
Os pesquisadores acreditam que, em vez de não entender o jogo (como apareceu inicialmente), é possível que os cavalos tenham entendido o jogo o tempo todo, mas encontraram uma maneira de jogar em que não precisavam prestar muita atenção. Ganhar recompensas com pouco esforço? Uma esperteza inesperada!
De acordo com os cientistas, a adaptação dos cavalos às regras mostra um nível mais alto de processamento cognitivo do que se pensava ser possível, pois eles foram capazes de mudar instantaneamente de estratégia e se comportar de uma maneira diferente assim que houve o risco de algo ser tirado deles.

O estudo sugere que os cavalos são estratégicos, capazes de planejar com antecedência – uma característica até então considerada além de sua capacidade cognitiva.
“No início, descobrimos que os cavalos simplesmente continuavam tocando a carta repetidamente, pois provavelmente perceberam que ainda receberiam uma recompensa frequente com o mínimo de esforço mental”, diz a pesquisadora principal, Dra. Carrie Ijichi.”Não havia custo ao bater indiscriminadamente, às vezes compensava, às vezes não. Quando introduzimos um custo para seus erros, no entanto, eles puderam entender e jogar corretamente instantaneamente”, completa.
Uma das razões para os cavalos terem sua inteligência questionada na comunidade científica está no fato deles terem um córtex pré-frontal subdesenvolvido. “Isso significa que eles devem estar usando outra área do cérebro para atingir um resultado semelhante e isso nos ensina que não devemos fazer suposições sobre a inteligência ou a senciência animal com base em se eles são ‘construídos’ como nós”, afirma Carrie.
A pesquisadora Louise Evans, da Escola de Ciências Animais, Rurais e Ambientais da Universidade Nottingham Trent, ressalta que o grupo já esperava que o desempenho dos cavalos melhorasse quando fosse introduzindo o tempo limite, mas, ainda assim, ficaram surpresos com o quão rápida e significativa foi a melhora.
“Os animais geralmente precisam de várias repetições de uma tarefa para adquirir gradualmente novos conhecimentos, enquanto nossos cavalos melhoraram imediatamente quando introduzimos um custo para erros. Isso sugere que os cavalos sabiam o tempo todo quais eram as regras do jogo”, aposta Louise.
Segundo os pesquisadores, as descobertas sugerem que os cavalos têm a capacidade de formar um modelo interno do mundo ao seu redor para tomar decisões e previsões. “Achamos que os cavalos podem ser capazes de usar uma forma de aprendizado chamada ‘aprendizado baseado em modelos’, que era considerada muito complexa para eles. Isso agora nos ajudará a entender o comportamento e capacidade muito melhor”, diz Carrie. As novidades reveladas no estudo podem ser aproveitadas, por exemplo, para ajudar a treiná-los de forma mais “humana” e melhorar seu bem-estar.
O estudo foi publicado na revista Applied Animal Behavior Science.