É em busca do desconhecido que Flávia Miranda toca sua vida. Ela olha para a natureza, observa os animais e acredita que eles têm muito a nos ensinar. Ela é médica-veterinária, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus (BA), fundadora e presidente do Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás do Brasil. Sempre em movimento, Flávia explora novos terrenos, estuda, pesquisa, cataloga e sempre volta para compartilhar com o mundo suas descobertas.

Tendo crescido em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, sua infância foi cercada por natureza. “Tinha mesmo uma diversidade biológica no meio da cidade. Morava em uma casa que passava tamanduá, tatu… eu brincava com os lagartos. Sempre tive esse amor enorme, esse contato com a natureza”, conta.

Quando chegou na adolescência, ao contrário do que se possa imaginar, todo esse interesse só aumentou. Para surpresa da mãe, que é pedagoga, e do pai publicitário, decidiu cursar o Ensino Médio em um colégio agrícola. Após passar no processo seletivo, fez uma lista do que precisava: enxada, cutelo, facão. “Estava super feliz comprando aquilo e eu uso até hoje. Fazem parte da minha vida”.

Instituto Tamanduá
Flávia Miranda é médico-veterinária e professora. Fundou e preside o Instituto Tamanduá. | Foto: JOÃO MARCOS ROSA | NITRO

Na hora de escolher a profissão, titubeou. Veterinária, biologia e engenharia florestal eram possibilidades. Mas a verdade é que ela já dava indícios do que viria a ser desde os cinco, seis anos de idade quando enfaixava, suturava e até fazia cirurgia no boneco Snoopy. No primeiro ano de faculdade em veterinária estagiou no zoológico de Bauru e cuidou do seu primeiro tamanduá. Hoje ela é referência mundial em estudos e conservação de animais da superordem xenarthras: tatus, tamanduás e preguiças.

É com a experiência em tais animais que, junto a uma equipe multidisciplinar, catalogou sete espécies diferentes de tamanduaí (Cyclopes didactylus) – um pequeno animal que cabe na palma da mão. Até então, apenas uma espécie havia sido descrita em 1758 pelo naturalista sueco Carl Nilsson Linnaeus: ninguém menos que o pai da taxonomia.

Sua equipe é a primeira do mundo a trabalhar exclusivamente com a espécie Cyclopes didactylus, o que é feito por meio do projeto Em Busca do Desconhecido. O trabalho é realizado no Delta do Parnaíba, localizado entre os estados do Maranhão e Piauí.

A jornalista Paulina Chamorro acompanhou Flávia na primeira expedição do ano e conversou com a naturalista que compartilhou sua história de vida e a árdua tarefa de atuar entre o campo e a academia.

Confira os principais trechos da entrevista

O que é ser uma mulher na conservação?

É buscar desafios, enfrentar coisas inesperadas, conseguir superar. A gente tem um felling diferenciado de fazer várias coisas ao mesmo tempo, então quando a gente consegue aplicar isso para a conservação, acho que é case de sucesso.

Quais foram os principais desafios nessa área?

Foram vários. Trabalho muito com expedições para lugares inóspitos, expedições ao longo prazo. Então tem vários desafios de parecer muito frágil por ser mulher. Tive dificuldade de estar só como mulher, estar com muitos homens e conseguir respeito e até mesmo a questão da força física: são muitas andanças, muitas caminhadas, enfrentar longas viagens.

Você cresceu no pantanal, numa área de natureza selvagem, uma experiência natural muito próxima. Você acredita que isso foi determinante na sua vida?

Eu acho que foi mesmo fundamental. Venho de uma família que gosta de natureza, fui escoteira, tive a honra de morar em Campo Grande nos anos 80 – onde tinha mesmo uma diversidade biológica no meio da cidade. Morava numa casa que passava tamanduá, tatu, eu brincava com os lagartos. E assim eu cresci e sempre tive esse amor enorme, esse contato com a natureza. Sem dúvida nenhuma é um diferencial.

O que te levou a ser veterinária? Como você via a relação com os animais?

A vontade de ser veterinária vem muito na infância. Minha brincadeira já era enfaixar o Snoopy. Estourar, suturar, fazer a cirurgia. Minha mãe falava que vira e mexe ela via minha cachorrinha vindo toda enfaixada e ela tinha que tirar, era eu trabalhando já. E fui fazer o colégio agrícola e aí tive muito contato com os animais, tanto no manejo dos domésticos como o contato com animais selvagens. Imagina 14, 15 anos hoje a molecada ‘tá’ no shopping, na balada. E aí com o passar do tempo eu escolhi ser veterinária.

Já no primeiro ano da universidade uma professora mudou a minha vida. Ela me falou que eu tinha cara de quem ia trabalhar com animais selvagens. Na hora bateu meu coração e eu falei “existe isso?” e ela “É veterinário de zoológico” e eu falei “Nossa é isso que eu quero ser, é isso que eu vou ser”. Ela me arrumou um estágio no zoológico de Bauru no meu primeiro ano de faculdade. Foi em 95, nas férias.

O tamanduaí (Cyclopes didactylus) é o menor dos tamanduás.
Foto: JOÃO MARCOS ROSA | NITRO

Foi lá que eu cuidei do meu primeiro tamanduá. Tinha um filhote que a mãe havia sido atropelada – tamanduás são muito dependentes da mãe – então eu ficava com ele quase que 24h carregando que nem um canguru e dando mamadeira. E aí eu falava para ela “ah eu sei desse bicho, ele faz isso, ele faz aquilo”. Continuei a faculdade e fiz meu TCC em cima dos tamanduás, levantando informações de anatomia, fisiologia, foi muito interessante.

Tem uma história de quando você começou a fazer um levantamento e viu que a contabilização e o manejo dos tamanduás estava errada. Conta essa passagem.

O Brasil era referência de manejo de xenarthra no mundo. Eu achava interessante, mas aquilo não me convencia porque todo mundo que eu buscava informação, buscava conhecimento, não tinha. Compilei dados nos zoológicos e vi que realmente o problema era enorme. O que acontecia naquela época é que muitos zoológicos recebiam os animais.

A apreensão de fauna de bombeiros, resgate, tudo ia para o zoológico, mas esses animais logo vinham a óbito. Então a quantidade mesmo de tamanduá era grande, mas não era por um bom manejo.

Fui para uma reunião apresentar esses dados e foi vista como uma crítica, mas não era. Eu queria mesmo é salvar essas espécies. Mudar esse manejo, manter essa fauna e manter esses xenarthras. A gente rodou mais zoológicos, acabamos pegando mais de 80% dos zoológicos brasileiros. Mais de 300 tamanduás em cativeiro no Brasil.

Nós montamos um grupo de pesquisadores, cada qual de uma área, reprodução, nutrição, doenças infecciosas, e a gente foi rodando e coletando amostras. Realmente a gente tava certo. Muitos animais chegavam prenhos, com uma gestação longa e nasciam em cativeiro e davam a falsa sensação de que tava sendo bem mantido, porque tinha nascimento. Daí nasceu o livro que foi inclusive distribuído para todos os zoológicos do Brasil e nas universidades públicas, que é o livro de manutenção de tamanduás em cativeiro.

O Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás é uma referência com dados de pesquisa. Como você acha que é visto o seu trabalho que engloba terceiro setor, captação de recursos, mas também tem todo fundamento acadêmico?

São duas coisas que até ontem andavam completamente separadas, a academia e o terceiro setor. E foi muito difícil, ainda é, mostrar que ambos são importantes, que a pesquisa tem que sair da academia. É ciência aplicada senão não faz sentido. E o que faz a gente se movimentar é ter sentido na vida. A pesquisa é o direcionamento para tudo, inclusive para políticas públicas.

O Instituto esse ano completa 15 anos. Você definiria que ele trabalha em quais frentes?

Nosso foco é a área de pesquisa sistemática. A gente trabalha muito com essa questão taxonômica, genética, de populações, a parte de saúde também, medicina da conservação, e a parte ecológica, a área de vida, uso do espaço, entender realmente onde esses animais estão inseridos.

A gente vive num país que tem uma das maiores biodiversidades do mundo e pouco conhecida ainda. Nós não catalogamos nem metade do que tem, nós estamos descrevendo ainda espécies de mamíferos em pleno 2020 e eu gosto, eu gosto de estar a frente disso. Eu tenho como inspiração os exploradores, os naturalistas, eu tenho essa veia mesmo de explorar, de conhecer, de chegar primeiro, chegar num lugar onde ninguém pisou. Ver o que tem e relatar o que tem, antes que a gente não tenha mais.

E as pessoas que fornecem dados porque estão vivendo nesse ambiente? Não têm o conhecimento científico, mas têm o conhecimento popular. O quanto isso é importante?

Eles são os grandes professores. Eu não tenho dúvidas. Meus mapeiros, meus guias de campo, as pessoas que estão comigo nessas andanças é que me ensinam, que têm o conhecimento da área, que sabem quando floresce, quando o animal aparece, que lua é melhor para capturar, para andar, que vento, quando o vento sopra, quando a formiga anda de um lado para o outro e vai chover.

Seu Pedro Militão e Dona Graça recebem a equipe em sua casa que está em uma
das áreas de estudo dos tamanduaís. FOTO: JOÃO MARCOS ROSA | NITRO

Quando a gente vê marca de jacaré é porque a chuva tá chegando. São conhecimentos tradicionais que a gente nunca vai chegar. Você pode estudar muito, fazer mestrado, doutorado, pós doc que nunca vai conseguir. Então os verdadeiros professores são os que estão inseridos nas comunidades.

Foram 10 anos para definir que há sete espécies de tamanduaí?

Sim, foram expedições de no mínimo vinte dias, mas eu cheguei a passar quatro, cinco meses em alguns locais. Inclusive com os Yanomamis, que foi uma experiência maravilhosa. Teve o segundo processo, que foi rodar as coleções de história natural. Trabalhei exaustivamente na literatura da descrição. Quem foi, quem coletou, quem desenhou, quem foi o ilustrador, quais expedições foram. Eu fui em mais de vinte coleções de história natural na América Latina, Peru, Colômbia, Equador, Suriname, Europa, EUA. Para você ter uma ideia, foi um ano no laboratório, fazendo toda análise, extração de DNA, análise das árvores filogenéticas, é um grande trabalho.

Tudo esse trabalho requer uma questão administrativa para viabilizar também a pesquisa, não é mesmo?

A academia consegue o financiamento de Governo, hoje nem tanto, mas de Governo. Já a ONG consegue captar recursos de empresas, de editais. Então ambos têm que andar juntos. Aí vai uma dica para as novas mulheres na conservação. A gente precisa saber de administração. O mato é a essência, é aqui que eu recarrego a minha energia. Mas eu passo bom tempo também da vida na administração escrevendo projetos, captando recursos.

E hoje o que vocês sabem do tamanduaí do Nordeste?

Os tamanduás geralmente carregam os filhotes nas costas, tamanduaí não. Dá mais ou menos umas cinco horas da tarde, ela amamenta, faz o cuidadinho e deixa ele sozinho na folhinha e vai forragear, vai comer e volta de madrugada e ele fica lá sozinho. Aquele negocinho quietinho ali, porque é muito peso para ela carregar. A gestação dela é mais longa e o filhote já nasce muito mais pronto do que os outros tamanduás e é interessante isso, porque essa espécie é uma espécie única. Ela tem uma datação, ela é muito mais antiga que os outros tamanduás: é uma interface entre as preguiças e os tamanduás.

As preguiças, que são os parentes próximos, vieram de ambiente terrestres e foram mudando para um ambiente arbóreo. Hoje a gente não tem preguiça de chão, só preguiça de árvore. E os tamanduás a gente acredita que foram diferentes, vieram de um ambiente arbóreo e estão indo para o terrestre. Então o ciclo dos tamanduaís é arbóreo, o tamanduá mirim ocupa tanto o nicho de árvore, como de solo. E o tamanduá-bandeira só do chão, só terrestre.

Estamos participando da primeira expedição do ano e tem essa questão da paisagem que está te levando a fazer novos estudos. Como é que você se sente neste momento?

Muito contente, eu particularmente gosto de desafios. O que me move é desafios, por isso que eu tenho essa alma de naturalista, de expedição. Essa transição de trabalhar com espécie e agora trabalhar com ambiente. A gente tá criando uma rede de parceria para que venham nos ajudar. Agora é a construção de um viveiro de mudas.

Aqui [falando do Delta do Parnaíba] é um berçário da biodiversidade marinha. A gente tá falando de uma área riquíssima, com mais de 90 ilhas. É nessa área que a gente quer atuar. O tamanduá não está ameaçado aqui, mas ele está de mãos dadas em termos de preservação do mangue. A gente quer usar ele como um símbolo, uma espécie que vem mostrar a importância da manutenção desse mangue. A ideia é que a gente consiga manter o ambiente preservado para todas as espécies e também para as comunidades que vivem aqui.

Você acha hoje que trabalha na conservação ou caminhando para registrar extinções?

Me pergunto isso todos os dias. Trabalho para manter tudo isso aqui preservado. A ideia é essa. Mas a gente não consegue predizer o que vai acontecer. A gente trabalha com várias ferramentas para predizer, até mesmo de modelagem, as análises genéticas de datação, mas eu não me sinto dona dessa ferramenta. Não me sinto. A gente está com o coronavírus agora, a gente já teve o influenza aviária. A febre amarela que quase extinguiu populações de primatas, reduziu muriquis em 80%. Eu não me sinto confortável para predizer nada.

Acho que a gente está num caminho muito difícil. Num momento muito crítico, principalmente em termos de Governo. Eu como ambientalista, como mulher, como professora universitária, nunca imaginei passar por esse cenário. E me amedronta. E o que a gente faz agora é um trabalho de alerta. Vamos plantar, vamos reflorestar, vamos fazer e vamos registrar. Porque a gente está nesses dois processos. Conservando o que a gente pode, preservando e fazendo o que a gente pode. Mas registrando que vai acabar, porque vai. Não quero mais esse papel do otimista que vai salvar o planeta. Eu quero o papel do realista, por isso que eu gosto de pesquisa, a pesquisa me dá dados para ser realista. E o terceiro setor me dá ferramentas para ser otimista e fazer. Então eu acho que a gente está indo para um processo em que muita coisa tem que estar registrada antes que acabe.

O que o tamanduaí pode trazer para a sociedade?

Eles estão há 33 milhões de anos, a gente está há dez mil. Quem somos nós para falar qual é o papel deles. Eles que têm que falar para nós. Então assim eu tenho respeito por quem está antes, quem chegou antes de mim no espaço. Então eu tenho respeito por aqueles animais, pela idade que eles têm aqui. Pela função ecológica. Eles passaram por várias extinções, várias, todas essas extinções em massa. Eles se mantiveram e são os animais que, no mínimo, têm para nos ensinar, porque a gente não tá conseguindo ficar mais de dez mil anos aqui. Um tamanduá não acaba com um formigueiro. Ele come um tanto e vai para outro, ele deixa. Isso para mim é um respeito. Então é a gente que tem que aprender.

Para saber mais sobre o trabalho de Flávia e sua história na conservação, acesse a reportagem de Paulina Chamorro para o projeto Mulheres na Conservação na National Geographic e ouça o podcast.

Confira também o episódio da web série Mulheres na Conservação, da Fundação Toyota do Brasil, com Flávia Miranda.

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