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Resistente à seca, grão-de-bico pode ser proteína do futuro

Pesquisadores revelam que, além de nutritivo, o grão-de-bico pode ser cultivado em condições extremas e em hortas urbanas

Published 28/10/2024
grão de bico

Foto: Karyna Panchenko | Unsplash

Muitas pesquisas apontam para uma mudança na nossa alimentação como um dos caminhos para combater a crise climática, em especial para a necessidade de reduzir a proteína animal da dieta. Agora, um novo estudo aponta qual seria uma boa substituição da proteína animal, considerando um cenário de mudanças climáticas. O grão-de-bico pode ser uma fonte de proteína vegetal possível em um futuro afetado pela seca.

A afirmação vem de uma pesquisa publicada na revista científica Plant Biotechnology Journal. O estudo, liderado pelo biólogo molecular Wolfram Weckwerth, da Universidade de Viena, explorou os benefícios de 36 genótipos diferentes de grão-de-bico, que pode ser um alimento cada vez mais importante em um planeta em que a segurança alimentar está ameaçada, com o número e a duração das secas aumentando globalmente em 29%, de 1998 a 2017.

Os cientistas apontam ainda os riscos da monocultura e da redução do número de espécies alimentícias cultivadas. De acordo com o State of the World’s Biodiversity for Food and Agriculture da Food and Agriculture Organization, apenas cerca de nove espécies de plantas compõem 66% da produção total de safras. No entanto, há mais de 6.000 espécies de plantas comestíveis no planeta.

Os pesquisadores Anke Bellaire e Arindam Ghatak avaliaram diferentes espécies de grão de bico. Foto: Wolfram Weckwerth

Essa falta de diversidade na produção de alimentos significa que as safras cultivadas se tornam mais vulneráveis ​​a pragas e fatores climáticos, como a seca, e essa ameaça às safras podem levar a uma escassez severa de alimentos.

“Essa base genética estreita pode ter várias consequências negativas, como maior suscetibilidade das plantas a doenças e pragas, menor resistência a fatores como seca e mudanças climáticas e maior fragilidade econômica”, explicou Weckwerth. “Manter a diversidade genética e vegetal adequada é crucial para a agricultura, que deve se adaptar às futuras condições de mudança. Com nosso novo estudo, demos um passo importante nessa direção e olhamos para o grão-de-bico como um alimento importante do futuro.”

Grão de bico

De acordo com os pesquisadores, o grão-de-bico é a quarta leguminosa mais cultivada no mundo, mas não é uma das nove principais culturas nas quais os humanos baseiam sua dieta. 

Em resposta, a equipe de pesquisa experimentou cultivar vários tipos de grão-de-bico em condições de seca para testar sua resistência ao estresse de teste. Várias variedades diferentes cresceram com sucesso apesar das condições desfavoráveis. Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é que muitos tipos de grão de bico também são bons candidatos para o cultivo em agricultura urbana.

O grão de bico é fonte de proteína. Foto: Pixabay

A equipe classificou os genótipos de acordo com suas respostas à seca. De acordo com Weckwerth, diferentes genótipos de grão-de-bico tiveram diferentes maneiras de lidar com o estresse da seca, como por meio de interconversões de inositol e álcool de açúcar, criando mais variações entre genótipos para melhor resiliência contra os impactos das mudanças climáticas.

“Com seu alto teor de proteína e sua resistência à seca, leguminosas como o grão-de-bico são um alimento importante para o futuro”, disse Weckwerth. “Outra vantagem é que uma proporção maior de leguminosas nos sistemas agrícolas de um país melhora a eficiência geral do uso de nitrogênio — isso também torna a agricultura mais sustentável.”

Por que repensar nossa alimentação?

A agricultura tradicional, com monoculturas e uso de agrotóxicos em larga escala é um risco para a nossa saúde e para o meio ambiente, empobrecendo o solo, contaminando a terra, a nossa comida e os cursos de água com substâncias tóxicas. Segundo o Instituto Fome Zero, em 2021, as cadeias de produção e distribuição de alimentos no Brasil foram responsáveis por uma expressiva emissão de 1,8 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa, representando 73,7% do total de emissões do país naquele ano. Mas, é importante ressaltar que essa contribuição não veio especificamente da produção de alimentos, mas sim do desmatamento para a conversão de vegetação nativa em lavouras e pastos.

Imagem aérea de área preparada para monocultura ou pecuária, próximo a Porto Velho. Foto Bruno Kelly | Amazônia Real

Os dados de um estudo inédito patrocinado pelo Observatório do Clima, abrangem o desmatamento, a mudança no uso da terra, as emissões da agropecuária (incluindo o metano proveniente do “arroto do boi”), o consumo de energia e a produção de resíduos nos processos agrícolas e industriais.

Nesse cenário, a produção de carne no Brasil é a que tem o maior impacto negativo, não tanto pela emissão de metano pelos animais, mas devido ao fato de a pecuária ser responsável pela maior parcela do desmatamento para a conversão em pastagens.

Do total de 1,8 bilhão de toneladas de gases emitidas em 2021 pelo sistema de produção de alimentos, impressionantes 77,6% são atribuídos à produção de carne. Dessas emissões, 70,6% estão relacionadas à mudança no uso da terra, principalmente o desmatamento, enquanto 29,2% provêm da produção em si. Os restantes 0,2% originam-se do consumo de energia e da produção de resíduos.

Feijão, grão de bico, soja, ervilhas e outros vegetais são ótimas fontes de proteína. Foto: Dragne Marius | Unsplash
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