Uma rápida busca pela hashtag Morning Shed nos leva a uma espiral de posts de mulheres retirando produtos cosméticos do rosto. Máscaras faciais, toucas de cabelos e fitas adesivas até na boca são apenas alguns dos itens que vemos nas imagens. Esta é a mais nova tendência a estimular mulheres a criarem um ritual noturno de skincare com uma quantidade preocupante de etapas. Mas, para além do exagero, o quão saudável pode ser esta prática? A dermatologista Mayla Carbone responde.
Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Mayla aponta que, ao menos, dois pontos de atenção: um possível efeito rebote e até mesmo danos a longo prazo. “Para muitas pessoas, o Morning Shed pode parecer uma solução rápida para acordar com a pele mais bonita e descansada, mas nem sempre é a melhor escolha para todos os tipos de pele. O uso excessivo de produtos durante a noite pode obstruir os poros, impedir a renovação natural da pele e, em alguns casos, causar irritações”, afirma.
O período noturno, livre das luzes solares, permite intensificar os cuidados de beleza. Aliás, usar certos produtos antes de dormir é uma prática já incentivada por profissionais da saúde. Para Mayla, a prática até pode ser interessante para quem tem pele muito seca ou desidratada, pois as camadas adicionais de hidratação podem proporcionar uma sensação de conforto e evitar a perda de água durante o sono. Ainda assim, vale questionar o nível de consumismo e geração de plásticos descartáveis que a trend leva.
Mas, voltado para a questão da saúde da pele, que seria a priori o intuito, para a dermatologista a grande questão é que para peles oleosas ou com tendência à acne o excesso de produtos pode aumentar a produção de sebo e agravar as condições de oleosidade.
“Durante a noite a pele passa por um processo natural de regeneração, o uso excessivo de produtos pode acabar prejudicando essa fase, interferindo na renovação celular e causando mais problemas do que benefícios. É importante que a rotina noturna seja equilibrada e respeite a necessidade individual de cada tipo de pele”, comenta a dermatologista.
“Durma feia para acordar bonita” é uma das frases mais repetidas nos conteúdos de Morning Shed compartilhados por usuárias do TikTok, onde a trend surgiu. O lema é mais velho do que andar para frente. Mulheres estão há décadas sendo bombardeadas por dicas de beleza que ignoram qualquer conforto mínimo em prol da beleza. A prática de cuidado com a pele teve um boom nos últimos anos e, como efeito colateral, o estímulo a exageros também.
Em contrapartida, há a tendência minimalista de autocuidado, que promove sobretudo produtos multifuncionais e uma rotina com menos processos, que podem, como alerta a dermatologista, resultar em efeitos contrários aos almejados. Além disso, marcas dedicadas a incentivar cosméticos multifuncionais tendem a ter formulações livres de ingredientes suspeitos de prejudicarem a saúde e, de quebra, muitas disponibilizam itens livres de embalagens plásticas, apresentando alternativas mais ecológicas. Não é garantia, mas vale fazer escolhas mais conscientes ao buscar por cosméticos.
Por fim, a dermatologista considera que o ideal é ter uma rotina de skincare equilibrada e que respeite as necessidades de cada pele, lembrando da máxima que, muitas vezes, menos é mais: um bom hidratante e um produto noturno específico podem ser suficientes para alcançar uma pele radiante. Uma boa estratégia é limitar o uso de produtos noturnos aos que tenham fórmulas compatíveis com o tempo de aplicação durante o sono.
“Em qualquer nova rotina de cuidados com a pele deve ser implementada aos poucos, com atenção aos mínimos sinais de irritação ou sensibilidade, que podem indicar que o tratamento está sobrecarregando a pele”, finaliza Mayla.

