Um estudo científico liderado pela Sea Shepherd Brasil e publicado na revista Food Science and Technology concluiu que o consumo de carne de tubarão comercializada como “cação” deve ser evitado. Segundo os autores, os resultados apontam potenciais riscos à saúde humana associados à exposição alimentar prolongada a contaminantes, além de impactos relacionados à conservação das espécies.
O artigo, intitulado Metal(loid) concentrations in shark meat commercialized in Brazil: Implications for human health and biological conservation, foi capitaneada pela Sea Shepherd Brasil e seus estudos foram realizados de maneira independente em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições brasileiras, e financiada pelo Instituto Linha D’Água. A pesquisa analisou 240 amostras de carne de tubarão comercializadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.
Os pesquisadores identificaram e quantificaram a presença de alumínio, arsênio, cádmio, cromo, cobre, ferro, mercúrio, manganês, níquel, chumbo e zinco nas amostras analisadas. Segundo os autores, as concentrações observadas indicam um potencial risco à saúde humana associado à exposição alimentar prolongada a esses contaminantes.
Entre os resultados mais preocupantes está a concentração de cádmio encontrada na carne de tubarão-azul (Prionace glauca). O estudo registrou a maior concentração já reportada para a espécie entre os trabalhos científicos comparados pelos autores, abrangendo cinco décadas de literatura científica publicada entre 1974 e 2025. Os pesquisadores destacam que a exposição prolongada ao cádmio por meio da alimentação pode causar danos aos rins e aos ossos, além de aumentar o risco de determinados tipos de câncer.
A pesquisa também comparou os resultados com limites máximos adotados por regulamentações de diferentes regiões do mundo. Para alumínio, arsênio, cromo, ferro, mercúrio, níquel e zinco, os autores observaram concentrações superiores aos limites regulatórios mais restritivos considerados no estudo em pelo menos 75% das amostras analisadas.
Além da análise química, os pesquisadores realizaram identificação genética em 226 amostras, correspondentes a 94,2% do total avaliado. Todas as amostras identificadas geneticamente pertenciam ao tubarão-azul (Prionace glauca). Entretanto, entre os produtos importados, apenas 68% informavam essa espécie nos rótulos, evidenciando desafios de transparência e rastreabilidade na cadeia de comercialização.
Das amostras analisadas, 85% eram provenientes de produtos importados. Taiwan respondeu por 39,2% do total, seguida por Portugal (17,5%), Espanha (10,8%), China (8,8%), Uruguai (8,3%) e Peru (0,4%). O próprio estudo destaca que o Brasil é atualmente o maior importador mundial de carne de tubarão e ocupa a nona posição entre os países que mais capturam esses animais.
Os resultados possuem especial relevância para a conservação porque todas as amostras identificadas geneticamente pertenciam ao tubarão-azul, uma das espécies de tubarão mais comercializadas e consumidas no Brasil. Além de representar a totalidade das amostras geneticamente identificadas neste estudo, a espécie é classificada pela Lista Vermelha da IUCN como “Quase Ameaçada” globalmente. As populações do Atlântico Norte são consideradas “Em Perigo”, enquanto as do Atlântico Sul são classificadas como “Vulneráveis”.
“Este estudo mostra que o debate sobre o consumo de ‘cação’ não é apenas uma questão de conservação, mas também de saúde pública e direito à informação. Encontramos evidências de que a carne de tubarão comercializada no Brasil pode expor consumidores a contaminantes por meio do consumo prolongado, enquanto a identificação genética revelou que todas as amostras analisadas pertenciam ao tubarão-azul, uma espécie sob crescente pressão pesqueira. Isso reforça a necessidade de maior transparência na rotulagem, rastreabilidade da cadeia de comercialização e políticas públicas coerentes que protejam tanto os consumidores quanto as populações de tubarões”, afirma Juan Pablo Torres-Florez, pesquisador da Sea Shepherd Brasil e coautor do estudo.
Apesar de alertas, “cação” continua presente em políticas públicas
As preocupações sobre os riscos associados ao consumo de carne de tubarão não são recentes. Em 2024, pesquisadores da Fiocruz e instituições parceiras publicaram uma revisão científica reunindo evidências sobre a contaminação por metais em tubarões e outros peixes cartilaginosos destinados ao consumo humano. O estudo destacou que populações vulneráveis, como gestantes, idosos, bebês e crianças, podem ser especialmente suscetíveis aos efeitos desses contaminantes, incluindo impactos sobre o desenvolvimento neurológico e cognitivo.
Apesar desses alertas, o “cação” continua presente em políticas públicas. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, cita o “cação” entre os peixes que podem ser oferecidos na alimentação infantil. A referência permanece presente apesar do crescente número de estudos que alertam para os riscos associados à exposição a contaminantes encontrados na carne de tubarão.
Além disso, a comercialização da carne de tubarão sob nomenclaturas genéricas continua dificultando que consumidores identifiquem corretamente a origem do produto e a espécie consumida.
Diante desse cenário, a Sea Shepherd Brasil ingressou com uma Ação Civil Pública no final de 2024 pedindo maior transparência na comercialização do pescado, incluindo a identificação clara das espécies vendidas como “cação”. A organização sustenta que o consumidor tem direito a saber quando está adquirindo carne de tubarão, especialmente diante das evidências científicas que apontam potenciais riscos à saúde humana e dos impactos da exploração dessas espécies para a biodiversidade marinha.
Em março de 2026, a Justiça Federal concedeu tutela de urgência determinando que compras públicas federais de produtos comercializados como “cação” somente possam ocorrer mediante identificação da espécie e da origem dos animais, além da implementação de mecanismos de rastreabilidade e controle sanitário. A decisão representa um importante avanço na transparência e na proteção dos consumidores, mas ainda não altera as recomendações alimentares atualmente vigentes nem resolve os desafios relacionados à comercialização da carne de tubarão no país.
Políticas para o tubarão-azul
O estudo também traz novos elementos para o debate regulatório sobre o tubarão-azul no Brasil. A espécie foi identificada em 100% das amostras submetidas à análise genética, demonstrando seu protagonismo no mercado brasileiro de carne de tubarão.
Atualmente, a captura direcionada do tubarão-azul permanece autorizada no Brasil por meio da Portaria Interministerial MPA/MMA nº 30/2025. Paralelamente, a Instrução Normativa Ibama nº 9/2026 estabeleceu exigências específicas para exportação e reexportação da espécie em atendimento às regras da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Silvestres (CITES), fortalecendo mecanismos de rastreabilidade, controle do comércio internacional e testagem da carga para contaminantes.
“Os dados falam por si: todas as amostras identificadas geneticamente eram tubarão-azul, uma espécie que tem sido foco de debates sobre a proteção do tubarão nos últimos tempos. O setor da pesca insiste em defender que este animal é seguro para consumo, mas possui concentrações de contaminantes perigosas para consumo frequente, como as merendas públicas de crianças. Isso nos obriga a ir além do debate da proteção deste animal, já vulnerável em nossa região: para além da proteção no comércio exterior que evoluiu recentemente, o consumo interno, a pesca direcionada e a saúde pública precisam ser parte da mesma conversa. As políticas públicas não podem se contradizer: o que a IN 9/2026 do Ibama reconhece e evolui sobre este assunto, a Portaria 30 de ordenamento da pesca de tubarão azul precisa agora respeitar”, afirma Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil.
Os autores concluem que evitar o consumo de carne de tubarão é uma medida importante tanto para reduzir potenciais riscos à saúde humana associados à exposição prolongada a contaminantes quanto para apoiar os esforços globais de conservação das populações de tubarões.
Mais informações sobre o estudo
- Autores: Patricia Gomes Costa, Mariana da Fontoura Martins, Iole Beatriz Marques Orselli, Bianca de Sousa Rangel, Alexandre Rodrigues, Pablo Henrique de Oliveira, Juan Pablo Torres-Florez, Vanessa Paes da Cruz e Adalto Bianchini.
- Revista: Food Science and Technology (2026)
- DOI: 10.5327/fst.621

